No vídeo abaixo, a então Ministra Dilma, com amplo conhecimento, e mantendo a calma, desmonta a pseudo-jornalista Miriam Leitão, uma porta-voz de baixa qualificação dos mercados financeiros. Nocaute técnico, a infeliz foi derrubada várias vezes. Parênteses: Miriam está tão atrasada que até do Serra tomou paulada. A garotinha de recados dos money managers deve se ressentir do tempo em que tinha acesso à alta cúpula econômica do governo, quando acreditava piamente, até o fim, que 1 real valia 1 dólar.
Essa foi outra entrevista na qual Dilma foi mostrando a que veio. Ela sempre se saiu melhor assim, quando é mais espontânea, livre da marquetagem.
Mostrando postagens com marcador eleições 2010. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eleições 2010. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 2 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O "lançamento" da candidatura
O distinto Senador Agripino Maia, ao questionar a então Ministra Dilma, numa CPI, sobre o fato de ter afirmado uma vez que mentiu durante a ditadura, ou seja, que sabia e estava acostumada a mentir, levou uma invertida que o trucidou. Abaixo então temos Dilma em um de seus melhores momentos. Creio que mesmo na campanha ela não chegou a ir tão bem quanto nesse depoimento espontâneo. Alguns analistas consideram essa ocasião um lançamento "informal", não planejado, um fato político que alavancou sua candidatura.
Nocaute, como lembram alguns comentaristas.
Nocaute, como lembram alguns comentaristas.
Oráculo
Em 5 de outubro, escrevi que Dilma deveria vencer com 55% contra 45%. Pois bem, com uns 93% dos votos apurados, o placar é esse mesmo. A diferença talvez aumente um pouquinho.
Depois escrevo sobre o resultado.
Depois escrevo sobre o resultado.
domingo, 31 de outubro de 2010
31 de outubro
31 de outubro de 2010 é dia de celebração da democracia brasileira. Na China, a brincadeira começa daqui a pouco. Deixo a Aquarela Brasileira para celebrar mais esse momento histórico.
João Bosco, num clássico do "meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil"
E o Zé Carioca numa peça fantástica. Eu sei, eu sei, Disney tem toda uma polêmica envolvida, wo jidou, tenho algumas várias reservas, mas não contaminemos toda arte com política.
João Bosco, num clássico do "meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil"
E o Zé Carioca numa peça fantástica. Eu sei, eu sei, Disney tem toda uma polêmica envolvida, wo jidou, tenho algumas várias reservas, mas não contaminemos toda arte com política.
Marcadores:
democracia,
eleições 2010,
música,
política
domingo, 24 de outubro de 2010
China-Brasil, razão e paixão
O título é meio pretensioso, mas o post, como o blog, non troppo.
Saudade do Brasil. Mas não queria estar no Brasil nessas semanas. Muitas calúnias, agressões, é uma guerra de torcidas movida a demagogia e hipocrisia. As grandes questões para os próximos não estão sendo discutidas. O debate é superficial, a marquetagem domina. Enfim, o jogo é baixo. Fla-Flu, ou nós ou eles, amor e ódio.
Tenho dito aqui, o Brasil não precisa de confronto, mas sim de diálogo. Há um cenário externo muito complicado e perigoso para os próximos anos, temos que nos prepararmos, infelizmente perdemos a oportunidade de discutir uma série de coisas nessas eleições. Tenho receio de que o clima de batalha perdure mesmo passada a eleição, isso não será nada bom.
Prefiro então, por enquanto, ficar por aqui, auto-exilado em meio aos pandas da Província de Sichuan, passeando pela herança do Reino de Shu, conquistado pela Dinastia Chin, que se desenvolveu aproveitando-se das belas planícies irrigadas pelo Yangtzé, que desce do topo no mundo, no alto do Himalaia, onde deve fazer uma friaca da porra. Descobri também que nessa região resiste uma sociedade matriarcal às margens do lado Lugu, na fronteira com a Província de Yunnan, depois quem sabe eu escrevo sobre isso.
Na China, quanto mais a gente vai mexendo, mais coisa aparece. Tudo muito interessante, o mistério, o fascínio, as descobertas, aventuras. Mas volto e retorno de onde nunca saí, fico com o Brasil tropical, estou com saudade do Brasil, tenho pensado sobre o Brasil e compartilho vídeos selecionados cheios de Brasil. São entrevistas, declarações, feitas por brasileiros e para os brasileiros, parte de nossa história, de onde bebemos o futuro, fontes de inspiração e força, Glauber, Darcy, Freire, Milton Santos, pensadores, sonhadores, é sempre um refresco ouvi-los.
Saudade do Brasil. Mas não queria estar no Brasil nessas semanas. Muitas calúnias, agressões, é uma guerra de torcidas movida a demagogia e hipocrisia. As grandes questões para os próximos não estão sendo discutidas. O debate é superficial, a marquetagem domina. Enfim, o jogo é baixo. Fla-Flu, ou nós ou eles, amor e ódio.
Tenho dito aqui, o Brasil não precisa de confronto, mas sim de diálogo. Há um cenário externo muito complicado e perigoso para os próximos anos, temos que nos prepararmos, infelizmente perdemos a oportunidade de discutir uma série de coisas nessas eleições. Tenho receio de que o clima de batalha perdure mesmo passada a eleição, isso não será nada bom.
Prefiro então, por enquanto, ficar por aqui, auto-exilado em meio aos pandas da Província de Sichuan, passeando pela herança do Reino de Shu, conquistado pela Dinastia Chin, que se desenvolveu aproveitando-se das belas planícies irrigadas pelo Yangtzé, que desce do topo no mundo, no alto do Himalaia, onde deve fazer uma friaca da porra. Descobri também que nessa região resiste uma sociedade matriarcal às margens do lado Lugu, na fronteira com a Província de Yunnan, depois quem sabe eu escrevo sobre isso.
Na China, quanto mais a gente vai mexendo, mais coisa aparece. Tudo muito interessante, o mistério, o fascínio, as descobertas, aventuras. Mas volto e retorno de onde nunca saí, fico com o Brasil tropical, estou com saudade do Brasil, tenho pensado sobre o Brasil e compartilho vídeos selecionados cheios de Brasil. São entrevistas, declarações, feitas por brasileiros e para os brasileiros, parte de nossa história, de onde bebemos o futuro, fontes de inspiração e força, Glauber, Darcy, Freire, Milton Santos, pensadores, sonhadores, é sempre um refresco ouvi-los.
Marcadores:
china,
cinema,
eleições 2010,
filosofia,
história do brasil
domingo, 17 de outubro de 2010
Mais dois artigos
Prometo parar de falar a respeito. Mas seguem aí mais dois artigos sobre o vazio programático do processo eleitoral brasileiro. Pra não ocupar muito espaço, ficam os links. Walter Maierovitch comenta sobre a ausência de debate sobre a questão prisional. Vitor Soares comenta sobre o jogo pesado e superficial da reta final da campanha. É o Fla-Flu que eu tanto temia.
Eles estão surdos
FERNANDA TORRES
Eles estão surdos
--------------------------------------------------------------------------------
Candidatos fecham o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo numa massa sonora sem relevância --------------------------------------------------------------------------------
HORÁCIO, o amigo confidente de Hamlet, passa toda a tragédia de Shakespeare servindo de ouvido para as angústias do príncipe. No fim, recebe a incumbência de contar às futuras gerações a história do herói, mas a peça termina antes que possa fazê-lo.
Preencher os longos momentos de silêncio, testemunhando todos os dias as mesmas palavras, é exercício fino de atuação. Horácio conduz a poesia por meio de sua atenção e ajuda a fazer a ponte entre Hamlet e o espectador.
O ator Pedro Cardoso costuma dizer que o mundo é feito de monólogos. Segundo ele, ninguém presta realmente atenção no que o outro está dizendo. O ouvinte, no fundo, só espera a pausa do interlocutor para sair falando o que pensava enquanto o parceiro gastava o verbo.
O virulento debate entre os dois candidatos que restaram é um exemplo típico da teoria do Pedro.
Com apenas dois lutadores na arena, a necessidade de contrapor as diferenças triplicou. É forçoso impedir que o recado do oponente chegue ao eleitor. Cada um enaltece sua versão absoluta da realidade e despreza a do concorrente. Qualquer possibilidade que não seja a própria vitória é apresentada como uma catástrofe de proporções bíblicas.
Como sofro de pessimismo crônico e desconfio das vacas gordas, tendo a concordar com as previsões funestas.
A descrição de José Serra do que será o Brasil nas mãos de Dilma Rousseff, tomado por barganhas políticas de cargos nos setores estratégicos e perseguido pela execução sumária dos opositores, me causa arrepios.
Da mesma maneira, tremo quando Dilma prevê o fim da justa distribuição de renda pelas mãos do PSDB ou recorda o processo de privatização no reinado tucano.
Meu impulso é sair estocando comida, água e papel higiênico para me preparar para o dilúvio eminente.
Eu sei que é ingenuidade achar que uma corrida eleitoral acontece na gentileza, mas estou com dificuldade de discernir o real do imaginário, a justiça da calúnia, e me preocupa a falta de perspectiva de diálogo futuro entre os dois oponentes.
Nas edições compactas do debate da Band na internet, o vírus da incomunicabilidade se mostra mais agressivo.
A montagem que favorece Dilma é extraordinária. Editaram apenas o início das respostas de Serra ao final de cada uma das assertivas intervenções da petista. Dilma desanca a suposta intenção de privatização da Petrobras por parte do opositor e Serra responde lacônico: "Sempre voltam a essa questão."
Ponto. E Dilma cai novamente de sola em cima do passivo adversário.
O corte é tão cirúrgico que consegue fazer com que Serra concorde com todas as acusações de Dilma.
O vídeo exemplifica a maneira como os candidatos preparam a escuta na corrida eleitoral. Ao contrário do que se exige do ator que encarna Horácio, o candidato deve fechar o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo, também para o eleitor, em uma massa sonora sem relevância.
Como dizia o rei Roberto: eles estão surdos!
--------------------------------------------------------------------------------
FERNANDA TORRES é atriz
Eles estão surdos
--------------------------------------------------------------------------------
Candidatos fecham o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo numa massa sonora sem relevância --------------------------------------------------------------------------------
HORÁCIO, o amigo confidente de Hamlet, passa toda a tragédia de Shakespeare servindo de ouvido para as angústias do príncipe. No fim, recebe a incumbência de contar às futuras gerações a história do herói, mas a peça termina antes que possa fazê-lo.
Preencher os longos momentos de silêncio, testemunhando todos os dias as mesmas palavras, é exercício fino de atuação. Horácio conduz a poesia por meio de sua atenção e ajuda a fazer a ponte entre Hamlet e o espectador.
O ator Pedro Cardoso costuma dizer que o mundo é feito de monólogos. Segundo ele, ninguém presta realmente atenção no que o outro está dizendo. O ouvinte, no fundo, só espera a pausa do interlocutor para sair falando o que pensava enquanto o parceiro gastava o verbo.
O virulento debate entre os dois candidatos que restaram é um exemplo típico da teoria do Pedro.
Com apenas dois lutadores na arena, a necessidade de contrapor as diferenças triplicou. É forçoso impedir que o recado do oponente chegue ao eleitor. Cada um enaltece sua versão absoluta da realidade e despreza a do concorrente. Qualquer possibilidade que não seja a própria vitória é apresentada como uma catástrofe de proporções bíblicas.
Como sofro de pessimismo crônico e desconfio das vacas gordas, tendo a concordar com as previsões funestas.
A descrição de José Serra do que será o Brasil nas mãos de Dilma Rousseff, tomado por barganhas políticas de cargos nos setores estratégicos e perseguido pela execução sumária dos opositores, me causa arrepios.
Da mesma maneira, tremo quando Dilma prevê o fim da justa distribuição de renda pelas mãos do PSDB ou recorda o processo de privatização no reinado tucano.
Meu impulso é sair estocando comida, água e papel higiênico para me preparar para o dilúvio eminente.
Eu sei que é ingenuidade achar que uma corrida eleitoral acontece na gentileza, mas estou com dificuldade de discernir o real do imaginário, a justiça da calúnia, e me preocupa a falta de perspectiva de diálogo futuro entre os dois oponentes.
Nas edições compactas do debate da Band na internet, o vírus da incomunicabilidade se mostra mais agressivo.
A montagem que favorece Dilma é extraordinária. Editaram apenas o início das respostas de Serra ao final de cada uma das assertivas intervenções da petista. Dilma desanca a suposta intenção de privatização da Petrobras por parte do opositor e Serra responde lacônico: "Sempre voltam a essa questão."
Ponto. E Dilma cai novamente de sola em cima do passivo adversário.
O corte é tão cirúrgico que consegue fazer com que Serra concorde com todas as acusações de Dilma.
O vídeo exemplifica a maneira como os candidatos preparam a escuta na corrida eleitoral. Ao contrário do que se exige do ator que encarna Horácio, o candidato deve fechar o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo, também para o eleitor, em uma massa sonora sem relevância.
Como dizia o rei Roberto: eles estão surdos!
--------------------------------------------------------------------------------
FERNANDA TORRES é atriz
sábado, 16 de outubro de 2010
O Idiota
Estive ausente por excesso de trabalho e problemas no programinha que uso para acessar o youtube e blogs em geral. Tenho acompanhado bastante o processo eleitoral no Brasil. Tenho visto os programas eleitorais, vi o debate de domingo na Band, gostei bastante, os dois foram bem, o segundo turno os obriga a se mexer. Espero que se mostrem ainda mais, que sejam questionados, que se abram.
Lógico que há temas, como já comentei aqui, que não deveriam fazer parte do debate eleitoral. Há demagogia, inverdades, algumas calúnias, acusações pessoais, familiares, dos dois lados a coisa deu uma degringolada chata. Questões como as contas externas, o meio ambiente, o pré-sal, a reforma política, itens como o trem-bala, os investimentos para a Copa e as Olimpíadas, tudo isso é pouco discutido, e muito muito no geral, quando não estão ausentes do debate. O clima esquentou muito, perde a esfera pública, ganham as claques.
Eu não votei no primeiro turno. Não votarei no segundo turno. Explico: trabalhei numa seção eleitoral no sul da China, no segundo turno voltarei a trabalhar lá. Na verdade, fui e serei o representante da justiça eleitoral na seção, que beleza. Mas meu título eleitoral é de Pequim. Então não posso votar. Lamento, pois queria.
Por razões familiares, e por comodismo, não deveria escrever o que vem a seguir. Até por oportunismo, pois pode ser que haja uma virada. Mas vejo que o momento é delicado e há uma polarização. Aqueles que se interessam por política estão sendo chamados a se manifestar. Aqueles que, como eu, já votaram dos dois lados, e em outras circunstâncias em Ciro Gomes, Cristovam Buarque, e nessa provavelmente em Marina, estão tendo que pular para um dos lados. Apesar dos pesares, do baixo nível que a campanha atual apresenta por vezes, muitas vezes. E apesar de ambos candidatos, na minha opinião, terem história e competência para conduzir o Brasil.
Explico: não sou daqueles que vê o fim do mundo em nenhum dos casos. Independente de quem ganhar, temos que investir no diálogo, não no confronto. Torcer. Acreditar. Trata-se do processo democrático, mais do que a vitória de A ou de B.
Bom, vamos lá. Se pudesse votar, de maneira alguma seria branco ou nulo, não iria me eximir. Meu voto iria para a candidata que representa, sem sombra de dúvida, a continuidade de um projeto nacional, democrático e popular. Como bem poderia imaginar quem acompanha esse blog. Que de chapa branca não tem muita coisa, apesar de seguidos elogios à política externa brasileira. Basta ver meus comentários sobre os gênios do Banco Central. Ou sobre questões ligadas à Copa e às Olimpíadas. Assuntos sérios, fundamentais.
Enfim, meus pouquíssimos leitores hão de reconhecer que sou um idiota, eu sei. Não devia ter escrito isso, e muitas outras coisas, eu sei. Talvez alguns parentes vão querer me enforcar. Amigos vão comentar. Hewentalittlefunnyinthehead. Sei, sei bem, que o clima é de guerra, particularmente em SP. Mas fiquem tranquilos. Quase ninguém lê esse blog. Eu tenho os números. É coisa de 3 por dia, às vezes 5, e creio que muitas vezes os mesmos. Mas foi crescendo um sentimento e não dá pra esconder. É preciso descer do muro.
Meu voto seria para Dilma Rousseff, por certamente representar a continuidade de um projeto maior de nação. É claro que me preocupo com sua falta de experiência administrativa, com sua possível inabilidade, com denúncias de corrupção que não são devidamente conduzidas, com a maneira como o Congresso é e será levado, com seu temperamento forte, e as pressões que sofrerá, num Brasil que precisa de diálogo. Mas votaria nela, não tenho dúvidas disso.
Sou um idiota, eu sei. No curto prazo, em termos profissionais, que no meu caso são quase termos pessoais, o melhor seria a vitória do Serra.
Enfim, na China também há um idiota que ousou falar o que pensa. Ganhou o Nobel, mas tem apenas uma hora de sol por dia e está afastado de sua mulher. Estarei bem, para onde quer que a onda vá. Assim espero com o Brasil.
Falei outra coisa que não devia falar... fim.
Lógico que há temas, como já comentei aqui, que não deveriam fazer parte do debate eleitoral. Há demagogia, inverdades, algumas calúnias, acusações pessoais, familiares, dos dois lados a coisa deu uma degringolada chata. Questões como as contas externas, o meio ambiente, o pré-sal, a reforma política, itens como o trem-bala, os investimentos para a Copa e as Olimpíadas, tudo isso é pouco discutido, e muito muito no geral, quando não estão ausentes do debate. O clima esquentou muito, perde a esfera pública, ganham as claques.
Eu não votei no primeiro turno. Não votarei no segundo turno. Explico: trabalhei numa seção eleitoral no sul da China, no segundo turno voltarei a trabalhar lá. Na verdade, fui e serei o representante da justiça eleitoral na seção, que beleza. Mas meu título eleitoral é de Pequim. Então não posso votar. Lamento, pois queria.
Por razões familiares, e por comodismo, não deveria escrever o que vem a seguir. Até por oportunismo, pois pode ser que haja uma virada. Mas vejo que o momento é delicado e há uma polarização. Aqueles que se interessam por política estão sendo chamados a se manifestar. Aqueles que, como eu, já votaram dos dois lados, e em outras circunstâncias em Ciro Gomes, Cristovam Buarque, e nessa provavelmente em Marina, estão tendo que pular para um dos lados. Apesar dos pesares, do baixo nível que a campanha atual apresenta por vezes, muitas vezes. E apesar de ambos candidatos, na minha opinião, terem história e competência para conduzir o Brasil.
Explico: não sou daqueles que vê o fim do mundo em nenhum dos casos. Independente de quem ganhar, temos que investir no diálogo, não no confronto. Torcer. Acreditar. Trata-se do processo democrático, mais do que a vitória de A ou de B.
Bom, vamos lá. Se pudesse votar, de maneira alguma seria branco ou nulo, não iria me eximir. Meu voto iria para a candidata que representa, sem sombra de dúvida, a continuidade de um projeto nacional, democrático e popular. Como bem poderia imaginar quem acompanha esse blog. Que de chapa branca não tem muita coisa, apesar de seguidos elogios à política externa brasileira. Basta ver meus comentários sobre os gênios do Banco Central. Ou sobre questões ligadas à Copa e às Olimpíadas. Assuntos sérios, fundamentais.
Enfim, meus pouquíssimos leitores hão de reconhecer que sou um idiota, eu sei. Não devia ter escrito isso, e muitas outras coisas, eu sei. Talvez alguns parentes vão querer me enforcar. Amigos vão comentar. Hewentalittlefunnyinthehead. Sei, sei bem, que o clima é de guerra, particularmente em SP. Mas fiquem tranquilos. Quase ninguém lê esse blog. Eu tenho os números. É coisa de 3 por dia, às vezes 5, e creio que muitas vezes os mesmos. Mas foi crescendo um sentimento e não dá pra esconder. É preciso descer do muro.
Meu voto seria para Dilma Rousseff, por certamente representar a continuidade de um projeto maior de nação. É claro que me preocupo com sua falta de experiência administrativa, com sua possível inabilidade, com denúncias de corrupção que não são devidamente conduzidas, com a maneira como o Congresso é e será levado, com seu temperamento forte, e as pressões que sofrerá, num Brasil que precisa de diálogo. Mas votaria nela, não tenho dúvidas disso.
Sou um idiota, eu sei. No curto prazo, em termos profissionais, que no meu caso são quase termos pessoais, o melhor seria a vitória do Serra.
Enfim, na China também há um idiota que ousou falar o que pensa. Ganhou o Nobel, mas tem apenas uma hora de sol por dia e está afastado de sua mulher. Estarei bem, para onde quer que a onda vá. Assim espero com o Brasil.
Falei outra coisa que não devia falar... fim.
Marcadores:
democracia,
eleições 2010,
música,
política
sábado, 9 de outubro de 2010
Santa ingenuidade
No post abaixo, manifestei a esperança de que no segundo turno pudessem ser discutidos temas mais substantivos, propostas, projetos, rumos mais estruturais do país. Mencionei as contas externas, cheguei a citar a PNAD, tive devaneios com pacto federativo e estrutura tributária, delirei com a reforma política.
Santa ingenuidade. Pelo que vi até agora, teremos um apelo barato a emoções, à mistura de política com religião, boatos, o denuncismo, comparações enviesadas entre governos ignorando um sentido de continuidade na democracia da Nova República, enfim, é guerra, é o duelo de versões, a superficialidade, uma espécie de vale-tudo maquiado pela marquetagem.
O blog provavelmente retornará, portanto, a seu habitual silêncio sobre as idas e vindas da batalha e confortavelmente, confesso, procurará discutir um pouco mais da desordem econômica e política internacional, mostrar um pouco da China que me fascina, e às vezes assusta, além de pitadas de respiros musicais, cinematográficos e etcéteras.
Para uns, o muro é tucanagem e tudo mais que se associa ao termo. Para outros, o muro é condescender com ameaças à democracia e à familia brasileira, ai ai ai...
A meus poucos e valorosos leitores, uma poesia para refrescar a alma.
Rudyard Kipling
If
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!
Tradução de Guilherme de Almeida
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!
Santa ingenuidade. Pelo que vi até agora, teremos um apelo barato a emoções, à mistura de política com religião, boatos, o denuncismo, comparações enviesadas entre governos ignorando um sentido de continuidade na democracia da Nova República, enfim, é guerra, é o duelo de versões, a superficialidade, uma espécie de vale-tudo maquiado pela marquetagem.
O blog provavelmente retornará, portanto, a seu habitual silêncio sobre as idas e vindas da batalha e confortavelmente, confesso, procurará discutir um pouco mais da desordem econômica e política internacional, mostrar um pouco da China que me fascina, e às vezes assusta, além de pitadas de respiros musicais, cinematográficos e etcéteras.
Para uns, o muro é tucanagem e tudo mais que se associa ao termo. Para outros, o muro é condescender com ameaças à democracia e à familia brasileira, ai ai ai...
A meus poucos e valorosos leitores, uma poesia para refrescar a alma.
Rudyard Kipling
If
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!
Tradução de Guilherme de Almeida
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!
Marcadores:
blog,
democracia,
eleições 2010,
poesia,
política
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Dois Pesos...
Maria Rita Kehl, no Estadão (parece que foi demitida por causa do artigo)
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
Marcadores:
democracia,
eleições 2010,
Imprensa,
política
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Palpite
Pedem-me um palpite, então vamos lá. Dilma segue favoritíssima e deve levar com alguma folga, do tipo 55% a 45%. A democracia não estará ameaçada, o país seguirá avançando e a oposição terá quatro anos para se renovar e apresentar um novo discurso que atualize seu programa para 2014.
E aproveitando que supostamente estou no encontro do Ocidente com o Oriente, arrisco alguma filosofia política barata.
Há riscos para Dilma, que nunca foi testada nas urnas: na política, como na vida, há muito mais de paixão do que de razão. E a paixão, como sabemos, tem idas e vindas, é surpreendente, afortunada ou traiçoeira. A distância entre o amor e o ódio pode se mostrar pequena, a depender das circunstâncias.
E no caso de argumentos mais racionais, os quais não vou enumerar aqui, há diversas variáveis novas nesse jogo do segundo turno. Portanto, é possível arriscar, mas não asseguro nada. Garanto apenas que a democracia brasileira sairá mais forte independente de quem vencer as eleições. Não se brinca com a soberania popular. Os perdedores que se reciclem para 2014.
E aproveitando que supostamente estou no encontro do Ocidente com o Oriente, arrisco alguma filosofia política barata.
Há riscos para Dilma, que nunca foi testada nas urnas: na política, como na vida, há muito mais de paixão do que de razão. E a paixão, como sabemos, tem idas e vindas, é surpreendente, afortunada ou traiçoeira. A distância entre o amor e o ódio pode se mostrar pequena, a depender das circunstâncias.
E no caso de argumentos mais racionais, os quais não vou enumerar aqui, há diversas variáveis novas nesse jogo do segundo turno. Portanto, é possível arriscar, mas não asseguro nada. Garanto apenas que a democracia brasileira sairá mais forte independente de quem vencer as eleições. Não se brinca com a soberania popular. Os perdedores que se reciclem para 2014.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Segundo turno
Segundo turno nas eleições presidenciais. Marina Silva, adorada Marina de tempos atrás, está aí com quase 20 milhões de votos e deu esse presente para a democracia brasileira, a oportunidade de aprofundarmos a discussão, forçar os candidatos a debaterem com mais responsabilidade o Brasil que desejamos e o que farão para alcançá-lo. Aqui, aqui, aqui, ali, acolá, acá, seis posts em meados de agosto de 2009 sobre a importância da candidatura de nossa Rainha Marina, como a chamei no último desses seis posts. O blog antecipa tendências, heheh, é um oráculo da política nacional ho ho ho.
Da parte do Serra, espero que deixe de lado o vitimismo sigiloso, as conversas sobre Farc, exageros sobre o Irã, que ignore a política do medo defendida por parte de seus aliados, com direito a vídeos apócrifos, boatos, temas como aborto, a suposta ameaça à democracia, às liberdades e aos direitos individuais. Essas supostas ameaças não existem e dificultam a discussão dos rumos do país, desviam do assunto. O Governo Lula foi bem sucedido, Dilma é uma mulher com uma grande história, por favor gostaria que Serra se limitasse a debater com ela os rumos do país em 2011-2014. E também como espera governar sem ter maioria no Congresso (já sabemos, o PMDB vira a casaca rapidinho, mas a qual preço?).
Da parte de Dilma, espero que não fique olhando para o passado, mas sim para o futuro. Nem tudo começou em 2003, nem tudo voltará a 1995 caso Serra seja eleito. O mundo mudou, o país mudou, é tempo de olhar para frente. Penso que ela deveria aprofundar-se nos desafios do Brasil de 2010 sem, é claro, deixar de destacar avanços trazidos pelo Governo Lula, mas apontando quais rumos manterá e o que alterará. Pois é fato que o Brasil de Dilma não será o Brasil de Lula. E o mundo de Dilma não será o mundo de Lula. Venho alertando: o cenário internacional se deteriora a olhos vistos. Dilma não tem experiência na chefia do executivo e terá que lidar com muitas cascas de banana e armadilhas, da oposição, mas também de seus próprios aliados (aliados? ou sanguesugas?).
Da parte de Marina, espero que não fique em cima do muro. Barganhe e dê apoio ao candidato que assumir o compromisso mais firme com sua agenda ambiental.
Segue lista não exaustiva, e sem ordem de prioridade, de temas/questões para os dois:
--> Os dados da PNAD 2009, uma enorme fotografia sobre o Brasil que oferece diversas pistas de coisas que devem ser melhoradas como, por exemplo, o acesso a saneamento básico, educação, desigualdades sociais e regionais diversas.
--> O financiamento da economia brasileira. O déficit externo, o nível de juros, o câmbio, a relação entre Estado e Mercado. Creio que uma medida simples, que já seria extremamente positiva, seria gravar as reuniões do COPOM e tornar suas atas públicas em 2 anos. Isso já faria com que os diretores do BC fossem mais cautelosos. Outra medida importante seria jogar mais areia, muita areia, na ciranda dos recursos externos que entram para ganhar na dobradinha câmbio-juros. Isso não se anuncia assim, mas pode-se comprometer de maneira mais firme com a interrupção desse processo vicioso.
--> O financiamento público eleitoral, a reforma política. As relações com o Congresso. Em que bases serão feitas as coalizões e como pretendem torná-la mais propositiva e menos distributiva, se é que me entendem.
--> A estrutura tributária regressiva, o pacto federativo.
--> Esses dois itens acima são altamente problemáticos. Todos reconhecem que algo deve ser feito, mas todos têm suas próprias reformas, o que impede que a questão saia do lugar.
--> A justiça brasileira. O que acham do CNJ, o papel do STF, a nomeação de juízes para os tribunais superiores.
--> A estrutura de poder, os gastos, as responsabilidades para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Estamos repetindo os erros do Pan. Dinheiro público, lucros privados.
--> A questão ambiental, o desmatamento na Amazônia, mas também no cerrado, a prevalência de automóveis, a abertura de novas rodovias, os incêndios que todo ano devastam os parques nacionais (a Chapada e os Parques Nacionais do DF foram detonados de novo esse ano).
--> O financiamento das atividades culturais, a relação entre cultura e educação. Vide Gil e Caetano abaixo.
--> Os impactos do aumento da extração de minérios e combustíveis sobre o meio-ambiente.
--> Os dois deveriam assumir compromissos de que, uma vez na oposição, não se comportarão como o PT em 1995-2002 e o PSDB-DEM em 2003-2010. Isso é fundamental.
Ficamos hoje com mais um vídeo da Aquarela do Brasil, Gil & Caetano, Caetano & Gil, viva a Bahia, viva o Brasil.
Da parte do Serra, espero que deixe de lado o vitimismo sigiloso, as conversas sobre Farc, exageros sobre o Irã, que ignore a política do medo defendida por parte de seus aliados, com direito a vídeos apócrifos, boatos, temas como aborto, a suposta ameaça à democracia, às liberdades e aos direitos individuais. Essas supostas ameaças não existem e dificultam a discussão dos rumos do país, desviam do assunto. O Governo Lula foi bem sucedido, Dilma é uma mulher com uma grande história, por favor gostaria que Serra se limitasse a debater com ela os rumos do país em 2011-2014. E também como espera governar sem ter maioria no Congresso (já sabemos, o PMDB vira a casaca rapidinho, mas a qual preço?).
Da parte de Dilma, espero que não fique olhando para o passado, mas sim para o futuro. Nem tudo começou em 2003, nem tudo voltará a 1995 caso Serra seja eleito. O mundo mudou, o país mudou, é tempo de olhar para frente. Penso que ela deveria aprofundar-se nos desafios do Brasil de 2010 sem, é claro, deixar de destacar avanços trazidos pelo Governo Lula, mas apontando quais rumos manterá e o que alterará. Pois é fato que o Brasil de Dilma não será o Brasil de Lula. E o mundo de Dilma não será o mundo de Lula. Venho alertando: o cenário internacional se deteriora a olhos vistos. Dilma não tem experiência na chefia do executivo e terá que lidar com muitas cascas de banana e armadilhas, da oposição, mas também de seus próprios aliados (aliados? ou sanguesugas?).
Da parte de Marina, espero que não fique em cima do muro. Barganhe e dê apoio ao candidato que assumir o compromisso mais firme com sua agenda ambiental.
Segue lista não exaustiva, e sem ordem de prioridade, de temas/questões para os dois:
--> Os dados da PNAD 2009, uma enorme fotografia sobre o Brasil que oferece diversas pistas de coisas que devem ser melhoradas como, por exemplo, o acesso a saneamento básico, educação, desigualdades sociais e regionais diversas.
--> O financiamento da economia brasileira. O déficit externo, o nível de juros, o câmbio, a relação entre Estado e Mercado. Creio que uma medida simples, que já seria extremamente positiva, seria gravar as reuniões do COPOM e tornar suas atas públicas em 2 anos. Isso já faria com que os diretores do BC fossem mais cautelosos. Outra medida importante seria jogar mais areia, muita areia, na ciranda dos recursos externos que entram para ganhar na dobradinha câmbio-juros. Isso não se anuncia assim, mas pode-se comprometer de maneira mais firme com a interrupção desse processo vicioso.
--> O financiamento público eleitoral, a reforma política. As relações com o Congresso. Em que bases serão feitas as coalizões e como pretendem torná-la mais propositiva e menos distributiva, se é que me entendem.
--> A estrutura tributária regressiva, o pacto federativo.
--> Esses dois itens acima são altamente problemáticos. Todos reconhecem que algo deve ser feito, mas todos têm suas próprias reformas, o que impede que a questão saia do lugar.
--> A justiça brasileira. O que acham do CNJ, o papel do STF, a nomeação de juízes para os tribunais superiores.
--> A estrutura de poder, os gastos, as responsabilidades para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Estamos repetindo os erros do Pan. Dinheiro público, lucros privados.
--> A questão ambiental, o desmatamento na Amazônia, mas também no cerrado, a prevalência de automóveis, a abertura de novas rodovias, os incêndios que todo ano devastam os parques nacionais (a Chapada e os Parques Nacionais do DF foram detonados de novo esse ano).
--> O financiamento das atividades culturais, a relação entre cultura e educação. Vide Gil e Caetano abaixo.
--> Os impactos do aumento da extração de minérios e combustíveis sobre o meio-ambiente.
--> Os dois deveriam assumir compromissos de que, uma vez na oposição, não se comportarão como o PT em 1995-2002 e o PSDB-DEM em 2003-2010. Isso é fundamental.
Ficamos hoje com mais um vídeo da Aquarela do Brasil, Gil & Caetano, Caetano & Gil, viva a Bahia, viva o Brasil.
domingo, 3 de outubro de 2010
Nem tudo são flores...
...no Brasil em 3 de outubro de 2010. É evidente que avançamos. É evidente que em comparação com a maior parte dos países do mundo, estamos bem na foto. Mas há muitos problemas, há uma longa estrada, passo a passo, com calma, respiração pausada e prolongada, ponderação, bom senso. Os dados da PNAD 2009, recém divulgados, nos dão uma série de pistas. E as questões da estrutura política, dos sistemas judiciário e eleitoral, do financiamento da economia brasileira, da prevalência de um setor rentista, da violência urbana, da (falta de) convivência social, da educação, são todas de fundamental importância.
Sim, brindemos à democracia brasileira, à melhoria das condições de vida da população, ao aumento do emprego e da renda, à queda da desigualdade, à importância de um Brasil presente nos grandes temas da política internacional. Mas não nos percamos em perigosas euforias. Por ora, cansado após um longo e bem sucedido dia, fico com uma frase de hoje no jornal que de tão pitoresca e cômica parece coisa de frasista, de humorista, mas é uma constatação de um cientista político, no microcosmo da realidade cotidiana, na qual nossa mais alta Corte divaga por longas horas em linguagem hermética para concretizar, num labirinto de interpretações, o nada (ficha limpa vale ou não vale agora?)ou mesmo a negação do que havia sido aprovado pelo Poder Legislativo no ano passado (exigência de título eleitoral, mas qual a razão de terem aprovado isso?).
O ponto é: faltando dias para a eleição? Por que tanta demora? Quais os caminhos, ou descaminhos, da piada pronta?
Apesar de tudo, avançamos. Mas há muito o que fazer. Bom, enfim, fiquei na obviedade. Até amanhã.
"O Brasil é um país tão excêntrico que, a três dias da eleição, ninguém sabia como votar, e, hoje, não sabemos direito em quem podemos votar."
DO CIENTISTA POLÍTICO RUBENS FIGUEIREDO, analisando a reviravolta quanto à documentação necessária para votar e a indefinição sobre os atingidos pela Lei da Ficha Limpa.
Sim, brindemos à democracia brasileira, à melhoria das condições de vida da população, ao aumento do emprego e da renda, à queda da desigualdade, à importância de um Brasil presente nos grandes temas da política internacional. Mas não nos percamos em perigosas euforias. Por ora, cansado após um longo e bem sucedido dia, fico com uma frase de hoje no jornal que de tão pitoresca e cômica parece coisa de frasista, de humorista, mas é uma constatação de um cientista político, no microcosmo da realidade cotidiana, na qual nossa mais alta Corte divaga por longas horas em linguagem hermética para concretizar, num labirinto de interpretações, o nada (ficha limpa vale ou não vale agora?)ou mesmo a negação do que havia sido aprovado pelo Poder Legislativo no ano passado (exigência de título eleitoral, mas qual a razão de terem aprovado isso?).
O ponto é: faltando dias para a eleição? Por que tanta demora? Quais os caminhos, ou descaminhos, da piada pronta?
Apesar de tudo, avançamos. Mas há muito o que fazer. Bom, enfim, fiquei na obviedade. Até amanhã.
"O Brasil é um país tão excêntrico que, a três dias da eleição, ninguém sabia como votar, e, hoje, não sabemos direito em quem podemos votar."
DO CIENTISTA POLÍTICO RUBENS FIGUEIREDO, analisando a reviravolta quanto à documentação necessária para votar e a indefinição sobre os atingidos pela Lei da Ficha Limpa.
sábado, 2 de outubro de 2010
Aproximam-se as eleições
Oito horas antes do início das eleições na China, é chegada a hora de dormir para um longo dia que se aproxima. Não resisto e coloco mais dois vídeos celebrando o Brasil por meio dois grandes Joões, Joãos, Gilberto e Bosco, obrigado caros mestres, sua obra, sua história, nossas vidas. De troco, Novos Baianos, o Pandeiro, o Acarajé, iôiô e iáiá, batucada, iluminai os terreiros que nós queremos sambar.
Marcadores:
democracia,
eleições 2010,
música,
política
Faz sol e calor no sul da China
Em cerca de 14 horas, começam as eleições presidenciais brasileiras no Sul da China, de onde a reportagem estará transmitindo diretamente.
Abre a cortina do passado.
Ouve essas fontes murmurantes.
Para comemorar, Ary Barroso, Aquarela do Brasil, talvez nossa mais bela música, em algumas versões:
Abre a cortina do passado.
Ouve essas fontes murmurantes.
Para comemorar, Ary Barroso, Aquarela do Brasil, talvez nossa mais bela música, em algumas versões:
Marcadores:
democracia,
eleições 2010,
música,
política
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Incêndios
Tanta coisa interessante para comentar. Tantos perigos no mar revolto da política internacional. Tantas decepções no campo das finanças internacionais. Tantas músicas, tantas pessoas, tantas viagens, tantas tantas que só quem não vive não se espanta!
Descobri que o blog antecipa tendências, hehe. A oposição, em vias de ser derrotada, anuncia perigos para a democracia. Já falei sobre isso lá atrás, no ano passado. Há outros posts também. Mas deixa pra lá. Escreverei sobre isso e outras coisas após o resultado final.
Queria comentar mesmo sobre o incêndio na Favela do Real Parque (Jardim Panorama). Mais um incêndio numa favela em SP. Quantos foram nos últimos 12 meses mesmo? Vários, inúmeros. E como anda o Plano Diretor de SP? A Barra Funda? As marginais? A expansão do mercado imobiliário que banca as campanhas de setores da política paulista?
Tudo muito estranho.
Vocês já ouviram falar do Parque Cidade Jardim? Misto de condomínio residencial, clube e shopping center. Você faz tudo sem sair de dentro dos muros de seu paraíso. Só convive com os de sua classe. Além dos empregados, evidentemente. Segurança informatizada, câmeras, agentes de vigilância bem pagos. Uma ilha de riqueza e segurança. Privacidade, privada, privação. Do convívio com o outro.
A arquitetura da segregação. Na sua essência, a anti-democracia. O fechamento do espaço público.
Pois bem, o Parque Cidade Jardim é vizinho da Favela Real Parque. Já havia postado aqui sobre o Na Real do Real, vídeo dos moradores da favela. Agora posto outro, quando os moradores de lá foram protestar durante o evento de inauguração do Parque Cidade Jardim. Isso foi em 2007, creio.
Show de Caetano, estampa fina para os convidados. O Parque Cidade Jardim. De frente para o Rio Pinheiros. Rio sujo e sem vida. Do outro lado das torres das corporações globais. Espremendo as favelas. Muros, seguranças. Um burgo, tal qual na Idade Média. A arquitetura da segregação.
Eu adoro Caetano. Independente de suas opiniões políticas. Não vamos misturar arte com política. Às vezes pode ser, mas com moderação. Senão fica tudo muito chato, muito radicalizado. A força da grana que ergue e destrói coisas belas.
Fiquemos com o vídeo.
Mas antes, irresistível finalizar: os que hoje clamam por democracia são os que desejam derrubá-la. Foi assim com Vargas. Foi assim em 1964. É assim também, de forma caricata e tosca, que se apresentam nossas vestais do Século XXI. Mas vejam só o povo, esse tal de povo, esses que não conhecem sua própria ignorância, que não conhecem seu lugar, que não se colocam em seu lugar, vejam só, o povo está aprendendo a se manifestar. E parece dispensar interpretações.
E como são numerosos! E como incomodam! E como é perigosa essa democracia! Fogo!
(i) em decorrência da manifestação, foi permitida a uma menina, a que sai chorando ao final do vídeo, a leitura de um manifesto aos brancos de olhos azuis (metáfora) que se deliciavam em seu showzinho privê, num espaço privê, com tudo de graça. uma garrafa servida naquela noite valia mais do que o bolsa família de uma mãe carente. muito ainda se escreverá da psicologia, da sociologia, da falta de filosofia de certo pensamento entranhado em parcela das elites paulistanas na alvorada do século XXI... a arquitetura da segregação é apenas uma forma de manifestação dessa distorção terrível
(ii) às vezes sinto-me um exilado, mas creio que todo exilado carrega em si a vontade de retorno ao meio em que se formou, seja para acomodar-se no aconchego familiar, seja para transformá-lo com base em sua própria evolução. cresci ao lado da Favela do Real Parque e no seio da mentalidade do Parque Cidade Jardim
Descobri que o blog antecipa tendências, hehe. A oposição, em vias de ser derrotada, anuncia perigos para a democracia. Já falei sobre isso lá atrás, no ano passado. Há outros posts também. Mas deixa pra lá. Escreverei sobre isso e outras coisas após o resultado final.
Queria comentar mesmo sobre o incêndio na Favela do Real Parque (Jardim Panorama). Mais um incêndio numa favela em SP. Quantos foram nos últimos 12 meses mesmo? Vários, inúmeros. E como anda o Plano Diretor de SP? A Barra Funda? As marginais? A expansão do mercado imobiliário que banca as campanhas de setores da política paulista?
Tudo muito estranho.
Vocês já ouviram falar do Parque Cidade Jardim? Misto de condomínio residencial, clube e shopping center. Você faz tudo sem sair de dentro dos muros de seu paraíso. Só convive com os de sua classe. Além dos empregados, evidentemente. Segurança informatizada, câmeras, agentes de vigilância bem pagos. Uma ilha de riqueza e segurança. Privacidade, privada, privação. Do convívio com o outro.
A arquitetura da segregação. Na sua essência, a anti-democracia. O fechamento do espaço público.
Pois bem, o Parque Cidade Jardim é vizinho da Favela Real Parque. Já havia postado aqui sobre o Na Real do Real, vídeo dos moradores da favela. Agora posto outro, quando os moradores de lá foram protestar durante o evento de inauguração do Parque Cidade Jardim. Isso foi em 2007, creio.
Show de Caetano, estampa fina para os convidados. O Parque Cidade Jardim. De frente para o Rio Pinheiros. Rio sujo e sem vida. Do outro lado das torres das corporações globais. Espremendo as favelas. Muros, seguranças. Um burgo, tal qual na Idade Média. A arquitetura da segregação.
Eu adoro Caetano. Independente de suas opiniões políticas. Não vamos misturar arte com política. Às vezes pode ser, mas com moderação. Senão fica tudo muito chato, muito radicalizado. A força da grana que ergue e destrói coisas belas.
Fiquemos com o vídeo.
Mas antes, irresistível finalizar: os que hoje clamam por democracia são os que desejam derrubá-la. Foi assim com Vargas. Foi assim em 1964. É assim também, de forma caricata e tosca, que se apresentam nossas vestais do Século XXI. Mas vejam só o povo, esse tal de povo, esses que não conhecem sua própria ignorância, que não conhecem seu lugar, que não se colocam em seu lugar, vejam só, o povo está aprendendo a se manifestar. E parece dispensar interpretações.
E como são numerosos! E como incomodam! E como é perigosa essa democracia! Fogo!
(i) em decorrência da manifestação, foi permitida a uma menina, a que sai chorando ao final do vídeo, a leitura de um manifesto aos brancos de olhos azuis (metáfora) que se deliciavam em seu showzinho privê, num espaço privê, com tudo de graça. uma garrafa servida naquela noite valia mais do que o bolsa família de uma mãe carente. muito ainda se escreverá da psicologia, da sociologia, da falta de filosofia de certo pensamento entranhado em parcela das elites paulistanas na alvorada do século XXI... a arquitetura da segregação é apenas uma forma de manifestação dessa distorção terrível
(ii) às vezes sinto-me um exilado, mas creio que todo exilado carrega em si a vontade de retorno ao meio em que se formou, seja para acomodar-se no aconchego familiar, seja para transformá-lo com base em sua própria evolução. cresci ao lado da Favela do Real Parque e no seio da mentalidade do Parque Cidade Jardim
Marcadores:
eleições 2010,
política,
são paulo babilônia selva,
urbanismo
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Comentários
Após cerca de um mês de ausência, hoje resolvi tomar vergonha na cara e voltar a escrever. Não estou assim muito cheio de idéias, mas espero retomar algum ritmo em breve. É lógico que há muito a escrever sobre as eleições, mas prefiro esperar as coisas realmente se definirem, ainda que tudo se encaminhe para aquilo que já era esperado: as pessoas estão vivendo melhor, com mais oportunidades, mais empregos, o país retomou um otimismo positivo, e portanto votarão na candidata da continuidade. A oposição segue perdida, sem rumo, como eu já apontara em diversos posts recentes e outros nem tão recentes.
Na China, estou cada vez mais convencido de que, a despeito dos dados econômicos impressionantes e do crescente, e cada vez mais vocal, poder do país, há enormes desafios pela frente. As autoridades se defrontam com um cenário complicado conforme se aproxima a próxima transição política da cúpula do país, prevista para 2012. Há questões sobre a manutenção do crescimento, possíveis buracos no sistema financeiro, crescentes desigualdades, a degradação ambiental, envelhecimento da população, sobre a política externa do país, demandas por responsabilidade e o desconfiômetro dos vizinhos, etc... um mundo de variáveis, um mundo do tamanho da China.
O lobby dos bancos funcionou e parece que as regras de Basiléia III ficaram meio frouxas, diferidas no tempo. Há também riscos de uma nova crise, não nos esqueçamos disso. Desequilíbrios globais, desequilíbrios entre as finanças e a produção. Problemas foram empurrados com a barriga. A reforma financeira nos EUA, ainda que positiva, foi um remendo em um ou outro ponto mais ousado, mas no geral tímida, muito aquém da retórica.
As relações China-EUA seguem também complicadas. Aos dois lados interessa uma acomodação, mas no dia-dia os choques se sucedem, há pontos de divergência. Essa região do leste da Ásia é um tabuleiro geopolítico complicadíssimo. E os EUA se defrontam com inúmeros outros desafios, passando do Paquistão/Afeganistão/Iraque/Irã até a questão dos palestinos/Israel, o avanço chinês em outras regiões, os europeus que se sentem abandonados, governos crescentemente autônomos na América Latina.
Períodos de transição do poder mundial, como já escrevi, são em geral turbulentos. Adicionando a isso a questão ambiental, populacional, uma descrença grande nos mecanismos tradicionais da política e no multilateralismo, enfim, poderia elencar uma série de coisas, temos aí um quadro muito complexo e perigoso do mundo em que vivemos.
Mas vamos falar de coisas mais divertidas. Na semana passada, visitei o zoologico de Pequim. Fui ver os pandas. Mal sabia o que me aguardava. Hehehe, por enquanto me limito a dizer isso. E a colocar uma foto de um deles. Depois seguirá uma sequência de fotos impressionantes. Saudações aos sobreviventes do blog!
Na China, estou cada vez mais convencido de que, a despeito dos dados econômicos impressionantes e do crescente, e cada vez mais vocal, poder do país, há enormes desafios pela frente. As autoridades se defrontam com um cenário complicado conforme se aproxima a próxima transição política da cúpula do país, prevista para 2012. Há questões sobre a manutenção do crescimento, possíveis buracos no sistema financeiro, crescentes desigualdades, a degradação ambiental, envelhecimento da população, sobre a política externa do país, demandas por responsabilidade e o desconfiômetro dos vizinhos, etc... um mundo de variáveis, um mundo do tamanho da China.
O lobby dos bancos funcionou e parece que as regras de Basiléia III ficaram meio frouxas, diferidas no tempo. Há também riscos de uma nova crise, não nos esqueçamos disso. Desequilíbrios globais, desequilíbrios entre as finanças e a produção. Problemas foram empurrados com a barriga. A reforma financeira nos EUA, ainda que positiva, foi um remendo em um ou outro ponto mais ousado, mas no geral tímida, muito aquém da retórica.
As relações China-EUA seguem também complicadas. Aos dois lados interessa uma acomodação, mas no dia-dia os choques se sucedem, há pontos de divergência. Essa região do leste da Ásia é um tabuleiro geopolítico complicadíssimo. E os EUA se defrontam com inúmeros outros desafios, passando do Paquistão/Afeganistão/Iraque/Irã até a questão dos palestinos/Israel, o avanço chinês em outras regiões, os europeus que se sentem abandonados, governos crescentemente autônomos na América Latina.
Períodos de transição do poder mundial, como já escrevi, são em geral turbulentos. Adicionando a isso a questão ambiental, populacional, uma descrença grande nos mecanismos tradicionais da política e no multilateralismo, enfim, poderia elencar uma série de coisas, temos aí um quadro muito complexo e perigoso do mundo em que vivemos.
Mas vamos falar de coisas mais divertidas. Na semana passada, visitei o zoologico de Pequim. Fui ver os pandas. Mal sabia o que me aguardava. Hehehe, por enquanto me limito a dizer isso. E a colocar uma foto de um deles. Depois seguirá uma sequência de fotos impressionantes. Saudações aos sobreviventes do blog!
Marcadores:
blog,
china,
eleições 2010,
política externa
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Dos montes das Minas Gerais
Chico Buarque, Gal Costa, Djavan, Dorival Caymmi, Tom Jobim e Daniela Mercury cantam "Paratodos".
Assinar:
Postagens (Atom)