Notícias da crise. Mas não, não pretendo comentar sobre o cenário internacional. Domingo pela manhã em Pequim, dia de sol e céu azul, embora esteja esfriando. Ontem tivemos o 62o aniversário da Revolução na China, muy bien, molto benne, hen hao. O Partido desfila soberano, envelhecido mas muito forte, cheio de si.
Pois então. Hoje acordei cedo, de boa, me sentindo bem. É feriadão essa semana, mas precisarei trabalhar um pouco, escrever algumas coisas, ler diversos textos, arrumar minha mesa que é uma zona indescritível. Mais visitas chegam hoje aqui em casa. Um casal. Visitas têm se sucedido. É bom receber gente e é bom saber que todos saem muito felizes de Pequim.
Bom, domingão pela manhã, já estourei os neurônios e estou a fim de falar sobre nosso amado Brasil. Em particular, sobre o que vem se revelando uma gradual reorientação da política econômica conduzida pela Presidenta Dilma Rousseff. O timing da mudança, a forma de implementação, as previsíveis críticas que têm sofrido, os reais riscos que corre, divagar um pouco sem maiores compromissos.
Abre parêntese. Tenho acompanhado muito mais de perto, por óbvias razões, a economia e a política chinesa. As coisas aqui têm atingido um estágio realmente fascinante. A proximidade da sucessão política chinesa em 2012-2013 e os desafios e riscos do atual modelo de crescimento econômico chinês entrelaçam-se num jogo nebuloso, muito rico, rivalidades entre grupos de interesse e facções, disputas ideológicas de uma sociedade que se transforma em todos sentidos, mas mantém rigidez em seus processos políticos.
Porém, é preciso ressaltar: é mais do que uma transição política, é uma transição entre gerações. A 5a geração, representada por Xi Jinping, Li Keqiang, Wang Qishan, Bo Xilai e outros, tem formação mais heterogênea (direito, economia, ciência política; a 4a foi dominada por engenheiros). São mais jovens, porém ainda contam com a experiência da Revolução Cultural (a 6a geração será a primeira sem nenhum contato mais próximo com aqueles anos). Serão os primeiros não diretamente bancados por figuras do porte de Mao ou Deng, mas sim resultado de uma burocracia poderosa e razoavelmente bem institucionalizada. Terão responsabilidades fantásticas que valeriam um ou cinco ou centenas de textos.
A cerâmica chinesa, cujos traços apenas pincelei acima, se torna caledoscopial quando colocada na moldura mais geral de recursos naturais cada vez mais escassos, uma economia global em crise, a falta de liderança e modelos e rumos nesse processo de rearranjo político internacional, as dificuldades do chamado mundo ocidental e a ascensão da Ásia. Um corpo desconhecido, um corpo em mudança, um gigante orgulhoso, se insere num meio internacional instável, ancorado em equilíbrios precários, cujas bases financeiras e ideológicas estão sob ceticismo crescente. Movimentos tectônicos na política internacional.
Devo citar, apesar dos pesares, que na região do leste e do sul da Ásia o xadrez político me assusta e acho tudo um saco. Todos estão se armando, rivalidades crescem, nervos se exaltam, andei lendo uns textos nas últimas semanas em parte da imprensa oficialista chinesa e me assustei. Eles são mesmo sensacionalistas, jogam para a torcida, mas assusta a naturalidade com a qual algumas coisas são abertamente discutidas. A despeito do aumento do comércio e dos investimentos regionais, e mesmo de sucessivas reuniões das lideranças locais, ocorrem lances de disputas de poder e revanchismo que só podem terminar mal, é tragédia anunciada...
Durante algumas oportunidades na minha vida tive a alegria de ouvir de algumas mulheres a doce expressâo "Me encanta...". Sob forma quase musical, hispanicamente entonada, me encanta, Antonio, doce e sorridente expressão. Pois bem, sobre o cenário de rivalidades asiáticas eu só posso dizer "Me espanta...", me espanta muito e quero estar longe daqui quando sobrevier alguma bobagem maior e o sangue começar a correr.
Mas, entretanto, porém, como disse, estou com vontade de falar sobre o Brasil. Estou gostando do primeiro ano de governo da PR Dilma. Ela tem demarcado grandes diferenças com relação ao Lula. Não apenas no estilo, o que sempre foi óbvio. Também programaticamente. Evidentemente, o cenário interno e externo é outro e isso força algumas mudanças. Falarei adiante.
Creio que as similitudes ficaram mais na necessidade de administração e aconchego da base governista e do PT, da relação com os outros Poderes, das disputas entre partidos e grupos que já se movimentam com vistas aos próximos anos. Mesmo nesse ponto há caminhos alternativos, como mostram as seguidas pontes que Dilma têm levantado com setores da oposição, particularmente com FHC. As elocubrações sobre reforma política e, em particular, do financiamento eleitoral. Na política externa, vejo ajustes de estilo, ajustes de foco, ajustes decorrentes de mudanças do jogo internacional, mas a orientação geral permanece e a qualidade da condução brasileira é inegável. Num mundo turbulento e perigoso, a voz brasileira é sempre um alento. Sensata, amigável e atenta para a desordem atual e os riscos que isso traz para o desenvolvimento nacional.
É no que chamei de programático, quero dizer, mais do que na gestão, na orientação geral de determinadas políticas, que desejo me alongar. Em particular, no que se pode começar a pensar em chamar de transição macroeconômica. Os juros foram baixados, contrariando as expectativas dos nossos amigos do mercado. A meia-dúzia de seis mil sobre o qual já comentei tanto aqui. Em geral excelentes profissionais, mas muitas vezes um tanto quanto descompromissados com a nação. Enfim, os juros baixaram e a gritaria foi grande. Hoje parece tudo mais tranquilo. Encaixaram.
Dilma é muito respeitada, vem ganhando uma espécie de autoridade diferente da de Lula. É inevitável voltar ao tema do estilo. Lula equilibrava, seu carisma construía diferentes discursos para diferentes multidões, confiança, apelo à emoção. Dilma organiza, avalia, opera à distância. Não sofre os tipos de ataques que Lula sofria (e sofre), muitos deles verdadeiramente vis. Afastou ministros sem conversa-mole. Não fica com papinho ao léu com quem não se tem o que conversar.
Lembro-me de um dos grampos da Satiagraha, creio, operação em que a Justiça em particular, mas o establishment político, econômico e midiático nacional em geral, acharam por bem silenciar. Lá pelas tantas, um dos grampeados, num daqueles diálogos bem republicanos compilados, referia-se à Dilma, então ainda Ministra. Após uma reunião na Casa Civil, os interlocutores teriam ficado impressionados com a esperteza dela, principalmente em descobrir onde estava "a sacanagem".
Pois é, Dilma parece que sabia onde estava a sacanagem, parece que sabe onde está a sacanagem. E ela não gosta muito de sacanagem. Embora algumas estejam fora de seu alcance, nossa Presidenta tem atuado bem no que lhe diz respeito mais diretamente. Ela passa uma imagem pública muito boa. O Brasil precisa de exemplos que venham de cima. Volto ao ponto do diálogo com FHC. Dilma institucionaliza o país, dá um sentido de continuidade maior do que o lulismo permite. Muito bem, Dilma. Ampliando o Brasil, não sem deixá-lo mais complexo, mas também fascinante.
Mas onde está a sacanagem, povo brasileiro? O famoso "Brasil, mostra a sua cara... quero ver quem paga..." Na apropriação de recursos públicos, apropriação de poder, por entes privados, por pequenos grupos, sob a capa do interesse mais geral ou mesmo sob o comodismo da inércia histórica. Não se trata apenas da licitaçãozinha, da propina do fiscal, essas denúncias da TV com câmeras escondidas. Nem também da Castelo de Areia, da Satigraha. É mais. Trata-se da definição de políticas, da atribuição de responsabilidades, da distribuição de perdas e ganhos, do modelo mais geral. Onde também, como no caso da licitação ou da propina, há corruptos e corruptores. Via de mão dupla, é sempre bom lembrar. Teremos um modelo que permita a progressiva incorporação dos setores mais desfavorecidos e a ampliação das liberdades positivas (o direito de criar, elaborar, escolher caminhos) ou será mantida apenas uma máquina de reprodução da riqueza e manutenção da ordem para setores minoritários? Vamos além na democratização da sociedade ou paramos na forma, no discurso e no ajuste fiscal?
Volto, retorno, retomo: entre muitos outros pontos que considero bem importantes, fico com um exemplo no qual Dilma sinalizou e paralelamente opera mudanças positivas, uma brisa de ar nas esperanças de avanços políticos e econômicos.
Trata-se do que alinhavei acima como transição macroeconômica: a queda nos juros, especialmente; a diminuição das despesas com juros permite a manutenção dos níveis da dívida pública em paralelo a aumento nas transferências de renda e esperados reforços à taxa de investimento; vocalização, e atuação aqui e ali, na proteção do mercado nacional e no suporte à indústria e às exportações; tem se discutido também novo código de mineração, imagino que o controle sobre a propriedade fundiária esteja sendo aperfeiçoado; enquanto isso, no Congresso, segue a discussão sobre os royaltes do petróleo. Em debate, parte do que se conhece como federação brasileira.
Vou ficar na queda dos juros, na queda-de-braço com os mercados, na esfera da alta finança, na especulação com ativos em moeda nacional para que se atinja o fim último de se converterem em riqueza universal (dólar). Taí um setor em que tem muita sacanagem. Altas doses de cinismo e hipocrisia. Um jogo pesado. Dilma operando bem nesse meio. Boa, Presidenta.
Porém, mais tarde. Dia de sol e céu azul em Pequim. Easy rider pelas ruas e vielas da capital do Império do Meio. Vida louca, vida breve. Ars longa, vita brevis, já escrevi isso aqui. A continuar...
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domingo, 2 de outubro de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
A Crise Revisitada
Pois é, pois é, bidu. Meus amigos, a preguiça grassa, e vou nos poupar de links antigos, comentários passados, elocubrações remotas. Cansei de alertar para os riscos à frente, a tibieza regulatória, a falta de coordenação e liderança internacional, o predomínio dos lobbies da alta finança contrarrestando as necessárias reformas, tantas coisas...
E agora culpam os governos. Mas ora, os governos estiveram e estão capturados pelo mercado, pelos magos da multiplicação financeira.
Governos também erraram e erram, são desgovernos, sem idéias, submissos, incapazes, é vero.
Mas o cinismo de parte das elites européias e norte-americana é impressionante. Jogarão a conta nos mais pobres, nos que estiveram e estão fora da ciranda, e afundarão ainda mais seus países na recessão.
As coisas não estão simples no cenário internacional. Um grande desarranjo. Como Stiglitz colocou: "A confiança voltou. A confiança de que tudo vai piorar."
E não limito esses comentários à questão dos mercados, da crise das dívidas, da crise de demanda. A política internacional, tantos nos temas multilaterais, como nos cenários geo-estratégicos dos planos regional e bilateral, em muitos casos, está só piorando.
A população cresce, os recursos são escassos. Eu acordo todo dia em Pequim, olho para o céu, e lamento pelo milagre do GDP growth. Nossos amigos chineses seguem cada vez mais rápido, mas para onde mesmo?
"Parem o mundo, eu quero descer" já dizia algum grande poeta.
E agora culpam os governos. Mas ora, os governos estiveram e estão capturados pelo mercado, pelos magos da multiplicação financeira.
Governos também erraram e erram, são desgovernos, sem idéias, submissos, incapazes, é vero.
Mas o cinismo de parte das elites européias e norte-americana é impressionante. Jogarão a conta nos mais pobres, nos que estiveram e estão fora da ciranda, e afundarão ainda mais seus países na recessão.
As coisas não estão simples no cenário internacional. Um grande desarranjo. Como Stiglitz colocou: "A confiança voltou. A confiança de que tudo vai piorar."
E não limito esses comentários à questão dos mercados, da crise das dívidas, da crise de demanda. A política internacional, tantos nos temas multilaterais, como nos cenários geo-estratégicos dos planos regional e bilateral, em muitos casos, está só piorando.
A população cresce, os recursos são escassos. Eu acordo todo dia em Pequim, olho para o céu, e lamento pelo milagre do GDP growth. Nossos amigos chineses seguem cada vez mais rápido, mas para onde mesmo?
"Parem o mundo, eu quero descer" já dizia algum grande poeta.
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sábado, 25 de setembro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Prêmio Ignóbil de Economia
Está aberta a votação para o Prêmio Ignóbil de Economia. Trata-se de paródia/crítica/ironia do Prêmio Nobel. Rapidamente, você eleje o autor da maior idiotice, ou o defensor de idéias que se mostraram errôneas, falhas, até trágicas. Vale uma lida nos candidatos e as breves e engraçadas justificativas. São alguns gênios da econômia política liberal e outros espertos seguidores diretamente ligados ao complexo Wall Street-Washington.
Votei no Greenspan, no Larry Summers e no Robert Lucas. Os dois primeiros, por terem sido agentes públicos que irresponsavelmente se curvaram aos senhores da finança privada, utilizando suas posições no setor público para avançar uma agenda de interesses de uma minoria da minoria da minoria. Já o terceiro, pela hipótese do homem racional que maximiza utilidades, uma tolice apenas curiosa. Se me voltasse às artes, poderia passear por Shakespeare, só para humilhar. Na psicologia, temos Freud, Jung, etc... Enfim, homem racional é tudo que não há nesse mundo.
ps: devo muitos comentários e posts sobre as propostas do Volcker, encampadas num discurso do Obama, sobre novas e mais profundas reformas no sistema financeiro. Quem lê esse blog já tinha tudo antecipado aqui, hehehe.
Votei no Greenspan, no Larry Summers e no Robert Lucas. Os dois primeiros, por terem sido agentes públicos que irresponsavelmente se curvaram aos senhores da finança privada, utilizando suas posições no setor público para avançar uma agenda de interesses de uma minoria da minoria da minoria. Já o terceiro, pela hipótese do homem racional que maximiza utilidades, uma tolice apenas curiosa. Se me voltasse às artes, poderia passear por Shakespeare, só para humilhar. Na psicologia, temos Freud, Jung, etc... Enfim, homem racional é tudo que não há nesse mundo.
ps: devo muitos comentários e posts sobre as propostas do Volcker, encampadas num discurso do Obama, sobre novas e mais profundas reformas no sistema financeiro. Quem lê esse blog já tinha tudo antecipado aqui, hehehe.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Voltando ao IOF
O tempo passa, o tempo corre, e há um silêncio geral entre os apressadinhos, e muito intere$$ado$, que condenaram a implementação do IOF na entrada de capitais para bolsa e juros. Mas o fato é que o dólar anda se segurando na casa de R$ 1,75. Deu certo. A especulação diminuiu. Ficaram mais calminhos. Não exclusivamente por causa do IOF, mas pelo fato do Governo ter deixado claro que se necessário viria mais.
Mercados livres e desregulados. A proeminência da esfera financeira sobre a produção e o emprego. Esse é um tempo que vai ficando para trás. Os mercados devem interagir com a autoridade política, eleita pelo povo, para que se definam ganhadores e perdedores, articulações, mecanismos de ajuste, orientações de um quadro geral em que se busca o desenvolvimento da nação. Emprego, renda, produção, investimentos. E não os lucros fáceis, e desestruturadores da economia real, de uma jogadinha financeira de arbitragem com a dívida pública/câmbio e de incentivo a plataformas de valorização financeira (bolsas) que, no contexto de abundância de liquidez e imagem positiva do Brasil, beneficiavam apenas uma pequena minoria que intermediava e operava a captação e aplicação dos recursos externos à procura de ganhos rápidos e sem risco.
Mercados livres e desregulados. A proeminência da esfera financeira sobre a produção e o emprego. Esse é um tempo que vai ficando para trás. Os mercados devem interagir com a autoridade política, eleita pelo povo, para que se definam ganhadores e perdedores, articulações, mecanismos de ajuste, orientações de um quadro geral em que se busca o desenvolvimento da nação. Emprego, renda, produção, investimentos. E não os lucros fáceis, e desestruturadores da economia real, de uma jogadinha financeira de arbitragem com a dívida pública/câmbio e de incentivo a plataformas de valorização financeira (bolsas) que, no contexto de abundância de liquidez e imagem positiva do Brasil, beneficiavam apenas uma pequena minoria que intermediava e operava a captação e aplicação dos recursos externos à procura de ganhos rápidos e sem risco.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
O Brasil no mundo que vem aí

Na lateral esquerda, o Presidente Zuma, da África do Sul. Depois temos o Presidente Lula, Obama, Hillary, o trio Dilma-Marco Aurélio-Celso Amorim, o Premier Wen Jiabao (o Presidente Hu Jintao não foi) e abaixo à direita podemos ver o belo turbante de nosso amigo Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh.
Pois é, a política externa é um fracasso. A "diplomacia petista" não é levada a sério. Lula é um analfabeto, não entende as coisas, envergonha o país.
Je suis désolé: sorry, periferia...
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A sabedoria dos grandes mestres

Retomo Volcker, é preciso. Ele nos quebrou na década de 80, é fato. O dólar é a moeda dos EUA, mas problema do resto do mundo. Volcker levantou os juros a cerca de 20% anuais. Foi a reafirmação da centralidade do dólar, um marco no estabelecimento do sistema monetário internacional dólar-flexível, Bretton Woods II, sem um lastro que não fosse o poderio militar, tecnológico, industrial, econômico e cultural dos EUA. A emissão da moeda reserva, o controle da liquidez mundial, privilégios mais do que exorbitantes, mas um fato da realidade. Não sabemos como poderia ter sido de outra forma.
Subiu os juros lá em cima e nossa pobre América Latina, endividada em moeda estrangeira a taxas flutuantes, quebrou. A casa caiu. Com a falência dos países, entraram o FMI e o Banco Mundial com suas reformas "modernizantes", empréstimos cheios de condicionalidades, intrusivos, uma tragédia que foi reforçada com o momento unipolar possibilitado pela queda da URSS.
Não consta que Volcker tenha perdido algum minuto de sono por causa dos descaminhos de nuestra pobre Latino América. Enfim, toda essa introdução pretensiosa, high high politics, the highest one, para chamar a atenção novamente para nosso amigo, simpático velhinho da foto, conselheiro econômico do Presidente Obama, que vem saindo da toca onde se encontrava, ainda com boatos de que não é ouvido para nada na Casa Branca. Ele concedeu uma belíssima entrevista aos alemães do Der Spiegel.
Volcker está preocupado: a) com o futuro dos EUA, a economia, a competitividade, a dívida; b) com as estripulias de Wall Street, a prevalência da esfera financeira sobre a produção e a falta de avanços no campo regulatório. Sutilmente, diplomaticamente, com grande maestria, nosso amigo velho sábio mostra que está incomodado com algumas coisas. Confiram...
Rédeas para os bancos
Tomo emprestado o título do editorial do Estadão de ontem. O Comitê da Basiléia, vinculado ao Bank of International Settlements, BIS, na sisuda e pacata Basiléia (Suíça), propôs na semana passada novas regras para a base de capital dos bancos, para alavancagem por tipo de empréstimo e também sugestões para controles de alguns dos produtos em operação na moderna finança globalizada, em particular os derivativos (financial weapons of mass destruction). Não vou entrar em detalhes, são coisas técnicas e um tanto quanto ásperas. Quem tiver interesse, temos um resuminho aqui e links para explicações mais precisas.
O Comitê busca assim atender às demandas do G-20. São passos positivos. As propostas serão discutidas durante 2010 para serem gradualmente implementadas até o fim de 2012. O timing é compreensível. Regras de capital mais duras, caso implementadas agora, tornariam ainda mais difícil a situação de diversos bancos dos países desenvolvidos, que ainda cambeleiam e dependem da enorme boa vontade das autoridades públicas.
No entanto, as propostas não ousam imiscuir-se no tema do "Too Big to Fail = Too Big to Exist", ou seja, se uma instituição é considerada tão grande a ponto de sua falência não poder ser permitida, então ela não deve existir. Isso quer dizer: deveria haver limites para o tamanho dos bancos; uma separação mais rígida, talvez total, entre (a)seu papel de concessão pública que recebe depósitos e empresta à economia real, aí sim garantida pelo governo, e (b) as aventuras especulativas com o capital próprio e de terceiros.
É compreensível que as sugestões não adentrem essa seara mais política, muito complicada. Tampouco, numa primeira leitura, parecem fazer menção à taxação dos fluxos internacionais de capitais, tema que vem ganhando força e foi objeto de artigo do Presidente do IPEA no caderno de economia do Estadão. Tudo bem, aí não é papel da Basiléia nem do BIS, os caras não têm mandato para isso. Vamos deixar que a roda da história esquente mais esse debate, que terá que ser conduzido pelos Chefes de Estado, Ministros da Fazenda e pelo Poder Legislativo dos países.
O Comitê busca assim atender às demandas do G-20. São passos positivos. As propostas serão discutidas durante 2010 para serem gradualmente implementadas até o fim de 2012. O timing é compreensível. Regras de capital mais duras, caso implementadas agora, tornariam ainda mais difícil a situação de diversos bancos dos países desenvolvidos, que ainda cambeleiam e dependem da enorme boa vontade das autoridades públicas.
No entanto, as propostas não ousam imiscuir-se no tema do "Too Big to Fail = Too Big to Exist", ou seja, se uma instituição é considerada tão grande a ponto de sua falência não poder ser permitida, então ela não deve existir. Isso quer dizer: deveria haver limites para o tamanho dos bancos; uma separação mais rígida, talvez total, entre (a)seu papel de concessão pública que recebe depósitos e empresta à economia real, aí sim garantida pelo governo, e (b) as aventuras especulativas com o capital próprio e de terceiros.
É compreensível que as sugestões não adentrem essa seara mais política, muito complicada. Tampouco, numa primeira leitura, parecem fazer menção à taxação dos fluxos internacionais de capitais, tema que vem ganhando força e foi objeto de artigo do Presidente do IPEA no caderno de economia do Estadão. Tudo bem, aí não é papel da Basiléia nem do BIS, os caras não têm mandato para isso. Vamos deixar que a roda da história esquente mais esse debate, que terá que ser conduzido pelos Chefes de Estado, Ministros da Fazenda e pelo Poder Legislativo dos países.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Uma das piadas do ano
Já comentei sobre isso, mas não resisto e transcrevo a coluna do Vinicius Torres Freire na Folha de hoje. Bernanke, Person of the Year, piada do ano, certamente. A não ser que a Time esteja falando em nome de Wall Street. Leiam o artigo. Abaixo dele, prossigo com alguns comentários altamente subversivos.
"VINICIUS TORRES FREIRE
Homem de visão, a piada do ano
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Bernanke, presidente do Fed, que menosprezou a crise e depois arrumou a vida da banca, vira "Homem do Ano"
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BEN BERNANKE é a "Personalidade do Ano" da revista "Time". Bernanke preside o Fed, o banco central americano. O "prêmio" da "Time" é frufru publicitário, mas Bernanke vai ficar ainda mais "pop", ele que já vem sendo louvado pelo establishment americano, afora a extrema direita psicótica.
"Imagem é tudo", memória é nada. Bernanke assumiu o Fed no início de 2006. Ou seja, desde quando "até os urubus eram belos, no largo círculo dos dias sossegados", para citar Cecília Meirelles num contexto disparatado. Mas os urubus já pousavam nos beirais de Wall Street.
Quando ainda assessor econômico de George W. Bush, em 2005, Bernanke começava a queimar a língua. "Jamais tivemos queda nacional nos preços das casas", dizia, para negar o risco de colapso no mercado imobiliário, que afundaria mais de 25%.
Um mês depois de assumir o Fed, Bernanke inaugurava a longa série de discursos que entraram na longa história de negaças, desconversas, negligências, patranhas ideológicas e mentiras puras de governos. "Nossos técnicos nos dizem que os padrões de empréstimo estão, no geral, sólidos e não são comparáveis aos padrões mais frouxos que contribuíram para a crise dos empréstimos e poupanças de duas décadas antes", dizia Bernanke para negar o rumor de crise imobiliária, que detonaria a explosão das finanças e a recessão.
Bernanke, cinco meses depois: "As famílias americanas, em geral, têm administrado bem suas finanças pessoais ... O peso da dívida parece estar em níveis administráveis, e os índices de inadimplência em empréstimos ao consumidor e hipotecas residenciais estão baixos".
Em meados de 2006, Paul Krugman escrevia o seguinte em sua coluna do "New York Times": "O crescimento nos últimos três anos foi movido principalmente pelo boom do setor habitacional e pelo aumento acelerado nos gastos dos consumidores. As pessoas puderam comprar casas, apesar de os preços da habitação terem subido mais do que suas rendas, porque as aquisições estrangeiras de dívida americana mantiveram as taxas de juros em nível baixo... Nós nos tornamos uma nação na qual as pessoas ganham a vida vendendo residências umas às outras e pagando por essas residências com dinheiro emprestado da China. Agora essa brincadeira parece estar chegando ao fim".
Com o que Bernanke se preocupava no ano em que ele foi, digamos, o "Homem de Visão"? Com a "saúde" dos pobres: "A reforma de nossos insustentáveis programas de benefícios deveria ser uma prioridade".
Com a China, que vivia o risco de um "pouso forçado": "Embora o setor bancário esteja saturado com enorme e, provavelmente, crescente estoque de empréstimos problemáticos, o governo tem reservas consideráveis e é pouco provável que deixe o sistema bancário quebrar".
Bernanke negou a crise até que fundos começaram a explodir, em março de 2007, mas abafaria o caso até 2008, quando propôs "reestruturação da dívida das famílias", calotes organizados, intervenção estatal no mercado imobiliário e, enfim, começou a doar dinheiro à banca. Vários economistas de Clinton e Bush, pelegos do mercado, arrumaram tal confusão. Mas Bernanke arrumou a vida da banca. Merece um prêmio."
Gostaram? Isso me recorda o Malan. A despeito de ter quebrado o país, de ter promovido uma enorme socialização das perdas em 1998-2003, de ter nos jogado durante 6 anos no colo do FMI, o cara é idolatrado pela banca e pela imprensa "especializada". Ou então o Meirelles, que apesar das barbeiragens é considerado âncora do mercado financeiro no governo, garantia de bom senso, responsabilidade, sensatez, bom nome para Vice-Presidente, e blablabla.
São coisas meio surreais. Creio que os historiadores, em algumas décadas, se divertirão passeando pela antropologia, por alguma sociologia, de sociedades dominadas por indivíduos que buscam maximizar o retorno de seus ativos financeiros. E a forma como a política se subordinou à sustentação desses mecanismos de gestão patrimonial e ampliação da riqueza sob a forma líquida. Por isso essa mistificação de figuras como Greenspan, Bernanke, Malan, Meirelles, os operadores dos mecanismos de sustentação dos ativos financeiros onde se concentram e multiplicam as formas de riqueza dos estratos superiores da sociedade. Mistificação, endeusamento, mesmo com os notórios e sucessivos estragos que suas políticas causam, é incrível. Mas aí é que está a chave, estragos para quem? Em geral, para os orçamentos públicos, pois o Estado entra para resgatar os imprudentes e tentar sustentar os preços dos ativos. Os investidores, os insiders, a parcela do 1%, estes compram na baixa e são resgatados na alta. No Brasil, em Wall Street, na City...
Gostaram da prolixidade? Da complexidade? Estou aprendendo a escrever difícil, heheeh. Se um dia ficar conhecido, Madame Natasha vai puxar minha orelha. Eu quis descrever algo como "capitalismo financeiro", para usar um chavão já um pouco surrado. E falei sobre a leniência com bolhas e depois o risco moral, a apropriação de recursos públicos por entes privados sob o argumento de que se eles perderem o sistema todo quebraria.
Taí, o sistema, é o sistema. A máquina. Greenspan, Malan, Meirelles e Bernanke são apenas operadores. Garotinhos de recados. Quem são os donos da máquina?
A continuar...
"VINICIUS TORRES FREIRE
Homem de visão, a piada do ano
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Bernanke, presidente do Fed, que menosprezou a crise e depois arrumou a vida da banca, vira "Homem do Ano"
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BEN BERNANKE é a "Personalidade do Ano" da revista "Time". Bernanke preside o Fed, o banco central americano. O "prêmio" da "Time" é frufru publicitário, mas Bernanke vai ficar ainda mais "pop", ele que já vem sendo louvado pelo establishment americano, afora a extrema direita psicótica.
"Imagem é tudo", memória é nada. Bernanke assumiu o Fed no início de 2006. Ou seja, desde quando "até os urubus eram belos, no largo círculo dos dias sossegados", para citar Cecília Meirelles num contexto disparatado. Mas os urubus já pousavam nos beirais de Wall Street.
Quando ainda assessor econômico de George W. Bush, em 2005, Bernanke começava a queimar a língua. "Jamais tivemos queda nacional nos preços das casas", dizia, para negar o risco de colapso no mercado imobiliário, que afundaria mais de 25%.
Um mês depois de assumir o Fed, Bernanke inaugurava a longa série de discursos que entraram na longa história de negaças, desconversas, negligências, patranhas ideológicas e mentiras puras de governos. "Nossos técnicos nos dizem que os padrões de empréstimo estão, no geral, sólidos e não são comparáveis aos padrões mais frouxos que contribuíram para a crise dos empréstimos e poupanças de duas décadas antes", dizia Bernanke para negar o rumor de crise imobiliária, que detonaria a explosão das finanças e a recessão.
Bernanke, cinco meses depois: "As famílias americanas, em geral, têm administrado bem suas finanças pessoais ... O peso da dívida parece estar em níveis administráveis, e os índices de inadimplência em empréstimos ao consumidor e hipotecas residenciais estão baixos".
Em meados de 2006, Paul Krugman escrevia o seguinte em sua coluna do "New York Times": "O crescimento nos últimos três anos foi movido principalmente pelo boom do setor habitacional e pelo aumento acelerado nos gastos dos consumidores. As pessoas puderam comprar casas, apesar de os preços da habitação terem subido mais do que suas rendas, porque as aquisições estrangeiras de dívida americana mantiveram as taxas de juros em nível baixo... Nós nos tornamos uma nação na qual as pessoas ganham a vida vendendo residências umas às outras e pagando por essas residências com dinheiro emprestado da China. Agora essa brincadeira parece estar chegando ao fim".
Com o que Bernanke se preocupava no ano em que ele foi, digamos, o "Homem de Visão"? Com a "saúde" dos pobres: "A reforma de nossos insustentáveis programas de benefícios deveria ser uma prioridade".
Com a China, que vivia o risco de um "pouso forçado": "Embora o setor bancário esteja saturado com enorme e, provavelmente, crescente estoque de empréstimos problemáticos, o governo tem reservas consideráveis e é pouco provável que deixe o sistema bancário quebrar".
Bernanke negou a crise até que fundos começaram a explodir, em março de 2007, mas abafaria o caso até 2008, quando propôs "reestruturação da dívida das famílias", calotes organizados, intervenção estatal no mercado imobiliário e, enfim, começou a doar dinheiro à banca. Vários economistas de Clinton e Bush, pelegos do mercado, arrumaram tal confusão. Mas Bernanke arrumou a vida da banca. Merece um prêmio."
Gostaram? Isso me recorda o Malan. A despeito de ter quebrado o país, de ter promovido uma enorme socialização das perdas em 1998-2003, de ter nos jogado durante 6 anos no colo do FMI, o cara é idolatrado pela banca e pela imprensa "especializada". Ou então o Meirelles, que apesar das barbeiragens é considerado âncora do mercado financeiro no governo, garantia de bom senso, responsabilidade, sensatez, bom nome para Vice-Presidente, e blablabla.
São coisas meio surreais. Creio que os historiadores, em algumas décadas, se divertirão passeando pela antropologia, por alguma sociologia, de sociedades dominadas por indivíduos que buscam maximizar o retorno de seus ativos financeiros. E a forma como a política se subordinou à sustentação desses mecanismos de gestão patrimonial e ampliação da riqueza sob a forma líquida. Por isso essa mistificação de figuras como Greenspan, Bernanke, Malan, Meirelles, os operadores dos mecanismos de sustentação dos ativos financeiros onde se concentram e multiplicam as formas de riqueza dos estratos superiores da sociedade. Mistificação, endeusamento, mesmo com os notórios e sucessivos estragos que suas políticas causam, é incrível. Mas aí é que está a chave, estragos para quem? Em geral, para os orçamentos públicos, pois o Estado entra para resgatar os imprudentes e tentar sustentar os preços dos ativos. Os investidores, os insiders, a parcela do 1%, estes compram na baixa e são resgatados na alta. No Brasil, em Wall Street, na City...
Gostaram da prolixidade? Da complexidade? Estou aprendendo a escrever difícil, heheeh. Se um dia ficar conhecido, Madame Natasha vai puxar minha orelha. Eu quis descrever algo como "capitalismo financeiro", para usar um chavão já um pouco surrado. E falei sobre a leniência com bolhas e depois o risco moral, a apropriação de recursos públicos por entes privados sob o argumento de que se eles perderem o sistema todo quebraria.
Taí, o sistema, é o sistema. A máquina. Greenspan, Malan, Meirelles e Bernanke são apenas operadores. Garotinhos de recados. Quem são os donos da máquina?
A continuar...
Bernanke: Person of the Year
Já havia aqui tirado um barato do Bernanke, um dos sopradores de bolhas. Talvez tenha comentado em outros posts também, não me recordo.
Pois bem, hoje a Revista Time anunciou que nosso amigo Chairman do FED foi eleito Person of the Year. Krugman não perdoa. Vejam aqui.
Pois bem, hoje a Revista Time anunciou que nosso amigo Chairman do FED foi eleito Person of the Year. Krugman não perdoa. Vejam aqui.
Paul Volcker e a Inovação Financeira
Fazia tempo que não citava nossos amigos do Baseline. Nesse post, abordam uma manifestação recente do Paul Volcker, respeitadíssimo ex-chairman do FED cuja política monetária nos arrebentou na década de 80, favorável a uma regulação mais severa do sistema financeiro. Separo alguns trechos do pequeno post:
Volcker has three main points, with which we whole-heartedly agree:
1 “[Financial engineering] moves around the rents in the financial system, but not only this, as it seems to have vastly increased them.”
2 “I have found very little evidence that vast amounts of innovation in financial markets in recent years have had a visible effect on the productivity of the economy”
and most important:
3. “I am probably going to win in the end”.
.......
Volcker wants tough constraints on banks and their activities, separating the payments system – which must be protected and therefore tightly regulated – from other “extraneous” functions, which includes trading and managing money.
.......
The reason for Volcker’s confidence in his victory is simple - he is moving the consensus. It’s not radicals against reasonable bankers. It’s the dean of American banking, with a bigger and better reputation than any other economic policymaker alive – and with a lot of people at his back – saying, very simply: Enough.
Pois é, é isso, Volcker é daqueles que move o consenso. Eu venho dizendo aqui que apesar da resistência de Wall Street, da City, dos mercados em geral, a roda da história gira e políticas que anteriormente eram consideradas impensáveis passam a ser discutidas abertamente e gradualmente incorporadas às demandas das autoridades públicas nos países mais poderosos do mundo. A exceção ainda está nos EUA: Geithner resiste, o governo Obama é razoavelmente conservador na área, apesar da retórica forte, e portanto em termos concretos a questão regulatória avança com dificuldades.
Temos que ser pacientes. Possíveis novas bolhas, que vão estourar quando os EUA e a zona do euro apertarem a política monetária, podem mover ainda mais o consenso para que haja uma abrangente reestruturação da regulação financeira mais condizente com as necessidades de privilegiarmos os valores do trabalho e da produção sobre oportunidades especulativas com pouca ou nenhuma relação com a economia real.
Em outro post poderei abordar os perigos do déficit em conta corrente brasileiro, que vem sendo "naturalizado" pelos economistas ligados ao mercado financeiro, quando a maré de liquidez internacional virar. Isso foi tema do editorial do Estadão de hoje. Apenas recordo algo que já citei aqui, colado de nosso amigo Kenneth Rogoff, sábio de Harvard. É algo assim: "sempre que alguém disser que dessa vez é diferente, cuidado, estamos diante de uma bolha". Isso vale para nosso déficit na conta corrente.
Volcker has three main points, with which we whole-heartedly agree:
1 “[Financial engineering] moves around the rents in the financial system, but not only this, as it seems to have vastly increased them.”
2 “I have found very little evidence that vast amounts of innovation in financial markets in recent years have had a visible effect on the productivity of the economy”
and most important:
3. “I am probably going to win in the end”.
.......
Volcker wants tough constraints on banks and their activities, separating the payments system – which must be protected and therefore tightly regulated – from other “extraneous” functions, which includes trading and managing money.
.......
The reason for Volcker’s confidence in his victory is simple - he is moving the consensus. It’s not radicals against reasonable bankers. It’s the dean of American banking, with a bigger and better reputation than any other economic policymaker alive – and with a lot of people at his back – saying, very simply: Enough.
Pois é, é isso, Volcker é daqueles que move o consenso. Eu venho dizendo aqui que apesar da resistência de Wall Street, da City, dos mercados em geral, a roda da história gira e políticas que anteriormente eram consideradas impensáveis passam a ser discutidas abertamente e gradualmente incorporadas às demandas das autoridades públicas nos países mais poderosos do mundo. A exceção ainda está nos EUA: Geithner resiste, o governo Obama é razoavelmente conservador na área, apesar da retórica forte, e portanto em termos concretos a questão regulatória avança com dificuldades.
Temos que ser pacientes. Possíveis novas bolhas, que vão estourar quando os EUA e a zona do euro apertarem a política monetária, podem mover ainda mais o consenso para que haja uma abrangente reestruturação da regulação financeira mais condizente com as necessidades de privilegiarmos os valores do trabalho e da produção sobre oportunidades especulativas com pouca ou nenhuma relação com a economia real.
Em outro post poderei abordar os perigos do déficit em conta corrente brasileiro, que vem sendo "naturalizado" pelos economistas ligados ao mercado financeiro, quando a maré de liquidez internacional virar. Isso foi tema do editorial do Estadão de hoje. Apenas recordo algo que já citei aqui, colado de nosso amigo Kenneth Rogoff, sábio de Harvard. É algo assim: "sempre que alguém disser que dessa vez é diferente, cuidado, estamos diante de uma bolha". Isso vale para nosso déficit na conta corrente.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Mais curtas
E os brimos de Abu Dhabi colocaram US$ 10 bilhões para resgatar os vendedores de miragens de Dubai. Será suficiente? Há mais esqueletos escondidos nas areias do deserto? Interesting times...
Em Copenhaguen, como previsto, dificuldades. Creio que a luta será para saber no colo de quem ficará a bola.
Venezuela no Mercosul. Chile na OCDE.
Aqui o bom discurso do Presidente Lula na Confecom. Um bom discurso do líder de um governo ambíguo no tema. Parole, parole, mas na prática pouco fez. A Conferência é um passo importante, mas veio no fim do mandato, e aí? O Ministro das Comunicações é simplesmente Helio Costa, um cara da Globo... Aliás, o governo é muito ambíguo, contraditório até, em uma série de questões, isso já foi comentado por aqui. Lula é muito pragmático no exercício cotidiano do poder.
Mas voltando, apenas para dar um exemplo da necessidade de colocar essas questões na ordem do dia, o Código que regula rádio e televisão é de 1962. E os grandes grupos privados do setor, algumas famílias, não querem discutir nada, lhufas, nhecas de pitibiribas. Escondem-se do necessário debate com o argumento que qualquer tentativa de formulação e implementação de políticas públicas, como ocorre em todos os países desenvolvidos, é censura, ameaça à liberdade de expressão, e por aí vai, descendo, sempre para baixo... Eles têm enorme dificuldade de discutirem a si próprios, mas rogam-se o direito de apontar o dedo para quem quiserem, usarem e manipularem sua força midiática contra adversários comerciais, políticos, etc... Em resumo, cínicos, covardes, acomodados, gente estúpida, arrogante e hipócrita. Não sabem o que é o diálogo, a construção de consensos, foram criados no regime discricionário de triste memória. Famílias em decadência, felizmente. Falei tá falado.
Em Copenhaguen, como previsto, dificuldades. Creio que a luta será para saber no colo de quem ficará a bola.
Venezuela no Mercosul. Chile na OCDE.
Aqui o bom discurso do Presidente Lula na Confecom. Um bom discurso do líder de um governo ambíguo no tema. Parole, parole, mas na prática pouco fez. A Conferência é um passo importante, mas veio no fim do mandato, e aí? O Ministro das Comunicações é simplesmente Helio Costa, um cara da Globo... Aliás, o governo é muito ambíguo, contraditório até, em uma série de questões, isso já foi comentado por aqui. Lula é muito pragmático no exercício cotidiano do poder.
Mas voltando, apenas para dar um exemplo da necessidade de colocar essas questões na ordem do dia, o Código que regula rádio e televisão é de 1962. E os grandes grupos privados do setor, algumas famílias, não querem discutir nada, lhufas, nhecas de pitibiribas. Escondem-se do necessário debate com o argumento que qualquer tentativa de formulação e implementação de políticas públicas, como ocorre em todos os países desenvolvidos, é censura, ameaça à liberdade de expressão, e por aí vai, descendo, sempre para baixo... Eles têm enorme dificuldade de discutirem a si próprios, mas rogam-se o direito de apontar o dedo para quem quiserem, usarem e manipularem sua força midiática contra adversários comerciais, políticos, etc... Em resumo, cínicos, covardes, acomodados, gente estúpida, arrogante e hipócrita. Não sabem o que é o diálogo, a construção de consensos, foram criados no regime discricionário de triste memória. Famílias em decadência, felizmente. Falei tá falado.
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Rápidas e curtas sobre regulação financeira
A reforma da regulação financeira proposta por Obama passou na sexta-feira na Câmara. Não é nada excepcionalmente arrojado, mas é um avanço que vai no sentido correto. Vamos ver o que acontecerá no Senado, onde tudo será mais difícil. O lobby dos bancos gastou, estima-se, uns US$ 360 milhões batalhando "contra tudo isso aí". Sem contar o financiamento às campanhas dos distintos legisladores. Lá e aqui, por todo o mundo.
Esse negócio do "self-regulation" é maravilhoso, quem não quer uma dessas? Para fazer o link com os posts abaixo sobre a Confecom, noto que é curioso que o argumento dos grandes e tradicionais grupos de comunicação no Brasil é o mesmo. "Regulação? Isso é cerceamento da liberdade de expressão? O Estado de Direito está em risco". No caso dos financistas, vamos supor, ao invés de Estado de Direito eles citariam o desenvolvimento, pois a inovação financeira (picaretagem com o dinheiro alheio) seria uma das condições para a plena libertação do potencial de crescimento das economias e blablabla...
Na semana passada também, os Ministros das Finanças europeus declararam-se favoráveis ao estabelecimento de taxas sobre os fluxos financeiros internacionais. Ohhhh, dirão os sábios do mercado, mas isso é uma heresia, como assim??? Pois é, os gênios PHDs das universidades norte-americanas que se tornam bilionários enquanto quebram o mundo fiam-se nas posições de Geithner e talvez do Japão para segurar o avanço dessa proposta, mas a bola ainda está rolando, tem jogo pela frente. A posição brasileira é a de observadora interessada, sem no entanto propugnar nem forçar a barra.
Esse negócio do "self-regulation" é maravilhoso, quem não quer uma dessas? Para fazer o link com os posts abaixo sobre a Confecom, noto que é curioso que o argumento dos grandes e tradicionais grupos de comunicação no Brasil é o mesmo. "Regulação? Isso é cerceamento da liberdade de expressão? O Estado de Direito está em risco". No caso dos financistas, vamos supor, ao invés de Estado de Direito eles citariam o desenvolvimento, pois a inovação financeira (picaretagem com o dinheiro alheio) seria uma das condições para a plena libertação do potencial de crescimento das economias e blablabla...
Na semana passada também, os Ministros das Finanças europeus declararam-se favoráveis ao estabelecimento de taxas sobre os fluxos financeiros internacionais. Ohhhh, dirão os sábios do mercado, mas isso é uma heresia, como assim??? Pois é, os gênios PHDs das universidades norte-americanas que se tornam bilionários enquanto quebram o mundo fiam-se nas posições de Geithner e talvez do Japão para segurar o avanço dessa proposta, mas a bola ainda está rolando, tem jogo pela frente. A posição brasileira é a de observadora interessada, sem no entanto propugnar nem forçar a barra.
domingo, 29 de novembro de 2009
Interesting Times
Boa matéria do Economist sobre a redução da pobreza no Brasil, na China e na Índia. Não basta apenas crescer, é óbvio.
E aqui um bom artigo do Krugman no New York Times, Taxing the Speculators, ampliando o coro a favor de uma taxa sobre as transações financeiras. Deixem os bancos ocidentais brincando, bancando lobbies bilionários, surfando na liquidez, distribuindo bônus enquanto lutam contra qualquer forma de regulação. Vai crescendo a pressão política, a crise não está terminada, o crescimento é baixo, o desemprego é alto e permanecem ativos podres nas carteiras dos bancos. Pena que os amigos de Geithner tenham tanta influência sobre ele. E é pena que Obama esteja tão solitário, em conflitos e confusões variadas, pressionado pelo establishment, pelo aparelho de Estado, pela dívida, pelo mundo em desenvolvimento, pela China, pelo Iraque, por mais tropas no Afeganistão, pelas sombras de Bush e de Bin Laden, etc...
Uma palavra rápida também sobre a Federação Brasileira dos Bancos, Febraban. Vi que eles mudaram sua logomarca, segundo consta para tornar mais leve a imagem do sindicato mais poderoso do país. Li declarações do seu Presidente afirmando que os bancos devem se preparar para crescer menos dependentes dos juros do CDI, ou seja, de títulos pós-fixados que ocupam um bom espaço em seus balanços. (Pré-fixados também, acrescento).
Concordo plenamente. Há amplo espaço para financiamento do consumo e da produção. Financiamentos à massa incorporada ao mercado, aos necessários novos investimentos, se possível mais de longo prazo, como comentou o Mantega outro dia, com o setor privado atuando junto ao BNDES, ao BB, etc... Financiamento também para o setor habitacional, a imensa demanda reprimida por habitações dignas no Brasil. Alô alô saneamento básico, transporte de massa. Vamos lá Febraban!
O povo aplaudirá nossos banqueiros ao saber que desejam atuar em consonância com as necessidades do país, acreditar no país, confiar, credere. O povo não mais os criticará por viver do rentismo parasitário, da mera intermediação do capital externo, com posterior socialização das perdas, e de conchavos oligopolísticos. Se somarmos as qualidades tecnológicas com a solidez dos bancos nacionais e acrescentarmos um espírito de competição e o compromisso com o desenvolvimento da nação, teremos aí uma Febraban que nem precisará mais de logomarca. Estou brincando, mas é sério. Falo sério, mas estou brincando.
E chegamos então à gloriosa Dubai, um dos sete Emirados dos Emirados Árabes Unidos, que atualmente estão uma verdadeira bagunça das arábias ho ho ho. Agora todo mundo vai dizer: eu sabia, eu sabia, eu sabia. Eu também sabia, pera aí. Quando fui a Doha, cansei-me de comentar que já achava estranho tudo aquilo lá, muito forçado, dinheiro jogado pelo ralo, surreal tantos contrastes no deserto. Tinha até pista de esqui. E aquelas ilhas artificiais, aquela forçação de barra, uma certa grana esvoaçando, o ouro negro se tornando papel pintado e sem valor sob uma aparência de luxo vulgar para consumo instantâneo.
Primeiro a bolha imobiliária estourou e isso já vem lá do início de 2008. Agora o default. E nos perguntamos: há mais desses por aí?
No caso em questão, parece que os brimos de Abu Dhabi vão ajudar no resgate. O Financial Times tava simplesmente exigindo isso em editorial hehe. O HSBC tá entalado até o pescoço em Dubai. Outros bancos europeus também. Que beleza. Aqui um breve comentário no blog do Krugman. O Roubini para variar soando algumas trombetas do Apocalipse. O Economist adota tom mais sensato, aquela coisa sóbria dos ingleses, sem citar que o HSBC tá na brincadeira. Vamos com calma aguardar o seguimento desse negócio. O fato é que a quebra de Dubai é mais um exemplo do delírio financeiro que se exacerbou nessa última década. É um caso menor, periférico quando comparado ao que observamos recentemente em Wall Street, na City, em Frankfurt e Paris, mas enfim, é mais um rolo das arábias ho ho ho. Anyway, we continue to live in interesting times., conforme finalizou o post nosso amigo blogueiro Nobel.
E aqui um bom artigo do Krugman no New York Times, Taxing the Speculators, ampliando o coro a favor de uma taxa sobre as transações financeiras. Deixem os bancos ocidentais brincando, bancando lobbies bilionários, surfando na liquidez, distribuindo bônus enquanto lutam contra qualquer forma de regulação. Vai crescendo a pressão política, a crise não está terminada, o crescimento é baixo, o desemprego é alto e permanecem ativos podres nas carteiras dos bancos. Pena que os amigos de Geithner tenham tanta influência sobre ele. E é pena que Obama esteja tão solitário, em conflitos e confusões variadas, pressionado pelo establishment, pelo aparelho de Estado, pela dívida, pelo mundo em desenvolvimento, pela China, pelo Iraque, por mais tropas no Afeganistão, pelas sombras de Bush e de Bin Laden, etc...
Uma palavra rápida também sobre a Federação Brasileira dos Bancos, Febraban. Vi que eles mudaram sua logomarca, segundo consta para tornar mais leve a imagem do sindicato mais poderoso do país. Li declarações do seu Presidente afirmando que os bancos devem se preparar para crescer menos dependentes dos juros do CDI, ou seja, de títulos pós-fixados que ocupam um bom espaço em seus balanços. (Pré-fixados também, acrescento).
Concordo plenamente. Há amplo espaço para financiamento do consumo e da produção. Financiamentos à massa incorporada ao mercado, aos necessários novos investimentos, se possível mais de longo prazo, como comentou o Mantega outro dia, com o setor privado atuando junto ao BNDES, ao BB, etc... Financiamento também para o setor habitacional, a imensa demanda reprimida por habitações dignas no Brasil. Alô alô saneamento básico, transporte de massa. Vamos lá Febraban!
O povo aplaudirá nossos banqueiros ao saber que desejam atuar em consonância com as necessidades do país, acreditar no país, confiar, credere. O povo não mais os criticará por viver do rentismo parasitário, da mera intermediação do capital externo, com posterior socialização das perdas, e de conchavos oligopolísticos. Se somarmos as qualidades tecnológicas com a solidez dos bancos nacionais e acrescentarmos um espírito de competição e o compromisso com o desenvolvimento da nação, teremos aí uma Febraban que nem precisará mais de logomarca. Estou brincando, mas é sério. Falo sério, mas estou brincando.
E chegamos então à gloriosa Dubai, um dos sete Emirados dos Emirados Árabes Unidos, que atualmente estão uma verdadeira bagunça das arábias ho ho ho. Agora todo mundo vai dizer: eu sabia, eu sabia, eu sabia. Eu também sabia, pera aí. Quando fui a Doha, cansei-me de comentar que já achava estranho tudo aquilo lá, muito forçado, dinheiro jogado pelo ralo, surreal tantos contrastes no deserto. Tinha até pista de esqui. E aquelas ilhas artificiais, aquela forçação de barra, uma certa grana esvoaçando, o ouro negro se tornando papel pintado e sem valor sob uma aparência de luxo vulgar para consumo instantâneo.
Primeiro a bolha imobiliária estourou e isso já vem lá do início de 2008. Agora o default. E nos perguntamos: há mais desses por aí?
No caso em questão, parece que os brimos de Abu Dhabi vão ajudar no resgate. O Financial Times tava simplesmente exigindo isso em editorial hehe. O HSBC tá entalado até o pescoço em Dubai. Outros bancos europeus também. Que beleza. Aqui um breve comentário no blog do Krugman. O Roubini para variar soando algumas trombetas do Apocalipse. O Economist adota tom mais sensato, aquela coisa sóbria dos ingleses, sem citar que o HSBC tá na brincadeira. Vamos com calma aguardar o seguimento desse negócio. O fato é que a quebra de Dubai é mais um exemplo do delírio financeiro que se exacerbou nessa última década. É um caso menor, periférico quando comparado ao que observamos recentemente em Wall Street, na City, em Frankfurt e Paris, mas enfim, é mais um rolo das arábias ho ho ho. Anyway, we continue to live in interesting times., conforme finalizou o post nosso amigo blogueiro Nobel.
sábado, 21 de novembro de 2009
Os sopradores de bolhas
Ben Bernanke, atual Chairman do FED, em entrevistas a partir de 2005. Soprou a bolha e hoje administra a catástrofe. Segundo ele na época, e muitos money managers de hoje em dia para justificar a especulação câmbio/juro com o real, são os "fundamentos".
Como já coloquei, chupinzando o título do livro do Rogoff, sempre que alguém disser que "dessa vez é diferente", temos uma bolha. Acrescento que quando ouvirmos a conversa de que não se deve interferir com os movimentos do mercado, significa que estão ganhando muito dinheiro com esse movimento. Caso contrário, quando por exemplo tudo ruiu no ano passado, virão correndo anunciar o apocalipse e pedir dinheiro do governo, liquidez, injeções de capital, alteração nas regras contábeis, etc...
Como já coloquei, chupinzando o título do livro do Rogoff, sempre que alguém disser que "dessa vez é diferente", temos uma bolha. Acrescento que quando ouvirmos a conversa de que não se deve interferir com os movimentos do mercado, significa que estão ganhando muito dinheiro com esse movimento. Caso contrário, quando por exemplo tudo ruiu no ano passado, virão correndo anunciar o apocalipse e pedir dinheiro do governo, liquidez, injeções de capital, alteração nas regras contábeis, etc...
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Fracassam as negociações sobre o pós-Kioto
Deu tilt nas negociações do clima. Em reunião da APEC (Ásia-Pacífico), foi anunciado que a vaca foi pro brejo. Não teremos algo legally binding, mas sim um compromisso político. Parole, parole. Em 2010, quem sabe. Como a Rodada Doha.
Bom, isso já era previsível pelo andar da carruagem. Negociações difíceis, relutância de China e Índia, o pacote do clima enrolado no Congresso dos EUA. O Brasil, com seu recente anúncio de compromissos voluntários, uma matriz energética muito menos poluente e números recentes que apontam queda no desmatamento, está bem na foto. Marina Silva também vem a calhar, força movimentos mais firmes de outros atores. Mas sozinhos, pouco poderemos contribuir. Seria preciso um comprometimento dos outros.
O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi o anúncio conjunto de Brasil e França, no qual foi explicitado pelo Presidente Lula, não sei se também pelo Sarkozy, que os países não aceitariam que China e EUA se reunissem sozinhos e tentassem pautar o resto do mundo. Como sabemos, Obama está viajando pela Ásia. Bom, a pá de cal não saiu da dobradinha, pior, foi da Cúpula da APEC, ou seja, envolveu diversos outros países. Mas nenhum europeu. Nenhum africano. Nenhum árabe. O Brasil tava fora. Quantos exportadores de petróleo estavam na jogada?
Vivemos um momento claro de reordenamento da política internacional. Com a crise financeira eclodindo nos centros mais "avançados" do sistema, também se questionam premissas e estruturas da economia política liberal antes hegemônica. Insegurança alimentar, insegurança energética, instabilidade no sistema monetário, a ameaça da mudança climática, jogos de poder, blocos regionais, rivalidades regionais, alianças de geometria variável, enfraquecimento da ONU, laivos protecionistas, o risco de desvalorizações competitivas, conflitos no Oriente Médio, proliferação nuclear. Teremos deflação ou inflação?
Bom, isso já era previsível pelo andar da carruagem. Negociações difíceis, relutância de China e Índia, o pacote do clima enrolado no Congresso dos EUA. O Brasil, com seu recente anúncio de compromissos voluntários, uma matriz energética muito menos poluente e números recentes que apontam queda no desmatamento, está bem na foto. Marina Silva também vem a calhar, força movimentos mais firmes de outros atores. Mas sozinhos, pouco poderemos contribuir. Seria preciso um comprometimento dos outros.
O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi o anúncio conjunto de Brasil e França, no qual foi explicitado pelo Presidente Lula, não sei se também pelo Sarkozy, que os países não aceitariam que China e EUA se reunissem sozinhos e tentassem pautar o resto do mundo. Como sabemos, Obama está viajando pela Ásia. Bom, a pá de cal não saiu da dobradinha, pior, foi da Cúpula da APEC, ou seja, envolveu diversos outros países. Mas nenhum europeu. Nenhum africano. Nenhum árabe. O Brasil tava fora. Quantos exportadores de petróleo estavam na jogada?
Vivemos um momento claro de reordenamento da política internacional. Com a crise financeira eclodindo nos centros mais "avançados" do sistema, também se questionam premissas e estruturas da economia política liberal antes hegemônica. Insegurança alimentar, insegurança energética, instabilidade no sistema monetário, a ameaça da mudança climática, jogos de poder, blocos regionais, rivalidades regionais, alianças de geometria variável, enfraquecimento da ONU, laivos protecionistas, o risco de desvalorizações competitivas, conflitos no Oriente Médio, proliferação nuclear. Teremos deflação ou inflação?
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
The week ahead: o G-2?
Do Economist:
BARACK OBAMA begins a trip to Asia on Thursday November 12th. A visit to Japan could prove to be frosty, even though the country is America's most important ally in the region, as the newly elected government has seemed unwilling to back American foreign policy, for example in Afghanistan. Mr Obama will also attend a summit of leaders from the Asia-Pacific region, the part of the world demonstrating the most robust economic growth. Most notable, the American president will spend four days in China, where talks may focus on international efforts to curb carbon emissions in the hope of limiting global climate change. Economic relations, in particular American concern about the weakness of the yuan, may also be discussed.
BARACK OBAMA begins a trip to Asia on Thursday November 12th. A visit to Japan could prove to be frosty, even though the country is America's most important ally in the region, as the newly elected government has seemed unwilling to back American foreign policy, for example in Afghanistan. Mr Obama will also attend a summit of leaders from the Asia-Pacific region, the part of the world demonstrating the most robust economic growth. Most notable, the American president will spend four days in China, where talks may focus on international efforts to curb carbon emissions in the hope of limiting global climate change. Economic relations, in particular American concern about the weakness of the yuan, may also be discussed.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Ausência
Crise, notícias da crise, cansaço, coágulos, veias entupidas, a ausência não foi proposital muito menos era desejada.
Ontem fui ler o Valor e estava na capa que a alta de 0,25% nos juros australianos havia sido um dos motivos para o boom dos mercados da véspera. Não há lógica, não há sentido, não há razão. Estamos adentrando perigosamente o terreno de novas bolhas. O Brasil está quicando, é uma cereja deliciosa, temos que tomar muito cuidado.
Os movimentos regulatórios que efetivamente se concretizaram até agora foram muito tímidos. As finanças estão novamente enlouquecidas... os amigos de Geithner (aqui, aqui e aqui) e seus seguidores nos EUA, na Europa e na periferia deslumbrada são muito perigosos e avançam dopados pelas garantias dos governos, pelos juros lá embaixo, pela idéia tola e quase calhorda de que tudo já passou.
Crise, notícias da crise, coágulos, veias entupidas. Estou cansado disso.
Ontem fui ler o Valor e estava na capa que a alta de 0,25% nos juros australianos havia sido um dos motivos para o boom dos mercados da véspera. Não há lógica, não há sentido, não há razão. Estamos adentrando perigosamente o terreno de novas bolhas. O Brasil está quicando, é uma cereja deliciosa, temos que tomar muito cuidado.
Os movimentos regulatórios que efetivamente se concretizaram até agora foram muito tímidos. As finanças estão novamente enlouquecidas... os amigos de Geithner (aqui, aqui e aqui) e seus seguidores nos EUA, na Europa e na periferia deslumbrada são muito perigosos e avançam dopados pelas garantias dos governos, pelos juros lá embaixo, pela idéia tola e quase calhorda de que tudo já passou.
Crise, notícias da crise, coágulos, veias entupidas. Estou cansado disso.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Grau de Investimento
A Moody´s promoveu o Brasil a grau de investimento. Notícia boa, é óbvio. Não atrapalha, é evidente. Mas dá pra levar a Moody´s a sério? Por acaso há algo de científico, ou racional, ou lógico, nos obscuros critérios das agências de risco?
Sim, há um pouco de critério. Mas são bem maleáveis. Por exemplo, nosso déficit, nossa dívida pública e a dívida externa estão absolutamente sob controle. Não há o menor risco de qualquer problema. Então porque essa demora toda em promover o Brasil?
Uma rápida olhada numa hipotética tabela dos países com suas classificações de risco ao lado dos indicadores de déficit e dívida já demonstraria toda a falácia dos critérios das agências. O Brasil tem indicadores melhores do que boa parte dos países do G7, senão de todos. Nossa posição é muito mais sólida do que a de diversos países que têm o glorioso grau de investimento. Talvez uns 5 países apenas atualmente estejam em melhor situação. E qual a classificação do Reino Unido? Da Espanha? Da Grécia? Da Irlanda? Do México? Da África do Sul? Turquia? Colômbia? Comparem as classificações desses países com a do Brasil. Depois vejam os números. Acrescentem a isso as perspectivas do pré-sal, do crescimento do crédito e do mercado interno. Enfim...
Na verdade, o próprio mercado financeiro internacional opera cheio de preconceitos. Dêem uma olha na tabela da última página do Economist, que assinala os spreads dos títulos de 10 anos. O Brasil vem diminuindo o custo de captação, mas ainda há um delta injustificável. Países que atualmente estão numa situação muito chata ainda se financiam mais barato do que nós.
Mas voltando aos analistas das agências de risco, coitados, vivem dessas classificações politicamente enviesadas e às vezes arriscam recomendações por "reformas estruturais". Antes eram clamores por reformas diariamente. Parece que hoje avançamos, a coisa tá mais comedida, mais discreta. Afinal, os caras estão mais humildes, após a enormidade de asneiras que fizeram. E hoje há um entendimento geral de que não há receita de bolo para o desenvolvimento. Mas a postura de alguns desses analistas de risco continua sendo de uma cretinice total.
Bom, avanço na crítica ressaltando que as agências são remuneradas pelos emissores de títulos, não pelos investidores, por exemplo. Há um claro conflito de interesses. Não sei bem a quantas andam as propostas de regulação dessas criaturas. Vou verificar. Recordo ainda que as agências de risco formam um oligopólio, representam mais uma falha nos mercados.
Os caras erraram grotescamente diante da crise. Foram cúmplices, partícipes, atores em todo o castelo de cartas que desabou. Jogaram juntos na chantagem ao Brasil que ocorreu entre 1995 e 2004. "Façam o dever de casa ou a confiança do investidor estrangeiro desaparecerá e o país vai quebrar."
Retomo pela milésima oitava vez esse estandarte: um país como o Brasil não pode se colocar sujeito às avaliações desse tipo de gente. Dependente desse tipo de percepção. Submisso aos fluxos de capital externo, mesmo que sejam IED, para financiar seu crescimento. Por digo, repito, recomendo e reitero: não podemos brincar com a conta corrente nem com a dívida interna. Uma nação como a brasileira não pode se submeter passivamente às vontades dos credores da dívida. Pior ainda se assimilar mentalmente as demandas de nossos credores como sendo o nosso interesse. Esse é um passado trágico, e recente, que esperamos não mais retorne.
Parágrafo de uma frase só: a identidade contábil que coloca que o déficit em conta corrente representa poupança externa que complementaria nossa baixa taxa de investimentos, decorrente da baixa poupança interna, é uma falácia perigosíssima.
Enfim, volto. Acho divertidíssimos os argumentos desses pobres analistas das agências de risco. Realmente é engraçado ver a pose de seriedade, de juízes da sustentabilidade econômica, da lógica supostamente racional que os rege. E aí me recordo que os números mais básicos desmentem as classificações deles. Recordo-me que eles erraram para tudo quanto é lado. Desde a crise do México, até o leste asiático, até a Russia, a Argentina, a bolha da internet, os caras já têm um histórico de chorar. É curioso como continuam com certo ibope.
Esse post ficou meio bagunçado, talvez esculhambado. Mas o recado tá mais ou menos claro, penso. Promoveram o Brasil? Que bom. Precisamos desses caras? Não. Eles sabem do que falam? Não. Eles têm algum compromisso com o desenvolvimento da nação? Não. A quem eles respondem? Aos credores da dívida brasileira e, de maneira geral, aos centros das finanças globais. Eles têm algum poder? Infelizmente, ainda têm. Portanto, ruim com eles, pior sem eles. Mas não vale muito ibope não. Aliás o ibope não vale nada.
Esse post faz questão de singularizar a empresa de Rating do Paulo Rabello de Castro, um cara que venho aprendendo a admirar pela inteligência e coragem de se contrapor ao lugar-comum que prevalece entre os analistas de mercado. Aliás, estou devendo um post sobre esse tipo de criatura. Em geral, são medíocres. O comportamento de manada e, mais importante, as idéias de manada prevalecem. Mas há alguns muito bons. Para debater com eles, é preciso estofo. Voltarei ao tema.
Sim, há um pouco de critério. Mas são bem maleáveis. Por exemplo, nosso déficit, nossa dívida pública e a dívida externa estão absolutamente sob controle. Não há o menor risco de qualquer problema. Então porque essa demora toda em promover o Brasil?
Uma rápida olhada numa hipotética tabela dos países com suas classificações de risco ao lado dos indicadores de déficit e dívida já demonstraria toda a falácia dos critérios das agências. O Brasil tem indicadores melhores do que boa parte dos países do G7, senão de todos. Nossa posição é muito mais sólida do que a de diversos países que têm o glorioso grau de investimento. Talvez uns 5 países apenas atualmente estejam em melhor situação. E qual a classificação do Reino Unido? Da Espanha? Da Grécia? Da Irlanda? Do México? Da África do Sul? Turquia? Colômbia? Comparem as classificações desses países com a do Brasil. Depois vejam os números. Acrescentem a isso as perspectivas do pré-sal, do crescimento do crédito e do mercado interno. Enfim...
Na verdade, o próprio mercado financeiro internacional opera cheio de preconceitos. Dêem uma olha na tabela da última página do Economist, que assinala os spreads dos títulos de 10 anos. O Brasil vem diminuindo o custo de captação, mas ainda há um delta injustificável. Países que atualmente estão numa situação muito chata ainda se financiam mais barato do que nós.
Mas voltando aos analistas das agências de risco, coitados, vivem dessas classificações politicamente enviesadas e às vezes arriscam recomendações por "reformas estruturais". Antes eram clamores por reformas diariamente. Parece que hoje avançamos, a coisa tá mais comedida, mais discreta. Afinal, os caras estão mais humildes, após a enormidade de asneiras que fizeram. E hoje há um entendimento geral de que não há receita de bolo para o desenvolvimento. Mas a postura de alguns desses analistas de risco continua sendo de uma cretinice total.
Bom, avanço na crítica ressaltando que as agências são remuneradas pelos emissores de títulos, não pelos investidores, por exemplo. Há um claro conflito de interesses. Não sei bem a quantas andam as propostas de regulação dessas criaturas. Vou verificar. Recordo ainda que as agências de risco formam um oligopólio, representam mais uma falha nos mercados.
Os caras erraram grotescamente diante da crise. Foram cúmplices, partícipes, atores em todo o castelo de cartas que desabou. Jogaram juntos na chantagem ao Brasil que ocorreu entre 1995 e 2004. "Façam o dever de casa ou a confiança do investidor estrangeiro desaparecerá e o país vai quebrar."
Retomo pela milésima oitava vez esse estandarte: um país como o Brasil não pode se colocar sujeito às avaliações desse tipo de gente. Dependente desse tipo de percepção. Submisso aos fluxos de capital externo, mesmo que sejam IED, para financiar seu crescimento. Por digo, repito, recomendo e reitero: não podemos brincar com a conta corrente nem com a dívida interna. Uma nação como a brasileira não pode se submeter passivamente às vontades dos credores da dívida. Pior ainda se assimilar mentalmente as demandas de nossos credores como sendo o nosso interesse. Esse é um passado trágico, e recente, que esperamos não mais retorne.
Parágrafo de uma frase só: a identidade contábil que coloca que o déficit em conta corrente representa poupança externa que complementaria nossa baixa taxa de investimentos, decorrente da baixa poupança interna, é uma falácia perigosíssima.
Enfim, volto. Acho divertidíssimos os argumentos desses pobres analistas das agências de risco. Realmente é engraçado ver a pose de seriedade, de juízes da sustentabilidade econômica, da lógica supostamente racional que os rege. E aí me recordo que os números mais básicos desmentem as classificações deles. Recordo-me que eles erraram para tudo quanto é lado. Desde a crise do México, até o leste asiático, até a Russia, a Argentina, a bolha da internet, os caras já têm um histórico de chorar. É curioso como continuam com certo ibope.
Esse post ficou meio bagunçado, talvez esculhambado. Mas o recado tá mais ou menos claro, penso. Promoveram o Brasil? Que bom. Precisamos desses caras? Não. Eles sabem do que falam? Não. Eles têm algum compromisso com o desenvolvimento da nação? Não. A quem eles respondem? Aos credores da dívida brasileira e, de maneira geral, aos centros das finanças globais. Eles têm algum poder? Infelizmente, ainda têm. Portanto, ruim com eles, pior sem eles. Mas não vale muito ibope não. Aliás o ibope não vale nada.
Esse post faz questão de singularizar a empresa de Rating do Paulo Rabello de Castro, um cara que venho aprendendo a admirar pela inteligência e coragem de se contrapor ao lugar-comum que prevalece entre os analistas de mercado. Aliás, estou devendo um post sobre esse tipo de criatura. Em geral, são medíocres. O comportamento de manada e, mais importante, as idéias de manada prevalecem. Mas há alguns muito bons. Para debater com eles, é preciso estofo. Voltarei ao tema.
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