Mostrando postagens com marcador pré-sal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pré-sal. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Se todos fossem...

Ia comentar aqui sobre o petróleo. Continua jorrando. Sujeira, morte. É incrível.

É simbólico, por várias e várias razões. Por ser petróleo extraído das profundezas do planeta. A economia do carbono, insustentável. Por ser a mais alta tecnologia levando-nos ao mais terrível desastre. Por ser uma empresa britânica operando junto aos EUA, mais uma vez a dupla anglo-saxônica causando problemas. Pelo setor privado ter feito a bobagem e agora é o Estado que assume a responsabilidade. Pelas notícias de que a indústria de petróleo também se guiava pelos preceitos da "auto-regulação". E tem enormes bancadas nos parlamentos. Recordo-me da lição básica de meus tempos de FGV: maximizar a riqueza do acionista. Abelhas nas engrenagens do sistema. Maximimizar a riqueza do acionista.

Aliás, parênteses: o marco regulatório do pré-sal passou no Senado. Agora volta à Câmara. A ver, creio que o projeto é positivo. Falta sair a capitalização da Petrobrás.

Mas, não estou com vontade de falar de coisas ruins ou temas pesados. Deixa isso pra lá, o que que há, o que que tem. Vamos falar de Clara Nunes. E de Vinicius. Se todos fossem iguais a você. Pessoas que fizeram o mundo melhor, um mundo mais feliz. Deixaram um rastro de alegria. Viveram, ajudaram outros a viver. No domingo, na festinha brazuca aqui, vou ver se coloco a Clara para tocar. Vinicius. Maria Bethania. Gil. Martnalia e Carlinhos Brown.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Estado de todas as culpas

Aos meus três leitores, comento que tenho escrito aqui, de uma maneira ou de outra, geralmente falando sobre crise, copom, câmbio, mídia, Sarney, Copa e etcétera, que há falhas muito graves na maneira como determinados debates têm sido conduzidos no país. São simplificações, visões rasteiras, PSDB x PT, ética x corrupção, racionalidade do mercado x politicagem no setor público, pusilânime com Bolívia x agressivo contra EUA, enfim, distorções presentes nos mais diversos temas que procuram encaixar coisas complexas em caixinhas bem x mal. Tem bastante gente por aí cheia de certezas. Eu prefiro ficar com minhas perguntas.

No excelente caderno Aliás do Estadão, no domingo último, temos um artigo de um sociólogo, professor em Juiz de Fora, Jessé de Souza, sob o título "O Estado de todas as culpas".

Vou me limitar, agora, a transcrever o artigo. Estava jogando bola e estou sem condições de comentá-lo. Mas recomendo vivamente a leitura. Lógico que teria observações a alguns trechos, é tudo muito polêmico, mas o raciocínio tem a ver com muita coisa que escrevo, sistematizou alguns pontos que talvez eu já tenha assinalado, enfim, foi mesmo uma grata surpresa ler esse texto e vou procurar mais trabalhos de nosso amigo Jessé...


O Estado de todas as culpas
Ele é só associado à ‘politicagem’. E o mercado, à ‘racionalidade’: eis a trava do debate público no Brasil

Jessé Souza*

O debate público e político brasileiro, há algumas décadas, é travado sob a forma de um suposto conflito entre mercado e Estado. A atual discussão sobre o petróleo do assim chamado pré-sal apenas o confirma. Assim sendo, se quisermos compreender efetivamente o que está em jogo nesse debate conjuntural sobre o que fazer com o dinheiro do petróleo recém-descoberto - assim como compreender os debates conjunturais do passado recente e dos que ainda vão acontecer no futuro próximo - temos que focar nossa capacidade compreensiva na reconstrução da estrutura invisível presente em todas essas situações conjunturais passageiras. O tema do debate muda ao sabor das circunstâncias. Sua "estrutura profunda", no entanto, permanece a mesma. Qual é a estrutura profunda nunca tematizada enquanto tal na mídia? O Estado é sempre suspeito de "politicagem" e de "aparelhamento" por indicações políticas e o mercado é definido como instância "técnica", ou seja, reflexo da "racionalidade pura" e do "cálculo técnico". Um é a esfera do "privilégio inconfessável" e o outro o reflexo da "razão técnica" supostamente no interesse de todos. É isso que explica o foco constante e diário na "corrupção política" como a lembrar ao público onde está o mal e onde está o bem. Como tudo no mundo social, essa é uma realidade "construída", fruto de uma leitura seletiva e interessada do mundo.

Como a recente crise mundial mostrou sobejamente (já nos esquecemos dela?), a corrupção é endêmica tanto no mercado quanto no Estado em qualquer latitude do globo. A mitigação da corrupção em qualquer esfera da vida ocorre quando os mecanismos de controle ganham eficiência. A leitura seletiva do Estado como ineficiente e corrupto e do mercado como pura virtude esconde a ambiguidade constitutiva dessas duas instituições que podem servir ao bem ou ao mal conforme seu uso. Por que a "dramatização" cotidiana mil vezes repetida de justamente essa visão distorcida do mundo? A meu ver porque ela é o núcleo mesmo da violência simbólica - aquele tipo de violência que não "aparece" como violência - que torna possível a manutenção e a reprodução continuada no tempo da sociedade complexa mais desigual e injusta do planeta.

O mundo social não é perceptível a olho nu. Pode-se ver a pobreza e a desigualdade nas ruas e não se perceber suas causas. O brasileiro das ruas aprendeu a vincular as mazelas sociais do Brasil à corrupção política. A tese do Estado corrupto - ou a tese do "patrimonialismo" na sua versão erudita igualmente conservadora e frágil - mata dois coelhos com uma mesma cajadada. Como o conflito que ela cria é falso de fio a pavio - na realidade, mercado e Estado são interdependentes e igualmente ambivalentes -, ela ajuda a fabricar uma realidade que permite esconder todos os conflitos sociais reais. Pior ainda. Como uma falsa oposição é dramatizada como "conflito", tem-se a impressão de que existe efetivo debate crítico entre nós, de que temos uma esfera pública atuante, uma mídia atenta e crítica e um país politicamente avançado, quando a realidade é, ponto por ponto, precisamente o inverso.

A dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve como fachada para "representar" a política sob a forma simplista, subjetivada e maniqueísta das novelas, enquanto se cala e se esconde acerca das bases de poder real na sociedade. Toda a aparência é de "crítica social", enquanto toda ação efetiva é a da conservação dos privilégios reais. Assim, fala-se do combate aos "coronéis" e às "oligarquias" - sempre caricatamente nordestinas como o bigode de Sarney - enquanto escondem-se as reais novas oligarquias responsáveis por abocanhar quase 70% do PIB sob a forma de lucro ou juros reduzindo os salários a pouco mais de 30%. Nos países europeus social-democratas essa proporção é inversa. As falsas oposições escondem oposições reais. O falso "charminho crítico" da dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve para esconder e desviar a atenção para a luta de classes que cinde o país entre privilegiados que possuem um exército de pessoas para servi-los a baixo preço e dezenas de milhões de excluídos sem nenhuma chance nem esperança de mudança de vida.

Para todo um exército de analistas que se concentram no "teatro" da política - com suas fofocas e escaramuças diárias entre senadores e deputados com poder decisório entre o nada e o muito pouco - falar-se em "luta de classes" é um tabu. Luta de classes é coisa do passado, tem a ver com greves de trabalhadores e sindicatos que estão desaparecendo ou perdendo importância. Essa é a cegueira da política como "espetáculo" pseudocrítico para um público acostumado à informação sem reflexão. A luta de classes só é percebida nas raras vezes em que as classes oprimidas logram alguma forma de reação pública eficaz. Condenam-se ao esquecimento todas as formas naturalizadas e cotidianas do uso e abuso do trabalho barato e não valorizado. Um pequeno exemplo. O exército de babás, empregadas, faxineiras, porteiros, office-boys, motoboys, que permitem que a classe média brasileira possa dedicar seu tempo a trabalhos valorizados e bem pagos relegando o trabalho pesado e mal pago a outra classe de seres humanos que tiveram o azar de nascer na família (e na classe social) errada. Isso não é "luta de classes"? Apenas porque não há piquetes, polícia e sangue nas ruas? Apenas porque essa dominação é silenciosa e aceita, dentre outras coisas porque também eles, os humilhados e ofendidos, ouvem todo dia que o nosso único mal é a corrupção no Senado ou em algum órgão estatal?

E para as classes média e alta? Não é um verdadeiro presente dos deuses ter privilégios que nem seus consortes europeus ou norte-americanos possuem e ainda poder ter a consciência tranquila de quem sabe que o mal do Brasil está em "outro" lugar, lá bem longe em Brasília, um "outro" abstrato, mau por definição, em relação ao qual podemos nos sentir a "virtude" por excelência? Não se fecha com isso um círculo de ferro onde necessidades sociais e existenciais podem ser manipuladas por uma política e uma mídia conservadora e seu público ávido por autolegitimação e por consciência tranquila?

Para Max Weber - pensador crítico mal lido entre nós como inspiração para a tese do patrimonialismo - os ricos, saudáveis e charmosos, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos, saudáveis e charmosos. Eles querem saber que têm "direito" a serem ricos, saudáveis e charmosos em oposição aos pobres, doentes e feios. É essa necessidade o verdadeiro fundamento e razão do sucesso da tese da suspeição do Estado entre nós. Ela serve como uma luva para não perceber e naturalizar um cotidiano injusto e ainda transferir qualquer responsabilidade para uma entidade abstrata e longínqua, garantindo boa consciência e aparência de envolvimento crítico na política.

A cortina de fumaça do falso debate acerca da demonização do Estado serve para deslocar a única e verdadeira questão do Brasil moderno: uma desigualdade abissal que separa gente com todos os privilégios, de um lado, de subgente sem nenhuma chance real de uma vida digna desse nome, de outro lado. O culpado desse crime coletivo não é apenas o bigode de Sarney. É toda uma sociedade infantilizada por falsos debates e por falsas prioridades e que ainda se pensa - suprema autoindulgência - como crítica e atuante. Esse projeto político não é de partidos, até porque o consenso conservador atinge todos indistintamente. As tímidas iniciativas de política social do atual governo, por exemplo, são mero paliativo da efetiva redenção dos secularmente humilhados e ofendidos. O que fazer com os recursos do pré-sal poderia e deveria ser o estopim para um novo debate brasileiro, corajoso, maduro e generoso, por oposição ao debate covarde, infantil e mesquinho que temos hoje.

*Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, é autor de A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive, a ser publicado em outubro pela UFMG

domingo, 6 de setembro de 2009

Os candidatos e o Pré-Sal

Conforme este humilde blog vinha adiantando, os debates sobre o pré-sal ganharam finalmente as manchetes da imprensa. E, da mesma forma que vinha colocando, gradualmente as posições estão vindo à superfície. A crítica óbvia, e superficial, quase tola, de estatismo e apropriação eleitoral, foi imediatamente ecoada pelos de sempre. Mas, esses perderam credibilidade e não são mais formadores de opinião. O importante é saber o que pensam os pré-candidatos à Presidência.

O post a seguir foi colado do blog do Nassif. Um jornalista da família Marinho publicou notinhas com, supostamente, a visão do Gov. Serra. Hoje na Folha há artigos da liderança do Governo no Senado e do ACM Neto e mais um oposicionista fazendo o contraditório. ACM Neto joga para a torcida e seus argumentos são muito fracos. O artigo da liderança do Governo também mereceria alguns reparos, mas é muito mais consistente.

Enfim, para resumir o que acho relevante, creio que há razoável concordância sobre o modelo adotado. Eu estou de acordo. Depois posso entrar em mais detalhes que, afinal de contas, ainda podem atrasar a aprovação. Até a Economist não perdeu tempo com certa demagogia que permeia o discurso oposicionista. Leiam abaixo qual seria a opinião do Serra (detalhe que no tópica Serra apoia Lula há boas idéias, mas no debaixo enumera apenas fatos e obviedades)...

O que Serra pensa do pré-sal
Atualizado
O provável candidato do PSDB nas próximas eleições, José Serra, não pode se calar ante o pré-sal. Depois que declarou que qualquer lei aprovada agora poderá ser revogada pelo próximo presidente, ficou na obrigação de dizer o que pensa sobre o tema.

Líderes do partido e mídia aliada pensam o seguinte:

1. A exploração deve ser aberta a todos os candidatos.

2. Não se deve dar privilégios à Petrobras.

3. O sistema de partilha iguala o Brasil às nações atrasadas.

4. O fundo soberano não pode ter gestão pública.

São posições que irão marcar o discurso político nas eleições do próximo ano.

O que pensa Serra sobre isso?


Por Heberth Xavier
Nassif, o jornalista Ilmar Franco, da coluna Panorama Político, d’O Globo, publicou ontem:

“SERRA APOIA LULA

O governador de São Paulo, José Serra, apoia a proposta do presidente
Lula para o petróleo do pré-sal. Serra concorda com seu fundamento: o
de aumentar a participação da União na renda do petróleo. Ele usa três
argumentos: 1. o preço do petróleo explodiu nos últimos anos; 2. as
reservas petrolíferas não estão crescendo; 3. as reservas do pré-sal
têm um risco exploratório menor.

“O TUCANO NÃO FARÁ CAMPANHA CONTRA

José Serra, pré-candidato a presidente, está convencido que a mudança
é necessária. Sua avaliação é que é irrelevante o debate concessão x
partilha. Para Serra: 1. essa riqueza é da União; 2. Lula é o
presidente eleito; 3. Lula tinha a prerrogativa de decidir; 4. cabe ao
Congresso examinar a proposta. Um amigo de Serra conta que ele gostou
da fala da ministra Dilma Rousseff sobre a adoção do modelo de
concessão no governo FH. Dilma lembrou que, quando isso ocorreu, o
modelo era compatível com um país vulnerável às crises externas, com
uma Petrobras descapitalizada e com o elevado risco exploratório das
reservas”.

Portanto, Nassif, Serra parece juntar-se ao Mendonção e ao Bresser-Pereira no grupo daqueles economistas do PSDB que gostam, em linhas gerais, do modelo apresentado pelo governo Lula para o pré-sal. Claro, há críticas aqui e ali, mas parecem apoiar o modelo.

Os três, portanto, Nassif, deveriam se juntar aos aloprados que o jornal O Globo chamou de possuidores de um “delírio estatista”. São três comunistas, incompetentes, irresponsáveis, igualzinho sugeriu o editorial do jornal carioca para se referir aos responsáveis pelo marco regulatório encaminhado por Lula ao Congresso.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O debate do pré-sal se intensifica

Poxa, como vinha antevendo, profeta do óbvio que sou, aumentam de intensidade os debates sobre o Pré-Sal. A FSP de hoje publicou um especial sobre isso. Vou colocar só a introdução, mas indico que há outras matérias. Bom, amanhã deve ser a cerimônia de lançamento, vamos aguardar para ver a presença do pessoal, críticas, elogios, enfim, a bola tá rolando e vai ser muito interessante acompanhar esse jogo.


"Governo Lula dá viés social e nacionalista ao pré-sal
Modelo de exploração das novas reservas de petróleo põe fim ao sistema privatizante adotado no governo de Fernando Henrique Cardoso

Com estardalhaço, o governo federal anuncia amanhã as suas propostas para a exploração das reservas de petróleo na chamada camada do pré-sal. Estima-se que essa nova fronteira exploratória, a até 7 km de profundidade na costa brasileira, tenha potencial para mais do que dobrar as reservas de petróleo do país, torná-lo ator fundamental no mercado energético global e gerar receitas capazes de mudar o patamar de desenvolvimento nacional.
As propostas, que serão enviadas ao Congresso, preveem a criação de uma estatal petrolífera e um fundo para a educação, o combate à pobreza e a inovação tecnológica. As páginas seguintes discutem as principais questões do pré-sal.


VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Classificado de "passaporte para o futuro", o novo modelo de exploração de petróleo no país foi desenhado num viés nacionalista, pronto para se encaixar ao discurso de campanha da candidata do presidente Lula à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).
Sai de cena o sistema "privatizante" adotado no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso e entra em vigor, uma vez aprovado pelo Congresso, um modelo petista estatizante e tido como estratégico, baseado num tripé:
1) Criação de uma estatal do setor petrolífero; 2) fortalecimento da Petrobras; e 3) montagem de um fundo com a renda do petróleo para investir na educação, no combate à pobreza e na inovação tecnológica.
O aspecto político e estratégico também definiu a Petrobras como a grande vitoriosa no novo modelo. Contestada internamente no início dos estudos, a estatal virou o jogo e saiu como a futura operadora única do pré-sal e dona de pelo menos 30% dos consórcios que irão explorar as reservas.
A decisão levou as petrolíferas internacionais a criticarem reservadamente o sistema, classificando-o de nova versão do monopólio do petróleo no país -flexibilizado por FHC com a abertura da exploração e na comercialização do setor a empresas privadas nacionais e estrangeiras.
Debatida e elaborada dentro do governo há mais de um ano, a nova Lei do Petróleo será divulgada amanhã debaixo de outras duas críticas: falta de transparência na sua elaboração e divulgação de um "propalado" risco zero posto em dúvidas por especialistas.
Ao longo de 14 meses, período de funcionamento da comissão interministerial criada por Lula para mudar a legislação do setor, o governo discutiu praticamente sozinho as mudanças, deixando governadores e empresários de fora.
Além disso, refutou os questionamentos de que superestimou o potencial das reservas para justificar seu discurso de que o pré-sal é um "bilhete premiado". Nesta reta final, o anúncio de dois poços secos perfurados por empresas estrangeiras reacendeu as dúvidas sobre o "risco zero" das novas reservas, argumento usado para justificar a mudança.
Apesar das dúvidas lançadas por especialistas, ninguém contesta a importância do pré-sal. Nas previsões mais pessimistas do governo, as reservas na região, que vai do litoral de Santa Catarina ao do Espírito Santo, devem ficar entre 30 bilhões e 40 bilhões de barris, muito acima das atuais, de 14 bilhões de barris.
Os mais otimistas falam em reservas de 80 bilhões a 100 bilhões. O governo trabalhou com o primeiro número como teto e desenvolveu a maior parte dos seus cenários com uma reserva de 50 bilhões de barris, suficiente para colocar o país entre os maiores produtores de petróleo do mundo.
A despeito dos ataques nessa reta final, o governo espera que o novo marco regulatório do petróleo seja aprovado pelo Congresso e conte com o apoio da população. Motivo: foi elaborado dentro do conceito de incentivar a indústria nacional e investir em dois setores considerados estratégicos: educação e inovação tecnológica.
Além disso, argumentam assessores presidenciais, o modelo do governo Lula não prioriza o curto prazo, e, sim, o médio e o longo prazos, numa estratégia para administrar a riqueza do pré-sal e garantir que ela seja revertida para a população.
Esses assessores lembram que seria muito mais vantajoso para Lula manter o sistema de concessões criado por FHC e seguir com os leilões do pré-sal, o que renderia uma receita elevada imediata aos cofres públicos. Afinal, no modelo atual, ganha o campo quem pagar mais pela concessão.
Lula preferiu cancelar os leilões e desenhar novas regras, pelas quais ficam com os campos do pré-sal as empresas que entregarem à União a maior parte do óleo extraído. Um sistema que começará a render grandes recursos ao governo apenas quando o pré-sal entrar em escala comercial -o que deve ficar para depois de 2015.
Esse argumento é usado pelos governistas para rebater o discurso da oposição de que o novo marco regulatório do setor se resume a uma "plataforma eleitoral" para eleger a ministra Dilma no próximo ano.
Os assessores de Lula não escondem, porém, que desejam destacar as diferenças entre os dois modelos na campanha eleitoral de 2010. O tucano é mais liberal e aberto ao capital estrangeiro; o petista privilegia a Petrobras e mantém sob controle da União o gerenciamento da nova riqueza."

domingo, 30 de agosto de 2009

Quando apita o árbitro...

e é bola rolando no jogo do Pré-Sal. Com a manifestação dos governadores do RJ, ES e, em menor grau, SP, finalmente o assunto ganhou um pouco do espaço que merece. No dia 31, haverá a cerimônia de apresentação do marco proposto pelo governo. Parece que deixarão a questão da distribuição dos royalties para o Congresso. Na verdade, convenhamos, tudo vai ficar para o Congresso, eles vão mexer no que quiserem.

E aí vem a questão: os caras foram desmoralizados pela mídia. Com certa razão, é claro, mas foi um ataque concatenado fora do comum. E agora como vão discutir esse negócio? Perto, assim, das eleições?

O governo vai tentar passar o rolo compressor. Possivelmente conseguiria na Câmara, no varejão, mas no Senado seria mais complicado. E considerando defecções da base por razões federativas, vai ser bem difícil.

O setor privado e os estrangeiros vão jogar pesado para barrar a proposta do governo. Ontem, no Globonews, lá estavam alguns pseudo-jornalistas falando que há muita pressa desnecessária, que o assunto deve ser melhor discutido, etc... Para os que se sentem perdendo nas condições que o governo irá propor, valerá tudo para que não saia definição e eventualmente isso fique para um próximo governo. E é inevitável fazer a associação: com o atual modelo de financiamento das campanhas eleitorais, putz... tenho até medo de escrever o que penso.

Na verdade, gostaria de conhecer mais sobre as tecnicalidades do jogo para poder elaborar com mais profundidade. Mas acho que o be-a-bá da brincadeira eu já saquei: o setor privado e os estrangeiros querem concessões; o governo quer partilha; creio que há uma diretriz do governo para que a quantidade produzida seja limitada, evitando o que o México fez, vendeu pacas com o petróleo lá embaixo e hoje está sem; o setor privado e os estrangeiros dizem que o pré-sal nem é tudo isso, que faltará capital para investimentos, que está havendo muita pressa, que o governo quer estatizar a produção; já o governo corre para reforçar a Petrobrás, capitalizá-la e ampliar a participação do Estado: creio que há uns 50% do capital da Petrobrás em bolsa, parte boa disso lá fora (por pouco não a desmontaram completamente); setores da mídia, da política e do lado privado/estrangeiro ainda forçam a barra para uma CPI da Petrobrás. Não sei se é necessária essa nova estatal, na verdade apenas uma holding, mas parece uma boa idéia, já que a Petrobrás não é inteiramente do Estado.

Enfim, talvez minha visão seja ingênua, talvez eu seja ingênuo demais para um jogo tão pesado. Porém...

As estimativas das reservas do pré-sal apontam que o Brasil seria elevado ao patamar do Iraque, da Venezuela, do Irã e do Kwait. Talvez até da Arábia Saudita. Dinheiro, muito dinheito. E poder: petróleo é um recurso geopolítico; as grandes reservas mundiais são operadas por empresas dos próprios Estados Nacionais.

Portanto, é bom ficarmos de olho. Lamento se fiz alguma simplificação grosseira. Vou procurar ler mais sobre o assunto. Mas acho que as coisas ficarão mais claras quando o texto for para o Congresso e os interesses começarem a se manifestar de forma mais aberta.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Agenda

Bom, no dia 31, além da série do Silvio Tendler, teremos, bem mais importante, o lançamento do marco regulatório do Pré-Sal. Os lobbies estão à solta nos jornais, em revistas, notinhas, entrevistas, artigos, "estudos", "consultores". É uma luta feroz, sanguinária, suja. O marco regulatório irá ao Congresso e aí veremos algumas coisas muito interessantes. Seria bom também que os pré-candidatos se posicionassem sobre esse tema fundamental.

A próxima reunião do COPOM também será divertida, anotem, 1 e 2 de setembro. A bancada dos "juristas" vai clamar pela manutenção da taxa no nível atual. Argumentarão que o cenário é incerto, que há um descontrole fiscal, etc... etc... e tal. Haverá ainda alguma luta política e ideológica no país até que o setor rentista tome consciência de que deve ganhar dinheiro na produção e não parasitando o resto do país. Após décadas na ciranda, será realmente uma mudança cultural de monta que o país tenha juros civilizados. Há ainda muito espaço para aumentarmos o volume de crédito no PIB (hoje está em +-43%), especialmente no setor de habitação, cuja demanda reprimida é grotescamente alta no Brasil.

O julgamento do Pallocci no STF é na 5a feira. Parece que será absolvido.

Temos aí também São Paulo x Palmeiras no brasileirão, o Santos em busca da libertadores, o trio carioca na segundona, o Goiás com um time muito bom (atacante Felipe, Iarley, Fernandão, dois excelentes laterais, belo time), o Inter buscando se recuperar.

Aguardamos também o relatório final do TCU sobre o PAN no RJ. Hoje li que esse negócio ainda não saiu. Difíííícil, de repente sai no dia 29 de dezembro...

Há também a CPI da Petrobrás, ai ai ai, no meio da discussão sobre o Pré-Sal. Sarney é passado, Lina-Dilma também faleceu por absoluta falta de provas, então a novela da vez deve ser a CPI da Petrobrás.

Bom, o G-20 em Pittsburgh, 24 e 25 de setembro, dispensa comentários. Há coisas interessantes rolando.

Pretendo dar um pitaco também sobre urbanismo. Os Planos Diretores de SP, do DF, e creio que outros, estão sendo detonados. O Plano Diretor é fundamental para colocar algum ordenamento, mínimo que seja, diretrizes que sejam, no crescimento das cidades. É tudo que SP não teve, planejamento. Aliás, em SP, hoje, nova remoção de favelas com a tropa de choque chegando 6 da manhã. Cabe lembrar também que a Lei Cidade Limpa de Sampa está sendo devidamente rasgada, temporariamente, pelos distintos vereadores, com apoio da Prefeitura.

Há coisas boas também acontecendo, eu sei, mas esse blog é sobre a crise, o Brasil e o mundo, escolhas e omissões que traçarão nosso futuro. Portanto prefiro me ater, na maioria das vezes, ao que tá errado, andando pra trás, andando de lado, tropeçando, caindo, reclamando. Sempre gostei do alambrado nos estádios, sempre gostei de ficar ali embaixo, na corneta mesmo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Rola a bola

Rola a bola e vemos hoje uma surpreendente entrevista do Ciro Gomes no Valor. Tá valorizando o passe? Jogando pro Aécio? Colocando pimenta na comida do Lula? Não sei, mas é mais um pequeno lance nessa partida de xadrez que apenas começa, haaaaaja coração. Um ponto interessante de sua argumentação é a questão da governabilidade com o Congresso. Sugiro uma leitura aos interessados.

Sobre nosso amigo Pré-Sal, chamou minha atenção reportagem também no Valor de hoje, na página A3. Os lobbies estão à solta.

Abaixo, notinha da coluna do Nelson de Sá na FSP. Destaquei a última frase em negrito para tentar convencer aqueles que ainda acreditam que a questão com o Sarney é a nomeação do namorado, a ética ou alguma tapioca do gênero.

O SUOR DO "BIG OIL"

A "Forbes", que escolheu a Exxon "a companhia verde do ano", também destaca esta semana que o "Big Oil" ou as grandes empresas de petróleo "estão suando enquanto o Brasil debate os novos controles". Ouve as reações de Shell e Chevron.
Por outro lado, cita analista de Houston, no Texas, para quem o plano de Lula para o pré-sal, com "parcerias minoritárias" para as estrangeiras, "permite manter os benefícios da concorrência".
Já a Reuters ouve um "consultor" do Rio, ex-diretor da agência de petróleo sob FHC, garantindo que, "com esta situação no Congresso, será difícil aprovar as mudanças antes do fim do mandato de Lula".

Um "consultor", um cara aí não identificado, ex-Diretor da ANP no passado e que hoje é um "consultor". Consultor de quem? Quanto ganhava antes da passagem pela ANP e quanto ganha hoje?

Só para desenhar então. O setor privado em geral bombardeia as idéias que vêm sendo ventiladas pelo governo. Essas idéias se transformarão num projeto de lei que irá ao Congresso. Com a crise, dificilmente isso será votado nesta legislatura. Portanto, a crise no Senado favorece àqueles que estão descontentes com os atuais rumos da definição do marco regulatório do Pré-Sal. Adicione a isso uma série de reportagens, denunciando suspeitas de irregularidades na Petrobrás, que acarretaram uma CPI da Petrobrás, mais uma enooorme confusão.

Quem sabe em 2011, com um governo mais legal, um Congresso diferente, a divisão do bolo dos trilhões de dólares do Pré-Sal possa se iniciar. Quanto disso irá para a educação, o desenvolvimento social, o povo brasileiro? Quando disso irá para os consultores? Para as empresas privadas? Para os estrangeiros?

Alguém aí quer mesmo saber do namorado da neta da Sarney?

sábado, 8 de agosto de 2009

Pré-Sal

Uma questão que certamente vou desenvolver aqui é a exploração e, mais importante, a distribuição dos recursos gerados pelo Pré-Sal.

Essa é uma questão fundamental. Os valores envolvidos estão na casa dos trilhões de dólares. Nesse caso, creio que o Governo Lula está cuidando muito bem do tema. Temos que garantir que essa enorme riqueza fique nas mãos dos brasileiros e que seja investida com parcimônia, visão de longo prazo. O bom senso e a história recomendam muita atenção. Há muita gente de olho nas reservas de gás e petróleo. Pessoas influentes, que não estão pensando no bem-estar do povo brasileiro, circulando pelas colunas sociais e escritórios do eixo RJ-SP.

As eleições de 2010 incorporam esse xadrez complicado, mas até hoje não vi uma palavra de determinados pré-candidatos sobre isso. A Dilma está aí defendendo posições a princípio corretas, penso eu, sem também conhecer muitos detalhes, confesso.

Vejo também um pessoal querendo fazer CPI sobre a Petrobrás, vejam só que timing fantástico. Não dá para desvincular uma coisa da outra, lamento. Também há figurinhas que têm aparecido na imprensa dizendo que o Pré-Sal não é tudo isso, que há muitos riscos, que o Brasil não tem capacidade de investimento, no estilo "de repente nem vale tanto assim, então entrega isso pra nós...".

Talvez quando o marco regulatório for enviado ao Congresso, ai ai ai, as posições fiquem mais claras.