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sábado, 15 de outubro de 2011

Reorientação no macro

Pois bem, no post abaixo sobre as notícias da crise comprometi-me a escrever sobre a reorientação programática na política econômica. O nome é péssimo, eu sei. Reorientação programática. Mas é porque não tem nome. Tem sido executada sem fanfarra. A despeito de ser um lance político de grande importância. Talvez mais para a frente tenhamos um nome, um sentido geral para essa mudança.

Enfim, prometi escrever a respeito e nada ainda. Nada ainda? Há diversos, inúmeros e repetitivos posts sobre a economia política da dobradinha câmbio baixo-juro alto. Vêm desde o início do blog. Quem ganha, quem perde.

Quero comentar mais para frente. Entretanto, no entanto, por enquanto, deixo trechos de recente entrevista do Bresser, que escreve tanto. Um cara prolífico, está aí guerreando nos meandros acadêmicos e das idéias. Entrevista muito boa. Disserta sobre vários assuntos, com aquela confiança de quem tem a experiência de antigas batalhas, o desprendimento de quem não está associado a projetos políticos específicos, muito menos projetos de ganho monetário. Há sim uma orientação geral pró indústria e mercado interno. Mas, enfim, qual país de porte no planeta não busca reforçar sua indústria e seu mercado interno? É bom senso.

Antes, apenas um comentário rápido sobre os movimentos Occupy Wall Strett, ocupem não-sei-aonde, sentem-se na praça, façam-se ouvir, discutam, satirizem. Creio que são muito positivos e vêm no momento certo. É claro que os problemas estão muito além da capacidade de articulação teórica e tradução em um projeto político concreto dessas manifestações. Mas é simbólico, é político, faz parte da caminhada. Deve crescer, será interessante observar seu desenvolvimento. Divertido também.

É no entrelaçamento entre a alta finança e a política que se encontra a chave para a compreensão de uma parte de nossas atuais dificuldades. É a máquina do sistema. Criar crédito, tomar do futuro para gastar e investir no presente. Gastar em que? Investir no que? E quem se apropria das rendas geradas por esse capital? E quem não se apropria? De que forma esses setores percebem esse processo? E como traduzem suas preocupações em propostas de políticas públicas? E como as instituições as recebem? Seu processamento, sua execução? Os resultados? Occupy Wall Street.

Vamos a trechos da entrevista do Bresser:


....

CARTA MAIOR: Com que o Brasil deve tomar cuidado nessa crise?

BRESSER: Dois problemas são dominantes no Brasil desde que a inflação foi controlada, em 1994: a alta taxa de juros e a taxa de câmbio sobreapreciada.

CARTA MAIOR: A inflação não voltou a preocupar?

BRESSER: A inflação não é um problema fundamental. Claro que temos sempre de estar preocupados com isso, mas este, hoje, não é nosso problema principal. É importante apenas para quem gosta de juros altos. Como tínhamos problemas para resolver a inflação entre 1980 e 1994, desde 1994 nosso problema passou a ser uma taxa de juros e uma taxa de câmbio anormais. A boa notícia é que o governo, nesses últimos meses, resolveu afinal dar uma guinada para uma política keynesiano-estruturalista, ou desenvolvimentista, o que dá esperanças.

...

CARTA MAIOR: Existe, por parte do governo, algum plano estruturado de desenvolvimento, ou as coisas estão acontecendo por erro e acerto?

BRESSER:
Nas economias capitalistas como a nossa, não faz sentido ter um plano integral. O que é fundamental é que o governo planeje duas áreas: infraestrutura e indústria de base, ou indústria pesada. E administre com mão de ferro o setor financeiro. São esses três setores que exigem planejamento. As decisões sobre infraestrutura, como as hidrelétricas que estamos fazendo, demoram anos para serem colocadas em funcionamento e grandes somas de capital. Isso exige um planejamento que o mercado não tem a menor condição de fazer. O resto da economia – a indústria de transformação, a agricultura em geral, o comércio etc –, isso é mercado, e mais mercado, e mais mercado. Porque aí nós temos empresários, profissionais e trabalhadores competentes. Aí, funciona. A regulação e o planejamento são fundamentais nesses três setores.

CARTA MAIOR: O Banco Central de Alexandre Tombini tem esse perfil?

BRESSER:
O Banco Central é um banco do governo, é parte do governo e tem que fazer a política do governo. Essa história de autonomia do Banco Central não faz nenhum sentido. O objetivo do BC é manter o sistema financeiro como um todo sob controle. Ou seja, não só combater a inflação, mas impedir que exista crise financeira. O BC dos Estados Unidos (o Fed) fracassou ao não evitar uma crise bancária. Além da crise bancária, o Brasil tem que evitar a crise de balanço de pagamentos. E por que nós temos crise no balanço de pagamentos, e eles não? Porque eles tomam emprestado na sua própria moeda – não apenas os Estados Unidos, mas os países ricos, com essa exceção maluca que são os países da Zona do Euro, que não é propriamente a sua moeda. Enquanto nós crescermos com poupança externa, estamos tomando emprestado em outra moeda, que não temos condições de emitir. Por isso, além de contribuir para o equilíbrio econômico, o Banco Central tem essas três funções: controlar a inflação e evitar esses dois tipos de crises financeiras.

CARTA MAIOR: Essa quase concordância que se percebe hoje entre Banco Central e Ministério da Fazenda, então, não é ruim para a economia?

BRESSER:
Não coloca nada em risco. Nós temos um bom economista no BC – ou bons economistas, no plural. O Tombini me parece muito seguro, eu não o conheço pessoalmente mas causa boa impressão. Ele se baseia na experiência recente da Turquia. Aquele país, durante muitos anos, manteve uma grande competição com o Brasil para ver quem tinha juros mais altos. Geralmente a gente ganhava, é lógico, mas a Turquia chegava perto (risos). Até que, há uns quatro ou cinco anos, aproveitou um certo desaquecimento da economia e fez uma baixa de juros firme, levando-os para níveis internacionais. E aí a inflação não se moveu, a taxa de câmbio depreciou 40% e a economia turca está bombando. Essa coisa eu não estou inventando. Eu li isso numa entrevista que o Tombini deu para a Folha há umas três semanas.

CARTA MAIOR: E a questão fiscal, que continua a ser discutida como se fosse o fim do mundo?

BRESSER:
Existem dois tipos de economistas horríveis: os ortodoxos, para os quais todos os problemas do mundo se resolvem com mais ajuste fiscal, e os keynesianos vulgares, para quem tudo se resolve com mais gasto público. É uma burrice. O Brasil atingiu todos os seus objetivos fiscais nesses anos todos – exceto em 2009, o que estava perfeitamente correto – acordados, combinados etc, e no entanto continuam reclamando. Não é esse o problema.

CARTA MAIOR: Esse é um discurso politico, então?

BRESSER:
Também é um discurso politico, mas é um discurso burro. A burrice ortodoxa é a formulinha pronta: qualquer problema resolve-se cortando a despesa pública. Tem um movimento ideológico, simpático, porque se diz que com a redução do Estado os impostos vão diminuir. E aí o keynesiano vulgar pensa: todos os problemas se resolvem aumentando o gasto público. Às vezes o problema é a área fiscal mesmo, que nunca pode ser desleixada. Mas, no Brasil, nós não estamos descuidando disso. Desde 1998 o Brasil vem adotando uma política fiscal correta.

CARTA MAIOR: O problema, então, são os juros e o câmbio?

BRESSER:
O problema macro, sim. Existem outros também. O país tem mil problemas do lado da oferta. Mas o fundamental, que mudaria o quadro do Brasil de maneira enorme em pouco tempo, é o ajuste de juros e câmbio. Oferta é muito importante, tem efeito de médio prazo, não de curto prazo, e está sendo cuidada.

CARTA MAIOR: Não na velocidade que se desejaria.

BRESSER:
De fato. Eu tenho dito que o Brasil, depois da redemocratização, caminhou muito fortemente na própria democracia, e portanto nas liberdades, e melhorou muito na área social. E a parte econômica foi devagar. O nosso desenvolvimento social foi substancialmente melhor do que o nosso desenvolvimento econômico. Os dois caminham mais ou menos juntos, mas às vezes um vai na frente e o outro, atrás. No tempo dos militares, o econômico ia na frente do social. Nós invertemos. Foi bom, mas eu gostaria que os bons resultados na área social fossem acompanhados por bons resultados na area econômica.

CARTA MAIOR: Na parte econômica, estamos na direção certa?

BRESSER:
A questão internacional é muito importante e tem repercussão sobre o Brasil. E refletirá principalmente sobre o Brasil conforme atingir a China. A China acabou de tomar medidas de intervenção, comprando mais ações dos grandes bancos, que já são estatais, porque sua bolsa de valores está caindo. E isso é preocupante.

Os analistas estão dizendo que a China vai reduzir seu crescimento de 11% para 9%. Isso está bom ainda, mas se for de 9% para 5% nós estamos mal-arrumados. O bom foi que o governo brasileiro percebeu isso e se antecipou. A dona Dilma, o seu ministro da Fazenda e o seu presidente do Banco Central estão de parabéns.



Comentário rápido sobre um ponto, o penúltimo. Bresser avalia que após a redemocratização o econômico andou mais lento que o político e o social. É um comentário interessante e a princípio tendo a concordar. Talvez com a crise da dívida nos anos 1980, o problema inflacionário, complicamo-nos logo de início. Depois com o Plano Real desperdiçamos uma excepcional oportunidade e nos deixamos levar por interesses de curto prazo muito estreitos. Avanços sim por alguns lados, com retrocessos em outros aspectos, como Bresser aponta no caso do câmbio e dos juros e dos interesses por trás disso. Nosso amigo regozija-se com a aparente correção de rota que Dilma e as autoridades econômicas vêm ensaiando empreender. Eu também acho positiva, vamos aguardar mais.

E, claro, não posso deixar de apontar a referência para riscos na economia chinesa na última resposta. Poderia escrever 10 páginas a respeito. Mas não aqui, hoje, né? No futuro sim, certamente.

sábado, 13 de agosto de 2011

A Crise Revisitada

Pois é, pois é, bidu. Meus amigos, a preguiça grassa, e vou nos poupar de links antigos, comentários passados, elocubrações remotas. Cansei de alertar para os riscos à frente, a tibieza regulatória, a falta de coordenação e liderança internacional, o predomínio dos lobbies da alta finança contrarrestando as necessárias reformas, tantas coisas...

E agora culpam os governos. Mas ora, os governos estiveram e estão capturados pelo mercado, pelos magos da multiplicação financeira.

Governos também erraram e erram, são desgovernos, sem idéias, submissos, incapazes, é vero.

Mas o cinismo de parte das elites européias e norte-americana é impressionante. Jogarão a conta nos mais pobres, nos que estiveram e estão fora da ciranda, e afundarão ainda mais seus países na recessão.

As coisas não estão simples no cenário internacional. Um grande desarranjo. Como Stiglitz colocou: "A confiança voltou. A confiança de que tudo vai piorar."

E não limito esses comentários à questão dos mercados, da crise das dívidas, da crise de demanda. A política internacional, tantos nos temas multilaterais, como nos cenários geo-estratégicos dos planos regional e bilateral, em muitos casos, está só piorando.

A população cresce, os recursos são escassos. Eu acordo todo dia em Pequim, olho para o céu, e lamento pelo milagre do GDP growth. Nossos amigos chineses seguem cada vez mais rápido, mas para onde mesmo?

"Parem o mundo, eu quero descer" já dizia algum grande poeta.


sábado, 29 de janeiro de 2011

Velha História

Que vontade de falar da Tunísia, do Egito, do Yemen, da Jordânia e de outros lugares! Força aos egípcios, ainda que não dê pra saber o que teríamos num momento pós-Mubarak. Estou aqui ansioso esperando o dia nascer no Cairo para ver o que teremos hoje. Admirado com a coragem dos civis nas ruas.

Mas o blog volta para onde nunca saiu, tema ao qual recorre recorrentemente correndo ao redor do recorde. O governo Dilma ainda dá seus primeiros passos, mas fica a impressão que na política monetária, com fortes impactos sobre a política fiscal, o nível de emprego e a distribuiçao de renda, ficaremos com mais do mesmo, ao menos nesse primeiro ano. Ó vida, ó céus.

Uma economia viciada em juros elevados?
por Antonio Corrêa de Lacerda

O Estado de S. Paulo – 24/01/2011

O governo terá de ter cuidado na calibragem do aumento de juros, por dois principais motivos. O primeiro é que o Brasil já pratica a maior taxa de juro real do mundo e é preciso avaliar corretamente qual a necessidade de elevá-la ainda mais. A taxa Selic, que acaba de ser aumentada para 11,25% ao ano, representa um juro real de 5,5%, quando descontada a inflação prevista para os próximos 12 meses. Isso é mais do que o dobro da média dos países em desenvolvimento e é incompatível com a melhora de todos os indicadores macroeconômicos da economia brasileira nos últimos anos.

O segundo ponto é que é preciso caracterizar claramente a causalidade da inflação atual, que decorre muito mais de choques de oferta do que de pressões de demanda. Grande parte da elevação de inflação decorre de fatores cuja influência da taxa de juros é muito limitada, para não dizer nula, e os quais não controlamos diretamente. É o caso do aumento observado no mercado internacional de commodities, basicamente grãos, combustíveis, metais e outros, que decorre não apenas do crescimento da demanda, mas também de especulação nos mercados financeiros internacionais.

As commodities se tornaram ativos disputados como alternativa de investimentos de grandes fundos, especialmente diante do quadro atual de baixíssimas taxas de juros na maioria dos países. Há ainda fatores sazonais internos, como o impacto das temporadas de chuvas que geram uma inflação localizada e episódica, também descolada de um aumento da demanda que exigisse medidas de contenção.

Seria um erro de diagnóstico, a partir dessas pressões, concluir equivocadamente que seria necessário aumentar a taxa de juros para combatê-las. Depois de um crescimento próximo de 8% em 2010, a economia brasileira deverá se acomodar nos próximos anos, com um crescimento mais perto dos 5%. Naturalmente já está havendo uma desaceleração da taxa de crescimento, o que também vai ocorrer com a restrição de crédito decorrente de medidas que foram tomadas anteriormente pelo governo.

Por último, mas não menos importante, é preciso destacar que o aumento de juros não se trata de uma medida neutra, pois causa tanto efeitos deletérios para a economia produtiva como promove a geração de lucros especulativos no mercado financeiro.

Há um verdadeiro lobby pró elevação de juros, orquestrado por parte daqueles que se beneficiam com a medida, como os credores da dívida pública, que são todos os que aplicam direta ou indiretamente em títulos da dívida pública, e o próprio mercado financeiro, que é intermediário do processo. Como parte desses títulos são pós-fixados, o aumento de juros representa diretamente uma elevação dos seus ganhos.

Não é por acaso que frequentemente assistimos a um aparente “consenso” pela elevação dos juros ou pela sua manutenção em níveis elevados. Há interesses fortíssimos envolvidos que acabam influenciando a opinião pública. Muito pouco se questiona a respeito da real necessidade de manter taxas de juros tão elevadas e, menos ainda, de elevá-las ainda mais. Há um claro processo de acomodação, como se a economia, outrora viciada em inflação, a tivesse substituído pelos juros altos.

Os dados são impressionantes. Como a dívida pública brasileira é da ordem de R$ 1,5 trilhão, seu financiamento tem custado cerca de R$ 190 bilhões ao ano. São recursos que pagamos sob a forma de impostos que o Estado arrecada e transfere aos seus credores.

Cada ponto porcentual de elevação da taxa de juros representa, potencialmente, um gasto adicional de R$ 15 bilhões a cada ano. Isso é mais do que o custo anual de todo o Programa Bolsa-Família, para se ter uma ideia do estrago para as contas públicas.

É muito importante que o Banco Central tenha autonomia, relativamente, ao governo. Mas é também fundamental que não se mantenha refém de movimentos especulativos que privilegiam uma pequena camada da sociedade em detrimento do interesse coletivo.

Por todos os motivos apontados, já passou da hora de uma mudança expressiva. Isso vale tanto para paradigmas que têm que ser questionados, como o piso para a redução dos juros no Brasil, quanto ao sistema de metas de inflação em si, que deve ser preservado, mas precisa ser aperfeiçoado. Há muito a ser feito, desde os indicadores e o prazo para o foco da meta, até a forma de captação das “expectativas” dos agentes do mercado.

É também urgente rever o elevado grau de indexação da economia brasileira, especialmente das tarifas públicas. A correção automática de preços baseada em indicadores que têm pouca relação com a estrutura de custos dos setores, como é o caso do IGP e do IGP-M utilizados na maioria dos contratos, representa uma anomalia, incompatível com a nossa realidade atual.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Avanços

Abri a internet agora e vejo que o Mantega propõe ampliar o uso dos SDRs. O Brasil deseja ainda menções mais firmes a controles de capitais. Muito boa. Os porta-vozes de sempre hão de questioná-lo, já se sabe. Mas é um bom sinal para o futuro Governo da Dilma. Quando devem ser aprofundadas políticas bem sucedidas do governo Lula. Entre elas, domar a sanha dos mercados.

Tô devendo muita coisa pra escrever, se é que alguém tem interesse em ler. O fato é que sigo trabalhando muito. E agora o inverno chegou e já estou meio doente. A ver.

Post chapa branca, ficamos com os discursos de despedida das cerimônias de formatura do Rio Branco do Ministro Celso Amorim e do Presidente Lula.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Drama argentino

Vejam o vídeo: os argentinos, sempre dramáticos, exagerados, apaixonados.



Lula está correto. Apesar das dificuldades, Kirchner recuperou parte do orgulho argentino. Nossos vizinhos foram massacrados por uma aliança que gostaria, se tivesse tido oportunidade, de ter feito o mesmo com o Brasil. Quando os rentistas se apropriam da agenda e do discurso político, em contexto de liberdade nos movimentos de capitais, câmbio fixo e déficit externo, a tragédia está dada. Foi o que aconteceu na Argentina. Foi desse ponto que Kirchner trabalhou para recuperar parte da auto-estima de seu povo. Justa homenagem.

Nocaute técnico

No vídeo abaixo, a então Ministra Dilma, com amplo conhecimento, e mantendo a calma, desmonta a pseudo-jornalista Miriam Leitão, uma porta-voz de baixa qualificação dos mercados financeiros. Nocaute técnico, a infeliz foi derrubada várias vezes. Parênteses: Miriam está tão atrasada que até do Serra tomou paulada. A garotinha de recados dos money managers deve se ressentir do tempo em que tinha acesso à alta cúpula econômica do governo, quando acreditava piamente, até o fim, que 1 real valia 1 dólar.

Essa foi outra entrevista na qual Dilma foi mostrando a que veio. Ela sempre se saiu melhor assim, quando é mais espontânea, livre da marquetagem.

sábado, 25 de setembro de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Desânimo

Recentemente, após a suposta pressão inflacionária que fazia com que o mercado clamasse por nova elevação dos juros, pressão bem sucedida, ora pois, começaram a sair análises, na maior cara-de-pau, dizendo que as perspectivas de aumento da inflação eram baixas. Os números não mentem, diariamente temos novas indicações de que não há problema inflacionário, está tudo tranqüilo. Mesmo assim, os gênio$ ainda clamam por mais elevações. E possivelmente vão levar, é inacreditável.

Sabe-se bem qual é a desse jogo. Teatrinho mal montado mas eficiente que busca a captura de recursos públicos por uma pequena minoria. Isso se repete faz longos anos sob os olhares de todos. Os candidatos, com medo do mercado financeiro, necessitando arrecadar recursos para as campanhas, apenas insinuam mudanças, ou as dissimulam.

Segundo matéria do Estadão de ontem, entraram desde janeiro US$ 12 bilhões de capital externo apenas na renda fixa. Apenas na renda fixa. Juros. O juro em todo o mundo está próximo de zero. Aqui, os nacionais levam por baixo uns 4% reais, gringos tiram o dobro, sem mencionar eventual valorização do câmbio, para desespero das contas externas, que preocupam cada vez mais. Caso o governo não tivesse colocado o IOF, a farra seria muito maior. Isso bate no orçamento, bate na dívida pública, é um teatro, repito, tenebroso.

Abaixo sugiro a leitura de alguns textos. Por que? Ora, porque se relacionam com essa dura lenga-lenga mercado-Banco Central de diversas maneiras. Ideologia, interesses. A supremacia de determinada forma de pensamento, supostamente técnica, presumivelmente neutra, ancorada no bom senso científico dos modelos e certezas neoclássicas.

Todo nosso modelo político e econômico, meus caros, não nos iludamos, baseia-se em premissas filosóficas. E as premissas que vêm sendo utilizadas no gerenciamento do sistema financeiro nacional, e mundial, em boa medida, atendem a interesses muito particulares dos estratos rentistas dos diferentes países.

Eu tenho preguiça, me cansa escrever sobre isso. Já foram uns duzentos posts. Lula não teve coragem de enfrentar esse jogo. Obama sofreu para aprovar uma reforma meia boca, ainda que positiva. Espero, sinceramente, que Dilma, Serra ou Marina ponham limites na esbórnia. É dinheiro público, uma catástrofe, dá desânimo seguir escrevendo sobre esse assunto, peço até desculpas a meus poucos e fiéis seguidores.

Leiam os textos a seguir de dois digníssimos lorde inglêses, se tiverem interesse. Skidelsky é autor de famosa biografia de Keynes. Turner é o chefe do órgão regulador britânico, o mesmo já citado aqui lá atrás, quando ousar mencionar a possibilidade de taxação dos fluxos internacionais, levando às reações já esperadas da City londrina.

Coisa fina. A crítica à economia política dos barões das finanças globais.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Disco Velho

Disco velho, notícia antiga, curioso papo que se repete de uma maneira que nem dá mais vontade de comentar. Aliás, tenho falado pouco de economia política, nacional e internacional. Num outro post comentarei sobre as pressões que agora recaem sobre o governo norte-americano para fazer o aperto fiscal. Por ora, vamos ficar com os sábios do Banco Central do Brasil que subiram novamente os juros.

Saíram números muito significativos sobre o PIB brasileiro no 1o trimestre de 2010. Era esperado. A base de comparação é fraca. E a economia retomou mesmo o ritmo de antes da crise. Com expectativas de mais crescimento, há muito otimismo. Mas os números do 1o trimestre impressionam. Ritmo chinês, cantam as manchetes. E daí seguem os ditos analistas afirmando que é algo insustentável. Há riscos de inflação, alertam. Falta poupança, argumentam. Está aberto o caminho para os gênios justificarem a alta nos juros. A maior taxa real do mundo?

Não vou entrar nas tecnicalidades. Só digo que nosso problema está na conta corrente. Que o investimento gera crescimento e dá condições para o aumento da poupança. Que a posição do câmbio também influencia a formação de poupança. Que o câmbio flutante flutua, é lógico, mas a riquza financeira dos mercados em muito supera o valor da produção global. E são movimentos em geral meramente especulativos, sem relação com emprego, renda, investimento, etc... Portanto, o câmbio flutua, mas não necessariamente devido a fatores reais. E isso distorce o ajuste da conta corrente via câmbio. Hoje li um número assustador, a projeção de déficit na conta corrente de 6% do PIB para 2011. Pagaremos o preço? Há o pré-sal. Mas não devíamos estar contando com isso assim.

Não vou e não quero me alongar. Há uma série de falácias supostamente técnicas que tentam justificar um jogo que é essencialmente político. Dinheiro fácil nos círculos da alta finança. Transferências de renda, acúmulo de riqueza. O rentismo, a hegemonia dos credores da dívida pública, a dobradinha câmbio-juros. Para colocar uma cereja no bolo, o país contribuindo para o crescimento dos países ricos via importações. Tudo que pedem à China, à Alemanha, ao Japão, sem que eles atendam, o Brasil faz por livre e espontânea vontade. Um bom menino. Para deleite dos mercados.

Quando Serra ousou questionar de maneira mais firme uma porta-voz dos credores travestida de jornalista, foi atacado. Curiosamente, Dilma declarou ser favorável a avanços na autonomia do Banco Central. O debate eleitoral é coisa de maluco, não procuremos lógica nem muita profundidade. O mesmo vale para o teatro do aumento dos juros. É tudo política, tudo muito rasteiro. Preocupo-me com o futuro.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pirraça no BC

A reportagem sobre o Torós, Diretor de Política Monetária do Banco Central, no caderno de sexta-feira do Valor é uma peça que beira o ridículo. O cara não só força a saída de maneira extremamente deselegante, rasteira, canhestra, como abertamente já está distribuindo currículo para o mercado financeiro.

Ele salvou o Brasil da crise. Desmontou a armadilha dos derivativos cambiais. Dirigia pelas ruas de São Paulo pensando nos riscos para a população mais pobre. Torós é o máximo. Viva Torós. Vai voltar para o Santander? Morgan Stanley? Alguma administradora de recursos dos muito muito ricos?

Como sabemos, o BC brasileiro reiniciou a subida dos juros em meados de abril/08, pois havia "riscos de inflação". Se não me engano, o BC até aumentou os juros em setembro/08, pouco antes do Lehman quebrar. E só foi baixar os juros, a maior taxa real do mundo, em janeiro de 2009! Foram realmente geniais. O BC ainda incentivou empresas exportadoras, que perdiam na operação com a valorização do câmbio, a se tornarem meramente financeiras, pois garantiam o seu com os swaps reversos. Trocavam o operacional pelo rendimento no financeiro. Apostas. Fantástico.

Nossos noveaux economistes, ignorando completamente a questão ética do vai-e-vem Estado-mercado, montaram esquemas geniais. Isso vem desde o Plano Real. Todos se tornaram multimilionários, é incrível. São os verdadeiros rent-seeking, os tais interest groups que tanto criticaram quando se referiam às políticas protecionistas do passado. Pois não é que os financistas tomam conta de espaços no aparelho de Estado e estabelecem políticas que apropriam parcela da renda nacional para si próprios e seus amigos?

Acho engraçadíssimo o teatro científico que montam para justificar a predominância rentista. Em primeiro lugar, a criação do inimigo, do grande perigo, que no caso da economia brasileira não é Moscou nem Chavez, mas sim a inflação. Qualquer coisa que aconteça na economia brasileira ou mundial, temos então o risco de inflação. É um problema, não é boa, lógico, mas o superdimensionamento da possibilidade de retomada inflacionária justificou alguns exageros óbvios. Pois bem, esse é o contexto político mais geral. No específico, queria eu ter as chaves do modelo matemático. Discutir sobre a Nairu. Fazer apresentações sobre o produto potencial, o hiato do produto, tudo cheio de fórmulas e gráficos. No fim, defender a alta nos juros. Dizer que o câmbio é livre, que o mercado define seu valor. Afirmar sobejamente que a taxa de poupança interna do Brasil é baixa e, já que o governo não corta gastos, a poupança externa é fundamental, imprescindível, não há problema, é uma necessidade atrai-la.

Deixando de lado a esculhambação, ma non troppo, quando os analistas de mercado defendem a independência do Banco Central, na verdade estão querendo garantir seus amigos por lá. Perguntem a eles se defendem a independência do BC com o Belluzzo, o Ricardo Carneiro, Conceição hehe, ou outro. Aí eles vão dizer: nãããããão. Eles querem independência, mas desde que haja um amigo deles por lá. Muito espertos. Tchau Torós. Viva o Brasil!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Big Banks Fail

Volto ao pessoal do Baseline. Recentemente, Greenspan, Volcker e Mervyn King (Governor do Bank of England) clamaram pela quebra dos grandes bancos em instituições menores. O G20 não tocou nesse tema. O Governo Obama nem ousa mexer nisso. Aos interessados, mais aqui.

O detalhe é que no Brasil, como já comentei em outro post, a concentração no mercado financeiro aumentou enormemente nos últimos 15 anos. Felizmente, a regulação aqui é muito mais abrangente e os bancos são mais conservadores. Além disso, fica fácil ganhar com os níveis dos spreads e a baixa concorrência, a dobradinha juros-câmbio, a volatilidade cambial e o crescimento da economia brasileira e do mercado de capitais. Portanto, não tiveram a necessidade de imitar algumas esquisitices imprudentes de seus pares do norte. Isso não impede, entretanto, que os argumentos sobre a influência política de instituições tão grandes sobre o Estado e a sociedade sejam válidos como o são nos EUA. Basta ver como a imprensa em peso e parte razoável do sistema político manifestaram uma irritação desproporcional com uma medida simples, marginal, contornável, comum no mundo inteiro e quase praxe nas décadas anteriores como é a imposição de 2% de IOF sobre aplicações de estrangeiros na bolsa e na renda fixa.

Sobre o IOF

Ainda estou pegando ritmo novamente no trabalho, na vida, no caminhar, se é que me entendem. A imposição do IOF tem gerado grande celeuma, como esperado. É uma medida que vai no sentido correto, embora evidentemente limitada. Limitada por várias razões, mas é o que a Fazenda podia fazer. É um sinal, mais do que algo definitivo.

A chiadeira é generalizada e oferece lições muito claras de economia política. Quem ganha, quem perde. Curiosamente, o Financial Times já se adiantou e elogiou a medida. Outros periódicos estrangeiros também. Por aqui, bem, vocês já imaginam... Vou tentar fazer um post de grande fôlego sobre o tema. Mais para frente.

Só acho engraçado que jornais do peso de uma Folha de São Paulo e um Globo coloquem em destaque que a medida fez a empresa A ou B perder x bilhões. Isso é uma bela de uma desonestidade intelectual, mostra o nível da cobertura em ritmo pré-eleitoral. Hoje me juraram que o Estadão em editorial elogiou a medida. Eu duvidei e sigo duvidando. Reitero: prato cheio para a economia política do Brasil neste final de 2009.

Enfim, quero muito sentar, respirar e escrever algo mais longo sobre o tema.

sábado, 3 de outubro de 2009

Terrorismo

Nelson Barbosa, Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, esculachou ontem aqueles que fazem terrorismo com os dados fiscais do Brasil.

Como eu já disse aqui, alguns "analistas" e papagaios por aí ignoram números, dados históricos, perspectivas e comparações internacionais e assim buscam chantagear o país para que haja uma alta nos juros e corte nos gastos e investimentos do governo. Fingem ignorar, ainda, que o país está tentando superar algo que nos países ricos significou a mais grave crise desde a Grande Depressão.

Nelson Barbosa falou tudo. Com terrorista não se negocia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O jogo esquenta

O PPS parece que vai pedir a saída do Ministro Celso Amorim. A filiação dele ao PT seria incompatível com o cargo. Para além da óbvia tolice, da jogadinha para a torcida, sugiro ao partido que dê uma palavra com os republicanos. A Hillary é filiada ao Partido Democrata. Se tivermos uma imprensa minimamente competente, amanhã já teremos um quadro com os Chanceleres de diversos países e eventuais filiações. Creio que haverá inúmeras. Se o Ministro quiser ser candidato, após décadas servindo, como Chanceler e Embaixador nos principais Postos, os Governos Itamar, FHC e Lula, não vejo o menor problema. Pelo contrário, bom para o país, para uma sociedade que sempre reclama do baixo nível dos políticos. Enfim, isso é espuma.

A filiação do Meirelles é um lance que dá uma conversa mais legal. Tem a ver com um monte de coisa que já escrevi. O Gustavo Franco saiu do governo e virou administrador da riqueza dos muito muito ricos, de pessoas que fazem parte do estrato que compreende, sei lá, 0,3% da população brasileira. Tornou-se milionário após sair do governo, apesar de ter ajudado a quebrar o país (dobrou a dívida externa em 4 anos, nos deixou 6 anos na UTI do FMI). O Pérsio Arida esteve no Itaú e hoje tem seu próprio clubinho de investidores. O Malan foi para o Conselho do Unibanco, hoje está no Itaú-Unibanco. O Toros, o Mesquita e um ou outro de hoje em dia vieram e voltarão para o mercado financeiro. Assim como o Azevedo, o Professor de Deus, o Ilan, tem aquele que posava como o mais radicalzinho e que acabou indo trabalhar para o Daniel Dantas, pois bem, há uma vasta lista. Não posso deixar de comentar que o genro do FHC, antigo chefão da ANP, passou a dar consultoria a empresas estrangeiras na área petrolífera. Nada ilegal, tudo bem.

Já o Meirelles não pode sinalizar que vai voltar para a política. O mercado não gosta da política, associa eleições a riscos, o legal é ganhar dinheiro na esfera financeira negociando os títulos da dívida, arbitrando, captando a custo quase zero e aplicando com retornos por volta de 10% mais a valorização do câmbio.

Parte de nossa elite supostamente bem pensante, cosmopolita, com amigos nos grandes centros financeiros de NY, Londres, Frankfurt, Paris e Tóquio, associa a política a algo ruim. Fico por aqui, não sem reparar que na hora de financiar campanhas eles costumam ser bem participativos.

O Meirelles vai ter que pagar pedágio e bancar uma alta desnecessária nos juros. Será?

As eleições se aproximam e o jogo esquenta. Vem mais por aí. Procuro não baixar o nível. O Brasil está acima de picuinhas pessoais. Cada um faz o que quer da sua vida. O fato de vir do mercado financeiro não impede ninguém de separar as atividades e ser um administrador público isento. Da mesma forma, ser funcionário público de carreira não garante nada. E uma filiação partidária geralmente é apenas isso: uma filiação, uma carteirinha, mesmo porque os partidos atualmente não tem uma ideologia muito coerente, são geléias, circunstâncias, agrupamentos provisórios não muito ancorados em idéias e práticas.

Estou entrando em zonas muito perigosas. Não devia estar aqui falando de coisas do dia-dia, muito menos insinuando palpitar no jogo sujo que cresce conforme se aproximam as eleições. É bom mesmo que eu vá para longe, vou ler os clássicos, tirar um descanso merecido.

Retomo: o Brasil está acima de tudo isso, acima de PT x PSDB, Estado x Mercado, notinhas em jornais e posts em blogs. Vazamentos, espionagens, relações promíscuas na imprensa, etc...

Nem sei porque desci tanto a essas coisas, a Honduras também. Havia prometido falar sobre o "Na Real do Real" (nada a ver com o Plano Real), sobre a obra maravilhosa de Teresa Pires do Rio Caldeira, sobre Mariana Fix, enfim, mudar um pouco o foco para a questão do urbanismo. E fiquei só nessas pataquadas. Lamento e talvez me arrependa. Mas taí, não vou apagar não. Foda-se.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rápidas: Honduras e Agências de Risco

Parte de nossa imprensa udenista, sempre os mesmos, está quase para afirmar que torce para uma guerra civil em Honduras. Chegam pertinho. Assim poderão dizer que o Brasil insuflou e é responsável pelas mortes de um monte de gente. Outros se divertem com alguns meneios incoerentes da diplomacia norte-americana para a região. Torcem também para que os EUA retirem o apoio que até agora vêm oferecendo ao governo constitucional do Zelaya, seguindo aliás todos os outros países do mundo. Alguns articulistas mais delirantes propõem a derrubada do Ministro Celso Amorim e o impeachment do Presidente Lula. Nada mais que isso. Segundo eles, o princípio constitucional da não-intervenção não estaria sendo cumprido. Sim, sim, claro, impeachment, fantástico. Adorei ler isso. São os nossos golpistas. Há, evidentemente, uma questão muito interessante que perpassa o tema: onde termina a defesa da democracia e onde começa o intervencionismo? É uma discussão muito legal. Mas daí a propor o impeachment mostra o grau de desespero e revela os laivos golpistas que sobrevivem na nossa UDN do século XXI.

Sobre o tema das agências de risco, para não dizerem que exagero na falta de critérios delas. Comparem os números do México e do Brasil. Todos os números, se quiserem. Vejam o impacto da crise em nossos amigos hermanos do norte, que apresentam severa dependência do mercado norte-americano (como, aliás, nos recomendava parte da UDN na imprensa, que dizia que o Brasil devia focar nos países mais ricos ao invés de trabalhar pela diversificação). Vejam as previsões de crescimento do México. Saibam que o México explorou quase todo seu petróleo nos últimos anos, saiu exportando tudo, e agora está meio que sem, para se tornar importador. Já o Brasil, ehhehe. Agora leiam este trecho sobre as razões pelas quais a Fitch (uma das três agências do oligopólio) coloca o México em melhor posição que o Brasil, dois graus:

Regarding the investment credit rating gap between Mexico and Brazil, Fitch ratings stated that the possibility that Mexico will be downgraded is higher than the likelihood that Brazil will be upgraded. According to Fitch analyst Shelly Shetty “Mexico's BBB-plus rating -- two levels above Brazil's BBB-minus rating -- is supported by the country's institutional strength, including a formally independent central bank and a track record of fiscal responsibility. But Brazil has clearly held up better than Mexico" during the recent economic crisis. (Reuters, 09/29/09)

A força institucional do país: sim, claro, durante décadas o mesmo partido governou. Tiveram (ou ainda tem?) uma insurreição armada em parte do território (Chiapas, Zapateros). Estão em guerra com um narcotráfico descontrolado.

Um Banco Central formalmente independente (da política, mas não do mercado): e desde quando isso é vantagem? e desde quando o nosso BC não tem atuado com enorme independência. Po, por aqui já é dado como certo que irão subir os juros para saciar a sede de sangue dos rentistas, taí, o mercado (em sua versão mais limitada) vai ficar felizão com as próximas decisões de nosso BC "independente". Ver post abaixo sobre o tema.

Um histórico de responsabilidade fiscal: o México, que foi o primeiro a dar o default na década de 80? E o Brasil por acaso não está com as contas em ordem? E bem melhores que as do México?

Com todo o respeito ao México, um país maravilhoso com um povo que considero nossos primos. Que atua conosco em uma série de temas da política internacional. Com uma história magnífica. Com belíssimas, inteligentes e meigas mulheres, especialmente as de sobrenome Valdes. Com praias e lugares fantásticos para mergulhar. Com sol, música e futebol.

Voltando ao tema, ehehe, Viva México, poderia me alongar um pouco, mas esse post é para ser rápido: as agências de risco ficam entrando nessa seara institucional, como se houvesse um "one size fits all model", uma receita de bolo para o desenvolvimento, isso é de uma cretinice grotesca. Trata-se do ramo da "ciência econômica" que se convencionou chamar de institucionalismo neoliberal, muito forte durante a década de 90, aquela que arruinou diversos países da região. Uma tolice, meias-verdades, lugares-comuns, manuais de bom comportamento elaborados nas universidades norte-americanas e em alguns círculos de Washington para uso da periferia deslumbrada. O Brasil já jogou fora a cartilha faz tempo, felizmente. Teremos o nosso modelo. Só o modelo brasileiro serve ao Brasil.

Por isso digo e repito: as agências de risco não sabem muita coisa. Existem, são uma realidade. Mas não devemos dar muita bola para o que nos sugerem. Não têm qualquer compromisso com o desenvolvimento do país. Não foram eleitas por ninguém, não estão sujeitas a nenhuma forma de controle. Caso estivessem, todos seus funcionários já teriam perdido o emprego, pois as agências erraram vergonhosamente nos inúmeros casos de financial meltdown que tivemos nos últimos 15 anos.

Longe vai o tempo em que devíamos nos submeter às avaliações desses caras para evitarmos a perda da "confiança do investidor externo". O Brasil hoje está em outro patamar. Estamos deixando a adolescência e assumindo um lugar mais condizente no jogo das nações. Por mais que haja uma torcida influente no sentido contrário. Dentro e fora do país.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Armadilhas previsíveis e repetitivas

A cobertura da grande imprensa em temas econômicos e de política externa é muito fraca. Enviesada, politizada, cínica em alguns momentos. Conforme as eleições forem se aproximando, isso só vai piorar. O processo eleitoral é também uma janela para alguns oportunistas. Vamos lá:

1: A posição fiscal brasileira é excepcional. Conforme já demonstrei em posts anteriores, quando comparamos o Brasil aos outros países do G-20, estamos muito tranquilos. Se compararmos os números com outros momentos de nossa história, também não há o que contestar.

Porém, só leio e escuto que há uma gastança generalizada, que há farra fiscal, aumento de gastos permanentes que nada têm de anti-cíclicos. Chavões, meias-verdades, exageros óbvios. Basta ver os números. É simples.

Se acrescentarmos ao excelente quadro atual o crescimento da economia mais firme em 2010, 2011, 2012..., num cenário de taxas de juros muito mais adequadas, embora ainda altas, temos que a relação dívida/PIB não apresenta o menor problema.

Porém, não é isso que diversos "analistas" e "jornalistas" por aí têm colocado.

2) Na medida em que, segundo o discurso, há uma farra fiscal e considerando o crescimento econômico esperado de 4-5%, a segunda perna do oportunismo dá como certo um aumento da inflação para 2010. Ignora assim incertezas externas, uma inflação que no Brasil é, segundo diversos estudiosos, muito mais de custos do que de demanda, o câmbio valorizado e a concorrência dos importados. O raciocínio muito esperto é de uma certeza que me espanta.

3) Daí vem a terceira e última perna da jogada. Na medida em que há farra fiscal e que isso trará inflação, dá-se como certo um aumento dos juros. O mercado já precifica uma taxa futura maior. Cria-se um cenário. O BC entra no jogo e adverte para os riscos do tal descontrole fiscal, insinuando subidas nos juros. Forma-se um consenso, solidificam-se expectativas. E assim a profecia se tornará realidade. E o mais engraçado é que os juros maiores, aí sim, vão bater direto nas contas públicas. 1% a mais nos juros deve significar uns R$ 12 bilhões em gastos. Essa é uma verdadeira farra fiscal, mas curiosamente seus arautos posam de responsáveis defensores da estabilidade. Cortem os gastos públicos: demitam policiais federais, fiscais do Ibama, da Receita, reduzam os vencimentos dos diplomatas, dos aposentados, cuidado com os aumentos no salário mínimo.

É interessante também que nessa jogada tão manjada e óbvia não apareça ninguém para questionar a premissa fundamental que assinalei no item 2: a inflação no Brasil é mesmo de demanda? E prossigo: a taxa de juros de curto prazo é o melhor instrumento para controlá-la, tenhamos ou não essa inflação de demanda?

Por fim, por que o Brasil necessita de taxas de juros reais tão acima de cento e noventa tantos países no mundo? O que explica nossa jabuticaba?

Há ainda uma cereja no bolo dessa brincadeira toda: é o chamado "risco político" para 2010. Algo que perdeu muita força com o passar dos anos e o gradual enfraquecimento da ideologia e do poder de fato dos analistas de mercado, do investidor estrangeiro, dos credores da dívida, enfim.

A democracia, por natureza, é o reino do contraditório. Da divergência, das alternativas, das opções. Mas a "racionalidade do mercado", seus dogmas, seu jogo de cartas marcadas, a manada, enfim, fica preocupada nesses momentos. Pedem mais, eles querem mais. É apenas um exemplo do que chamo de "totalitarismo liberal de mercado", hoje felizmente muito enfraquecido, mas ainda operando. No reino da racionalidade econômica, as eleições muitas vezes não são bem vistas.

O rentismo se vê ameaçado pela queda nos juros reais. Pelo avanço dos bancos públicos na ofera de crédito em melhores condições. Há ainda a velha ladainha contra os gastos sociais. São muitas coisas.

Ninguém aqui é contra o mercado ou o equilíbrio nas contas do governo. Mas é preciso bom senso, números, argumentos, e não um ensaio de jogadinha manjada como já vimos no passado. E deve-se respeitar o processo democrático.

Nem Serra, nem Ciro, nem Dilma, nem Aécio, nem Marina nem ninguém ameaça a excepcional posição em que o Brasil se encontra. Nem o Zelaya muito menos o Chaves.

É hora de amadurecer o debate. Fico feliz, portanto, ao ver alguns analistas de mercado, economistas de grandes bancos, comentaristas políticos, saindo do lugar comum, olhando as dificuldades de outros países e comparando-as com nosso potencial, e afirmando corajosamente: não há o que temer, o Brasil deve avançar, não há riscos, o quadro é sólido.

São exceções, é verdade, mas cada vez menos raras. Quando Estado e Mercado operam afinados para o desenvolvimento da Nação, num país absolutamente pleno em recursos como o Brasil, não temos o que temer. Muito menos um tal "risco político", como se a divergência democrática e a avaliação de alternativas, eventuais mudanças de rotas, fossem contrárias ao interesse da sociedade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Duplipensar

Duplipensar, Orwell, 1984, muitos leram, é um clássico. Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.

Os bancos, seus analistas, seus papagaios na imprensa e na academia, todos passaram os últimos 20 anos falando nos benefícios do mercado, da concorrência, de um capitalismo competitivo, o império do consumidor e por aí afora. E lá se foi nosso Brasilsão.

Pois bem, a FSP de hoje publica matéria sobre a concentração no mercado financeiro. Os cinco maiores bancos concentram cerca de 77% dos ativos. A matéria compara os dados atuais com o período imediatamente anterior à crise. Seria interessante que fosse feito um levantamento com os dados, por exemplo, de meados da década de 90.

A concentração não é necessariamente ruim. Mais importante é a expansão do crédito a custos razoáveis, tarifas em conta e serviços de qualidade, suporte às micro e médias empresas em especial em setores "verdes" e/ou inovadores e/ou com grande impacto social. Mais importante ainda é evitar que nossos "too big too fail" cometam imprudências semelhantes às perpetradas por seus pares no mundo desenvolvido.

Porém, fica essa constatação irônica. O mercado desregulado, livre, leve e solto, não levou, no setor financeiro e em diversos outros, no Brasil e no mundo, à ampliação da concorrência. Ao contrário, promoveu concentração.

Pode-se apontar, evidentemente, que a "globalização" exige maiores economias de escala, que isso é importante para ampliar a internacionalização dos grupos brasileiros e outros argumentos de lógica mais pragmática. Porém, entre o discurso e a realidade, entre a teoria do livro texto e a constatação hmmm empírica, vemos aí uma grande distância.

Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.

domingo, 20 de setembro de 2009

Na Mosca

No Baseline Scenario, críticas agudas ao discurso de segunda-feira em NY e, de maneira geral, às propostas do Governo Obama com relação ao sistema financeiro.

Comentários ácidos sobre o não comparecimento dos CEOs de todos os grandes bancos norte-americanos.

E a descrição de uma jogada muito esperta do Barclays no Reino Unido. Estão transferindo ativos podres para um agente ligado ao banco, mas que não é banco. Portanto, está fora do alcance da regulação. Há ainda detalhes contábeis muito interessantes.

O Baseline é um must read.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Ausência e Retorno

Estive fora por alguns dias, sem condições de blogar. Voltando lentamente, ainda com fuso horário estragado. Muita coisa interessante aconteceu nesses últimos dias.

Nosso amigo Obama voltou das férias e fez alguns discursos para fortalecer suas propostas no Congresso. São 3 as principais: sobre o sistema de saúde, sobre mudança do clima e sobre regulação no sistema financeiro. As 3 estão com problemas para aprovação e sofrem uma campanha de desinformação tremenda. Obama falou sobre a primeira e fez um discurso, em NY, para a nata de Wall Street, no dia em que completamos 1 ano da quebra do Lehman.

Aliás, o Financial Times publicou recentemente artigos do Niall Ferguson e do Martin Wolf muito bons. O texto do Niall, um jovem conservador, muito inteligente, autor de obras de fôlego sobre as finanças e a política mundial, questiona o fato de que deixar o Lehman quebrar teria sido um erro. Para ele, a bancarrota do gigante de Wall Street, ao assombrar os EUA e o mundo, forneceu suporte político para que os governos fizessem intervenções maciças para salvar o resto do sistema financeiro. Otherwise, os congressistas e a opinião pública e publicada não aceitariam pacotes de resgate e medidas tão ousadas. O artigo está aqui.

Já Martin Wolf prossegue no esforço generalizado das pessoas de bom senso em colocar um pouco de cautela nos otimistas de sempre, nos que querem sair na frente em novos booms especulativos, naqueles que desejam retornar ao "business as usual" como se nada tivesse acontecido. Leia aqui. Wolf não é um radical anti-americano nem anti-mercado, sabemos disso, basta reparar no seu posto e, por exemplo, em como ele subscreveu a discutível tese do "global savings glut" como uma das principais causas da crise.

Bom, é isso por enquanto. Volto em breve.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Estado de todas as culpas

Aos meus três leitores, comento que tenho escrito aqui, de uma maneira ou de outra, geralmente falando sobre crise, copom, câmbio, mídia, Sarney, Copa e etcétera, que há falhas muito graves na maneira como determinados debates têm sido conduzidos no país. São simplificações, visões rasteiras, PSDB x PT, ética x corrupção, racionalidade do mercado x politicagem no setor público, pusilânime com Bolívia x agressivo contra EUA, enfim, distorções presentes nos mais diversos temas que procuram encaixar coisas complexas em caixinhas bem x mal. Tem bastante gente por aí cheia de certezas. Eu prefiro ficar com minhas perguntas.

No excelente caderno Aliás do Estadão, no domingo último, temos um artigo de um sociólogo, professor em Juiz de Fora, Jessé de Souza, sob o título "O Estado de todas as culpas".

Vou me limitar, agora, a transcrever o artigo. Estava jogando bola e estou sem condições de comentá-lo. Mas recomendo vivamente a leitura. Lógico que teria observações a alguns trechos, é tudo muito polêmico, mas o raciocínio tem a ver com muita coisa que escrevo, sistematizou alguns pontos que talvez eu já tenha assinalado, enfim, foi mesmo uma grata surpresa ler esse texto e vou procurar mais trabalhos de nosso amigo Jessé...


O Estado de todas as culpas
Ele é só associado à ‘politicagem’. E o mercado, à ‘racionalidade’: eis a trava do debate público no Brasil

Jessé Souza*

O debate público e político brasileiro, há algumas décadas, é travado sob a forma de um suposto conflito entre mercado e Estado. A atual discussão sobre o petróleo do assim chamado pré-sal apenas o confirma. Assim sendo, se quisermos compreender efetivamente o que está em jogo nesse debate conjuntural sobre o que fazer com o dinheiro do petróleo recém-descoberto - assim como compreender os debates conjunturais do passado recente e dos que ainda vão acontecer no futuro próximo - temos que focar nossa capacidade compreensiva na reconstrução da estrutura invisível presente em todas essas situações conjunturais passageiras. O tema do debate muda ao sabor das circunstâncias. Sua "estrutura profunda", no entanto, permanece a mesma. Qual é a estrutura profunda nunca tematizada enquanto tal na mídia? O Estado é sempre suspeito de "politicagem" e de "aparelhamento" por indicações políticas e o mercado é definido como instância "técnica", ou seja, reflexo da "racionalidade pura" e do "cálculo técnico". Um é a esfera do "privilégio inconfessável" e o outro o reflexo da "razão técnica" supostamente no interesse de todos. É isso que explica o foco constante e diário na "corrupção política" como a lembrar ao público onde está o mal e onde está o bem. Como tudo no mundo social, essa é uma realidade "construída", fruto de uma leitura seletiva e interessada do mundo.

Como a recente crise mundial mostrou sobejamente (já nos esquecemos dela?), a corrupção é endêmica tanto no mercado quanto no Estado em qualquer latitude do globo. A mitigação da corrupção em qualquer esfera da vida ocorre quando os mecanismos de controle ganham eficiência. A leitura seletiva do Estado como ineficiente e corrupto e do mercado como pura virtude esconde a ambiguidade constitutiva dessas duas instituições que podem servir ao bem ou ao mal conforme seu uso. Por que a "dramatização" cotidiana mil vezes repetida de justamente essa visão distorcida do mundo? A meu ver porque ela é o núcleo mesmo da violência simbólica - aquele tipo de violência que não "aparece" como violência - que torna possível a manutenção e a reprodução continuada no tempo da sociedade complexa mais desigual e injusta do planeta.

O mundo social não é perceptível a olho nu. Pode-se ver a pobreza e a desigualdade nas ruas e não se perceber suas causas. O brasileiro das ruas aprendeu a vincular as mazelas sociais do Brasil à corrupção política. A tese do Estado corrupto - ou a tese do "patrimonialismo" na sua versão erudita igualmente conservadora e frágil - mata dois coelhos com uma mesma cajadada. Como o conflito que ela cria é falso de fio a pavio - na realidade, mercado e Estado são interdependentes e igualmente ambivalentes -, ela ajuda a fabricar uma realidade que permite esconder todos os conflitos sociais reais. Pior ainda. Como uma falsa oposição é dramatizada como "conflito", tem-se a impressão de que existe efetivo debate crítico entre nós, de que temos uma esfera pública atuante, uma mídia atenta e crítica e um país politicamente avançado, quando a realidade é, ponto por ponto, precisamente o inverso.

A dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve como fachada para "representar" a política sob a forma simplista, subjetivada e maniqueísta das novelas, enquanto se cala e se esconde acerca das bases de poder real na sociedade. Toda a aparência é de "crítica social", enquanto toda ação efetiva é a da conservação dos privilégios reais. Assim, fala-se do combate aos "coronéis" e às "oligarquias" - sempre caricatamente nordestinas como o bigode de Sarney - enquanto escondem-se as reais novas oligarquias responsáveis por abocanhar quase 70% do PIB sob a forma de lucro ou juros reduzindo os salários a pouco mais de 30%. Nos países europeus social-democratas essa proporção é inversa. As falsas oposições escondem oposições reais. O falso "charminho crítico" da dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve para esconder e desviar a atenção para a luta de classes que cinde o país entre privilegiados que possuem um exército de pessoas para servi-los a baixo preço e dezenas de milhões de excluídos sem nenhuma chance nem esperança de mudança de vida.

Para todo um exército de analistas que se concentram no "teatro" da política - com suas fofocas e escaramuças diárias entre senadores e deputados com poder decisório entre o nada e o muito pouco - falar-se em "luta de classes" é um tabu. Luta de classes é coisa do passado, tem a ver com greves de trabalhadores e sindicatos que estão desaparecendo ou perdendo importância. Essa é a cegueira da política como "espetáculo" pseudocrítico para um público acostumado à informação sem reflexão. A luta de classes só é percebida nas raras vezes em que as classes oprimidas logram alguma forma de reação pública eficaz. Condenam-se ao esquecimento todas as formas naturalizadas e cotidianas do uso e abuso do trabalho barato e não valorizado. Um pequeno exemplo. O exército de babás, empregadas, faxineiras, porteiros, office-boys, motoboys, que permitem que a classe média brasileira possa dedicar seu tempo a trabalhos valorizados e bem pagos relegando o trabalho pesado e mal pago a outra classe de seres humanos que tiveram o azar de nascer na família (e na classe social) errada. Isso não é "luta de classes"? Apenas porque não há piquetes, polícia e sangue nas ruas? Apenas porque essa dominação é silenciosa e aceita, dentre outras coisas porque também eles, os humilhados e ofendidos, ouvem todo dia que o nosso único mal é a corrupção no Senado ou em algum órgão estatal?

E para as classes média e alta? Não é um verdadeiro presente dos deuses ter privilégios que nem seus consortes europeus ou norte-americanos possuem e ainda poder ter a consciência tranquila de quem sabe que o mal do Brasil está em "outro" lugar, lá bem longe em Brasília, um "outro" abstrato, mau por definição, em relação ao qual podemos nos sentir a "virtude" por excelência? Não se fecha com isso um círculo de ferro onde necessidades sociais e existenciais podem ser manipuladas por uma política e uma mídia conservadora e seu público ávido por autolegitimação e por consciência tranquila?

Para Max Weber - pensador crítico mal lido entre nós como inspiração para a tese do patrimonialismo - os ricos, saudáveis e charmosos, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos, saudáveis e charmosos. Eles querem saber que têm "direito" a serem ricos, saudáveis e charmosos em oposição aos pobres, doentes e feios. É essa necessidade o verdadeiro fundamento e razão do sucesso da tese da suspeição do Estado entre nós. Ela serve como uma luva para não perceber e naturalizar um cotidiano injusto e ainda transferir qualquer responsabilidade para uma entidade abstrata e longínqua, garantindo boa consciência e aparência de envolvimento crítico na política.

A cortina de fumaça do falso debate acerca da demonização do Estado serve para deslocar a única e verdadeira questão do Brasil moderno: uma desigualdade abissal que separa gente com todos os privilégios, de um lado, de subgente sem nenhuma chance real de uma vida digna desse nome, de outro lado. O culpado desse crime coletivo não é apenas o bigode de Sarney. É toda uma sociedade infantilizada por falsos debates e por falsas prioridades e que ainda se pensa - suprema autoindulgência - como crítica e atuante. Esse projeto político não é de partidos, até porque o consenso conservador atinge todos indistintamente. As tímidas iniciativas de política social do atual governo, por exemplo, são mero paliativo da efetiva redenção dos secularmente humilhados e ofendidos. O que fazer com os recursos do pré-sal poderia e deveria ser o estopim para um novo debate brasileiro, corajoso, maduro e generoso, por oposição ao debate covarde, infantil e mesquinho que temos hoje.

*Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, é autor de A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive, a ser publicado em outubro pela UFMG