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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

sábado, 15 de outubro de 2011

Reorientação no macro

Pois bem, no post abaixo sobre as notícias da crise comprometi-me a escrever sobre a reorientação programática na política econômica. O nome é péssimo, eu sei. Reorientação programática. Mas é porque não tem nome. Tem sido executada sem fanfarra. A despeito de ser um lance político de grande importância. Talvez mais para a frente tenhamos um nome, um sentido geral para essa mudança.

Enfim, prometi escrever a respeito e nada ainda. Nada ainda? Há diversos, inúmeros e repetitivos posts sobre a economia política da dobradinha câmbio baixo-juro alto. Vêm desde o início do blog. Quem ganha, quem perde.

Quero comentar mais para frente. Entretanto, no entanto, por enquanto, deixo trechos de recente entrevista do Bresser, que escreve tanto. Um cara prolífico, está aí guerreando nos meandros acadêmicos e das idéias. Entrevista muito boa. Disserta sobre vários assuntos, com aquela confiança de quem tem a experiência de antigas batalhas, o desprendimento de quem não está associado a projetos políticos específicos, muito menos projetos de ganho monetário. Há sim uma orientação geral pró indústria e mercado interno. Mas, enfim, qual país de porte no planeta não busca reforçar sua indústria e seu mercado interno? É bom senso.

Antes, apenas um comentário rápido sobre os movimentos Occupy Wall Strett, ocupem não-sei-aonde, sentem-se na praça, façam-se ouvir, discutam, satirizem. Creio que são muito positivos e vêm no momento certo. É claro que os problemas estão muito além da capacidade de articulação teórica e tradução em um projeto político concreto dessas manifestações. Mas é simbólico, é político, faz parte da caminhada. Deve crescer, será interessante observar seu desenvolvimento. Divertido também.

É no entrelaçamento entre a alta finança e a política que se encontra a chave para a compreensão de uma parte de nossas atuais dificuldades. É a máquina do sistema. Criar crédito, tomar do futuro para gastar e investir no presente. Gastar em que? Investir no que? E quem se apropria das rendas geradas por esse capital? E quem não se apropria? De que forma esses setores percebem esse processo? E como traduzem suas preocupações em propostas de políticas públicas? E como as instituições as recebem? Seu processamento, sua execução? Os resultados? Occupy Wall Street.

Vamos a trechos da entrevista do Bresser:


....

CARTA MAIOR: Com que o Brasil deve tomar cuidado nessa crise?

BRESSER: Dois problemas são dominantes no Brasil desde que a inflação foi controlada, em 1994: a alta taxa de juros e a taxa de câmbio sobreapreciada.

CARTA MAIOR: A inflação não voltou a preocupar?

BRESSER: A inflação não é um problema fundamental. Claro que temos sempre de estar preocupados com isso, mas este, hoje, não é nosso problema principal. É importante apenas para quem gosta de juros altos. Como tínhamos problemas para resolver a inflação entre 1980 e 1994, desde 1994 nosso problema passou a ser uma taxa de juros e uma taxa de câmbio anormais. A boa notícia é que o governo, nesses últimos meses, resolveu afinal dar uma guinada para uma política keynesiano-estruturalista, ou desenvolvimentista, o que dá esperanças.

...

CARTA MAIOR: Existe, por parte do governo, algum plano estruturado de desenvolvimento, ou as coisas estão acontecendo por erro e acerto?

BRESSER:
Nas economias capitalistas como a nossa, não faz sentido ter um plano integral. O que é fundamental é que o governo planeje duas áreas: infraestrutura e indústria de base, ou indústria pesada. E administre com mão de ferro o setor financeiro. São esses três setores que exigem planejamento. As decisões sobre infraestrutura, como as hidrelétricas que estamos fazendo, demoram anos para serem colocadas em funcionamento e grandes somas de capital. Isso exige um planejamento que o mercado não tem a menor condição de fazer. O resto da economia – a indústria de transformação, a agricultura em geral, o comércio etc –, isso é mercado, e mais mercado, e mais mercado. Porque aí nós temos empresários, profissionais e trabalhadores competentes. Aí, funciona. A regulação e o planejamento são fundamentais nesses três setores.

CARTA MAIOR: O Banco Central de Alexandre Tombini tem esse perfil?

BRESSER:
O Banco Central é um banco do governo, é parte do governo e tem que fazer a política do governo. Essa história de autonomia do Banco Central não faz nenhum sentido. O objetivo do BC é manter o sistema financeiro como um todo sob controle. Ou seja, não só combater a inflação, mas impedir que exista crise financeira. O BC dos Estados Unidos (o Fed) fracassou ao não evitar uma crise bancária. Além da crise bancária, o Brasil tem que evitar a crise de balanço de pagamentos. E por que nós temos crise no balanço de pagamentos, e eles não? Porque eles tomam emprestado na sua própria moeda – não apenas os Estados Unidos, mas os países ricos, com essa exceção maluca que são os países da Zona do Euro, que não é propriamente a sua moeda. Enquanto nós crescermos com poupança externa, estamos tomando emprestado em outra moeda, que não temos condições de emitir. Por isso, além de contribuir para o equilíbrio econômico, o Banco Central tem essas três funções: controlar a inflação e evitar esses dois tipos de crises financeiras.

CARTA MAIOR: Essa quase concordância que se percebe hoje entre Banco Central e Ministério da Fazenda, então, não é ruim para a economia?

BRESSER:
Não coloca nada em risco. Nós temos um bom economista no BC – ou bons economistas, no plural. O Tombini me parece muito seguro, eu não o conheço pessoalmente mas causa boa impressão. Ele se baseia na experiência recente da Turquia. Aquele país, durante muitos anos, manteve uma grande competição com o Brasil para ver quem tinha juros mais altos. Geralmente a gente ganhava, é lógico, mas a Turquia chegava perto (risos). Até que, há uns quatro ou cinco anos, aproveitou um certo desaquecimento da economia e fez uma baixa de juros firme, levando-os para níveis internacionais. E aí a inflação não se moveu, a taxa de câmbio depreciou 40% e a economia turca está bombando. Essa coisa eu não estou inventando. Eu li isso numa entrevista que o Tombini deu para a Folha há umas três semanas.

CARTA MAIOR: E a questão fiscal, que continua a ser discutida como se fosse o fim do mundo?

BRESSER:
Existem dois tipos de economistas horríveis: os ortodoxos, para os quais todos os problemas do mundo se resolvem com mais ajuste fiscal, e os keynesianos vulgares, para quem tudo se resolve com mais gasto público. É uma burrice. O Brasil atingiu todos os seus objetivos fiscais nesses anos todos – exceto em 2009, o que estava perfeitamente correto – acordados, combinados etc, e no entanto continuam reclamando. Não é esse o problema.

CARTA MAIOR: Esse é um discurso politico, então?

BRESSER:
Também é um discurso politico, mas é um discurso burro. A burrice ortodoxa é a formulinha pronta: qualquer problema resolve-se cortando a despesa pública. Tem um movimento ideológico, simpático, porque se diz que com a redução do Estado os impostos vão diminuir. E aí o keynesiano vulgar pensa: todos os problemas se resolvem aumentando o gasto público. Às vezes o problema é a área fiscal mesmo, que nunca pode ser desleixada. Mas, no Brasil, nós não estamos descuidando disso. Desde 1998 o Brasil vem adotando uma política fiscal correta.

CARTA MAIOR: O problema, então, são os juros e o câmbio?

BRESSER:
O problema macro, sim. Existem outros também. O país tem mil problemas do lado da oferta. Mas o fundamental, que mudaria o quadro do Brasil de maneira enorme em pouco tempo, é o ajuste de juros e câmbio. Oferta é muito importante, tem efeito de médio prazo, não de curto prazo, e está sendo cuidada.

CARTA MAIOR: Não na velocidade que se desejaria.

BRESSER:
De fato. Eu tenho dito que o Brasil, depois da redemocratização, caminhou muito fortemente na própria democracia, e portanto nas liberdades, e melhorou muito na área social. E a parte econômica foi devagar. O nosso desenvolvimento social foi substancialmente melhor do que o nosso desenvolvimento econômico. Os dois caminham mais ou menos juntos, mas às vezes um vai na frente e o outro, atrás. No tempo dos militares, o econômico ia na frente do social. Nós invertemos. Foi bom, mas eu gostaria que os bons resultados na área social fossem acompanhados por bons resultados na area econômica.

CARTA MAIOR: Na parte econômica, estamos na direção certa?

BRESSER:
A questão internacional é muito importante e tem repercussão sobre o Brasil. E refletirá principalmente sobre o Brasil conforme atingir a China. A China acabou de tomar medidas de intervenção, comprando mais ações dos grandes bancos, que já são estatais, porque sua bolsa de valores está caindo. E isso é preocupante.

Os analistas estão dizendo que a China vai reduzir seu crescimento de 11% para 9%. Isso está bom ainda, mas se for de 9% para 5% nós estamos mal-arrumados. O bom foi que o governo brasileiro percebeu isso e se antecipou. A dona Dilma, o seu ministro da Fazenda e o seu presidente do Banco Central estão de parabéns.



Comentário rápido sobre um ponto, o penúltimo. Bresser avalia que após a redemocratização o econômico andou mais lento que o político e o social. É um comentário interessante e a princípio tendo a concordar. Talvez com a crise da dívida nos anos 1980, o problema inflacionário, complicamo-nos logo de início. Depois com o Plano Real desperdiçamos uma excepcional oportunidade e nos deixamos levar por interesses de curto prazo muito estreitos. Avanços sim por alguns lados, com retrocessos em outros aspectos, como Bresser aponta no caso do câmbio e dos juros e dos interesses por trás disso. Nosso amigo regozija-se com a aparente correção de rota que Dilma e as autoridades econômicas vêm ensaiando empreender. Eu também acho positiva, vamos aguardar mais.

E, claro, não posso deixar de apontar a referência para riscos na economia chinesa na última resposta. Poderia escrever 10 páginas a respeito. Mas não aqui, hoje, né? No futuro sim, certamente.

domingo, 9 de outubro de 2011

Era das Utopias

Minissérie em seis capítulos do mestre Silvio Tendler. Reflexão fundamental nesses tempos de crise. Crise das idéias, crise do conceito de progresso, crise das utopias, crise econômica e financeira, crise do multilateralismo, crise ambiental, crise das democracias. Tempos de crise, tempo de reflexão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Notícias da crise (o retorno dos que nunca foram)

Notícias da crise. Mas não, não pretendo comentar sobre o cenário internacional. Domingo pela manhã em Pequim, dia de sol e céu azul, embora esteja esfriando. Ontem tivemos o 62o aniversário da Revolução na China, muy bien, molto benne, hen hao. O Partido desfila soberano, envelhecido mas muito forte, cheio de si.

Pois então. Hoje acordei cedo, de boa, me sentindo bem. É feriadão essa semana, mas precisarei trabalhar um pouco, escrever algumas coisas, ler diversos textos, arrumar minha mesa que é uma zona indescritível. Mais visitas chegam hoje aqui em casa. Um casal. Visitas têm se sucedido. É bom receber gente e é bom saber que todos saem muito felizes de Pequim.

Bom, domingão pela manhã, já estourei os neurônios e estou a fim de falar sobre nosso amado Brasil. Em particular, sobre o que vem se revelando uma gradual reorientação da política econômica conduzida pela Presidenta Dilma Rousseff. O timing da mudança, a forma de implementação, as previsíveis críticas que têm sofrido, os reais riscos que corre, divagar um pouco sem maiores compromissos.

Abre parêntese. Tenho acompanhado muito mais de perto, por óbvias razões, a economia e a política chinesa. As coisas aqui têm atingido um estágio realmente fascinante. A proximidade da sucessão política chinesa em 2012-2013 e os desafios e riscos do atual modelo de crescimento econômico chinês entrelaçam-se num jogo nebuloso, muito rico, rivalidades entre grupos de interesse e facções, disputas ideológicas de uma sociedade que se transforma em todos sentidos, mas mantém rigidez em seus processos políticos.

Porém, é preciso ressaltar: é mais do que uma transição política, é uma transição entre gerações. A 5a geração, representada por Xi Jinping, Li Keqiang, Wang Qishan, Bo Xilai e outros, tem formação mais heterogênea (direito, economia, ciência política; a 4a foi dominada por engenheiros). São mais jovens, porém ainda contam com a experiência da Revolução Cultural (a 6a geração será a primeira sem nenhum contato mais próximo com aqueles anos). Serão os primeiros não diretamente bancados por figuras do porte de Mao ou Deng, mas sim resultado de uma burocracia poderosa e razoavelmente bem institucionalizada. Terão responsabilidades fantásticas que valeriam um ou cinco ou centenas de textos.

A cerâmica chinesa, cujos traços apenas pincelei acima, se torna caledoscopial quando colocada na moldura mais geral de recursos naturais cada vez mais escassos, uma economia global em crise, a falta de liderança e modelos e rumos nesse processo de rearranjo político internacional, as dificuldades do chamado mundo ocidental e a ascensão da Ásia. Um corpo desconhecido, um corpo em mudança, um gigante orgulhoso, se insere num meio internacional instável, ancorado em equilíbrios precários, cujas bases financeiras e ideológicas estão sob ceticismo crescente. Movimentos tectônicos na política internacional.

Devo citar, apesar dos pesares, que na região do leste e do sul da Ásia o xadrez político me assusta e acho tudo um saco. Todos estão se armando, rivalidades crescem, nervos se exaltam, andei lendo uns textos nas últimas semanas em parte da imprensa oficialista chinesa e me assustei. Eles são mesmo sensacionalistas, jogam para a torcida, mas assusta a naturalidade com a qual algumas coisas são abertamente discutidas. A despeito do aumento do comércio e dos investimentos regionais, e mesmo de sucessivas reuniões das lideranças locais, ocorrem lances de disputas de poder e revanchismo que só podem terminar mal, é tragédia anunciada...

Durante algumas oportunidades na minha vida tive a alegria de ouvir de algumas mulheres a doce expressâo "Me encanta...". Sob forma quase musical, hispanicamente entonada, me encanta, Antonio, doce e sorridente expressão. Pois bem, sobre o cenário de rivalidades asiáticas eu só posso dizer "Me espanta...", me espanta muito e quero estar longe daqui quando sobrevier alguma bobagem maior e o sangue começar a correr.

Mas, entretanto, porém, como disse, estou com vontade de falar sobre o Brasil. Estou gostando do primeiro ano de governo da PR Dilma. Ela tem demarcado grandes diferenças com relação ao Lula. Não apenas no estilo, o que sempre foi óbvio. Também programaticamente. Evidentemente, o cenário interno e externo é outro e isso força algumas mudanças. Falarei adiante.

Creio que as similitudes ficaram mais na necessidade de administração e aconchego da base governista e do PT, da relação com os outros Poderes, das disputas entre partidos e grupos que já se movimentam com vistas aos próximos anos. Mesmo nesse ponto há caminhos alternativos, como mostram as seguidas pontes que Dilma têm levantado com setores da oposição, particularmente com FHC. As elocubrações sobre reforma política e, em particular, do financiamento eleitoral. Na política externa, vejo ajustes de estilo, ajustes de foco, ajustes decorrentes de mudanças do jogo internacional, mas a orientação geral permanece e a qualidade da condução brasileira é inegável. Num mundo turbulento e perigoso, a voz brasileira é sempre um alento. Sensata, amigável e atenta para a desordem atual e os riscos que isso traz para o desenvolvimento nacional.

É no que chamei de programático, quero dizer, mais do que na gestão, na orientação geral de determinadas políticas, que desejo me alongar. Em particular, no que se pode começar a pensar em chamar de transição macroeconômica. Os juros foram baixados, contrariando as expectativas dos nossos amigos do mercado. A meia-dúzia de seis mil sobre o qual já comentei tanto aqui. Em geral excelentes profissionais, mas muitas vezes um tanto quanto descompromissados com a nação. Enfim, os juros baixaram e a gritaria foi grande. Hoje parece tudo mais tranquilo. Encaixaram.

Dilma é muito respeitada, vem ganhando uma espécie de autoridade diferente da de Lula. É inevitável voltar ao tema do estilo. Lula equilibrava, seu carisma construía diferentes discursos para diferentes multidões, confiança, apelo à emoção. Dilma organiza, avalia, opera à distância. Não sofre os tipos de ataques que Lula sofria (e sofre), muitos deles verdadeiramente vis. Afastou ministros sem conversa-mole. Não fica com papinho ao léu com quem não se tem o que conversar.

Lembro-me de um dos grampos da Satiagraha, creio, operação em que a Justiça em particular, mas o establishment político, econômico e midiático nacional em geral, acharam por bem silenciar. Lá pelas tantas, um dos grampeados, num daqueles diálogos bem republicanos compilados, referia-se à Dilma, então ainda Ministra. Após uma reunião na Casa Civil, os interlocutores teriam ficado impressionados com a esperteza dela, principalmente em descobrir onde estava "a sacanagem".

Pois é, Dilma parece que sabia onde estava a sacanagem, parece que sabe onde está a sacanagem. E ela não gosta muito de sacanagem. Embora algumas estejam fora de seu alcance, nossa Presidenta tem atuado bem no que lhe diz respeito mais diretamente. Ela passa uma imagem pública muito boa. O Brasil precisa de exemplos que venham de cima. Volto ao ponto do diálogo com FHC. Dilma institucionaliza o país, dá um sentido de continuidade maior do que o lulismo permite. Muito bem, Dilma. Ampliando o Brasil, não sem deixá-lo mais complexo, mas também fascinante.

Mas onde está a sacanagem, povo brasileiro? O famoso "Brasil, mostra a sua cara... quero ver quem paga..." Na apropriação de recursos públicos, apropriação de poder, por entes privados, por pequenos grupos, sob a capa do interesse mais geral ou mesmo sob o comodismo da inércia histórica. Não se trata apenas da licitaçãozinha, da propina do fiscal, essas denúncias da TV com câmeras escondidas. Nem também da Castelo de Areia, da Satigraha. É mais. Trata-se da definição de políticas, da atribuição de responsabilidades, da distribuição de perdas e ganhos, do modelo mais geral. Onde também, como no caso da licitação ou da propina, há corruptos e corruptores. Via de mão dupla, é sempre bom lembrar. Teremos um modelo que permita a progressiva incorporação dos setores mais desfavorecidos e a ampliação das liberdades positivas (o direito de criar, elaborar, escolher caminhos) ou será mantida apenas uma máquina de reprodução da riqueza e manutenção da ordem para setores minoritários? Vamos além na democratização da sociedade ou paramos na forma, no discurso e no ajuste fiscal?

Volto, retorno, retomo: entre muitos outros pontos que considero bem importantes, fico com um exemplo no qual Dilma sinalizou e paralelamente opera mudanças positivas, uma brisa de ar nas esperanças de avanços políticos e econômicos.

Trata-se do que alinhavei acima como transição macroeconômica: a queda nos juros, especialmente; a diminuição das despesas com juros permite a manutenção dos níveis da dívida pública em paralelo a aumento nas transferências de renda e esperados reforços à taxa de investimento; vocalização, e atuação aqui e ali, na proteção do mercado nacional e no suporte à indústria e às exportações; tem se discutido também novo código de mineração, imagino que o controle sobre a propriedade fundiária esteja sendo aperfeiçoado; enquanto isso, no Congresso, segue a discussão sobre os royaltes do petróleo. Em debate, parte do que se conhece como federação brasileira.

Vou ficar na queda dos juros, na queda-de-braço com os mercados, na esfera da alta finança, na especulação com ativos em moeda nacional para que se atinja o fim último de se converterem em riqueza universal (dólar). Taí um setor em que tem muita sacanagem. Altas doses de cinismo e hipocrisia. Um jogo pesado. Dilma operando bem nesse meio. Boa, Presidenta.

Porém, mais tarde. Dia de sol e céu azul em Pequim. Easy rider pelas ruas e vielas da capital do Império do Meio. Vida louca, vida breve. Ars longa, vita brevis, já escrevi isso aqui. A continuar...

sábado, 20 de agosto de 2011

Aliança contra a miséria

Editorial do Estadão. Em política, como no amor, sempre há espaço para surpresas

Aliança contra a miséria

O cálculo de interesses é inseparável da ação política, quando não o seu mais potente motor. Ali onde deixou de ser conduzida predominantemente pelo confronto ideológico, a atividade tende a se pautar, para a imensa maioria dos seus praticantes, pela busca de ganhos que pavimentem o caminho ao que, afinal, conta acima de tudo nas democracias: a conquista do voto popular. Em tese, portanto, nada a objetar à permanente preocupação dos políticos com o custo-benefício eleitoral de suas decisões.

O problema, evidentemente, são os meios a que recorrem para acumular vitórias na vida pública e os esquemas de que se valem para aliciar parcelas do eleitorado suficientes para lhes conferir poder. Embora menos frequentemente do que seria de desejar, às vezes as artimanhas dos políticos para a promoção dos seus interesses acabam se traduzindo em atos e situações de genuíno benefício para a sociedade - e não apenas para os mais aptos entre os grupos de pressão que nela competem pelos diversos tipos de recursos que o Estado pode proporcionar.

Dessa perspectiva, teve literalmente tudo para ser bem recebido pelos brasileiros o evento da quinta-feira no Palácio dos Bandeirantes, que reuniu a presidente petista Dilma Rousseff com os quatro governadores do Sudeste, na companhia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, convidado pelo anfitrião tucano Geraldo Alckmin para o lançamento do programa Brasil Sem Miséria na região, em regime de parceria. De fato, como disse Dilma, resumindo com propriedade o espírito da ocasião, "o Brasil sonhado por todos nós pode ser diferente em muitos aspectos. Porém estou certa de que ele é semelhante nas questões fundamentais".

Uma delas, evidentemente, é o imperativo de impedir que as diferenças de aspirações e os conflitos políticos delas decorrentes desbaratem a civilidade política. O ex-presidente Lula, por exemplo, passou boa parte de seu governo, sobretudo depois do escândalo do mensalão e quanto mais se aproximava a temporada sucessória, pregando o oposto. O Brasil por ele descrito era um país polarizado entre "o povo pobre" e as "elites egoístas", cujas respectivas posições diante das questões fundamentais não poderiam ter, por definição, nenhuma semelhança.

O mentor de Dilma, que assumiu dizendo ter recebido uma "herança maldita", deve ter ficado assombrado quando ela reconheceu que os êxitos do governo Fernando Henrique, em especial no combate à inflação, foram o que permitiu ao sucessor desenvolver os seus celebrados programas sociais. Além de fazer justiça ao tucano, a forma carinhosa como desde então o vem tratando - como se tornou a ver ainda agora nos Bandeirantes - decerto é uma fonte de azia para Lula. Tanto que, repetindo a indelicadeza de não aparecer no Planalto para o almoço com o americano Barack Obama, ele recusou o convite de Alckmin para o encontro de anteontem.

Não foi o único. O ex-governador José Serra, crítico do Brasil Sem Miséria e rival de Alckmin, fez o mesmo. Na contramão da linha seguida pelo antecessor no campo das políticas públicas, Alckmin pontilhou estes seus oito primeiros meses de mandato com uma série de iniciativas afinadas com as do governo federal, copiando algumas delas. "Ultrapassamos o período de disputas", afirmou, dirigindo-se à presidente. "Isso se deve ao seu patriotismo, generosidade e espírito conciliador." O grupo de Serra atribui o dilmismo de Alckmin à expectativa de recursos da União para programas que o ajudariam a se reeleger em 2014.

De modo parecido, Dilma estaria interessada em estender a mão ao PSDB não apenas em nome do "grande pacto republicano e pluripartidário" para levar adiante a "faxina contra a miséria", como declarou, mas também para manter a oposição no Congresso em fogo brando - já não lhe bastassem as atribulações com a base aliada. Mas os cálculos dos políticos envolvidos não mudam o essencial: a necessidade de engajar os Estados no combate à pobreza extrema (renda familiar mensal per capita abaixo de R$ 70). Mesmo em São Paulo, 1 milhão de pessoas vivem assim. No Sudeste todo, são mais de 2,7 milhões. A causa justifica o entendimento.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Privilégio




Privilégio.
A selva de são paulo, a selva invisível de Pequim.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

Pois é...

Pois é, pois é, sumi...

Nenhum grande motivo, nada muito concreto. Talvez um somatório de pequenas coisas, num contexto onde a internet por aqui prossegue péssima. Meu programa fura-firewall funcionando muito mal, praticamente sem acesso. Agora arrumei outro programa, tem ido bem por enquanto. A primavera chegou, nossa amiga Dilma se foi. Quem sabe eu não volte a escrever.

Tantos assuntos para comentar, está batendo vontade de voltar a rascunhar alguns textos. Ao mesmo tempo, cresce também a percepção de alguns temas mereceriam algo mais elaborado do que posts escritos sem preparo, planejamento ou qualquer cuidado maior. A ver...

Não resisto a pincelar algumas mal traçadas: o blog já vinha antecipando faz tempo e a coisa só faz piorar. Dificuldades, tensões, desarranjos, falta de coordenação e liderança no cenário internacional. Nada indica que a maré vá virar, pelo contrário. Há um processo de reordenamento em andamento. Tanto sob o ponto de vista macro quanto, conforme se viu pelo Jasmim, partindo de isolados fatos micro.

A política externa brasileira opera diante de cenário cada vez mais turbulento.

Dilma vai bem, porém os desafios são enormes. Está ficando claro que é necessário rearrumar o modelo macroeconômico. Transição difícil, pois há resistências muito poderosas. Quanto ao varejão político, por enquanto segue manejável, embora instável e pouco ou nada desinteressado. Habilmente, nossa amiga Presidenta vem evitando certos embates. Há um jogo mais importante correndo. Mas se abre mão de algumas lutas, seria preciso que abraçasse com mais vigor outras. Enfim, vamos dar tempo ao tempo e lembrar um sábio mestre que um dia afirmou que o ótimo é inimigo do bom. Dilma, estou com você, siga em frente.

Não posso deixar de mencionar: os tribunais superiores estão se encarregando de enterrar a Satiagraha e a Castelo de Areia. Sob os olhares cínicos e complacentes de todo o establishment político nacional. Ponto final, paro por aqui. Afinal, sou apenas um auto-exilado.

A China. Sem querer, sem planejar, sem facilidades, vim parar num lugar que tem me proporcionado uma experiência sensacional. De vida, de trabalho, de responsabilidade, de amadurecimento. Meu santo é forte e espero que continue me protegendo. Saravá...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Breves não bravas sem bravatas brovidênciais

Não é que não esteja com vontade de escrever. É que meu programinha fura-firewall está meio ruim. É preciso paciência e no frio a minha acaba rapidamente. Pois é. Esfriou pacas em Pequim.

Não falta assunto. China-EUA, EUA-China. Desafios macroeconômicos. Rearranjos políticos. Transição Lula-Dilma. Desafios macroeconômicos. Rearranjos políticos. Pretendo escrever sobre o governo Dilma, mas acho melhor esperar a montagem do ministério. A eleição foi fraca em termos de conteúdo. O governo Dilma só terá uma cara assim mais definida com a montagem do ministério. As linhas gerais prosseguem, mas o cenário externo e interno exigirá grande habilidade. Serão escolhas difíceis, testes vários. A artilharia dos de sempre já está apontada para Dilma. Ela terá que vencer sua mais difícil batalha.

Reforma política. Ajustes macroeconômicos. Comentarei-os, quem sabe, depois. Regulação dos artigos 220, 221 e 222 da Constituição, será que ela vai jogar esse jogo? Lula não jogou. A reincorporação do Banco Central ao aparelho de Estado. Essa parece estar melhor encaminhada. A política externa: não vejo grandes mudanças, provavelmente de estilo, talvez ajustes aqui e ali. É fato, porém, que o cenário externo se deteriora. A macroeconomia e a política externa terão que jogar com as circunstâncias. Então volto ao início do parágrafo. Reforma política só sai no começo do mandato. E a regulação dos artigos 220-222 dependerá de solidez na macroeconomia e na base política. Enfim, num mundo interdependente, numa institucionalidade interdependente, num todo que não se divide em partes, há um mosaico de desafios à frente que deverão ter como pano de fundo o processo de redução das desigualdades sociais, ampliação de oportunidades, alargamento da esfera pública em meio às novas velhas questões do ambientalismo, da segurança, da qualidade educacional, etc...

Tô falando complicado. Faz frio aqui. Comentário final: na China, os desafios da elite dirigente também não são poucos. Iludem-se os que pensam que o regime daqui facilita as coisas. Há desequilíbrios, conflitos, disputas. Nossos amigos chineses estão cada dia mais fortes, mas seus desafios não devem ser subestimados.

O festival de cinema brasileiro em Pequim. Um sucesso. Hoje vi O Homem que Engarrafava Nuvens. "Dirigido por Lírio Ferreira, o premiado diretor de Árido Movie, Cartola e Baile Perfumado, esse documentário musical conta a história de Humberto Teixeira, o Doutor do Baião, o compositor por trás de clássicos como Asa Branca, uma das canções mais populares do Brasil".

Fiquei arrepiado e passado de vontade de ir ao Brasil. E os chineses, poxa, ficam boquiabertos. Os gringos presentes também. O baião, o forró. Luiz Gonzaga. A música, a cultura, a arte brasileira. A melhor maneira que temos para ajudar os chineses nessa difícil transição.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra

Belíssima montagem de vídeo de um som também dos melhores.

Em homenagem ao dia da consciência negra.

Meus olhos coloridos me fazem refletir. Em homenagem à primeira grande meta anunciada pelo novo governo: erradicar a miséria nos próximos 4 anos, acelerando o plano original que previa isso para os próximos 6 anos. Vejam que beleza, erradicar a miséria! A mera possibilidade de se discutir isso concretamente é um marco neste nosso Brasil erguido sob o jugo dos processos de colonização, escravidão, massacre dos índios, discriminação das mulheres e distanciamento do povo das grandes decisões nacionais.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

G-20, Dilma, Viagens em Sichuan, poeta Tu Fu, Mongóis, Japas, Li Bo, etc...

A reunião do G-20, como previsto, não deu em muita coisa nova, apenas confirmou o que já se sabia. A despeito de um pequeno avanço no FMI e de questionáveis aperfeiçoamentos no arcabouço da Basiléia, a economia e a política internacional, em sua dimensão multilateral, estão em grande crise. Os capitais prosseguem voando desvinculados da produção. As dívidas soberanas européias são um grande problema. Os sistemas financeiros norte-americano e europeu prosseguem sendo umas porcarias sustentadas pelos Estados. É provável que os problemas se aprofundem.

O Brasil deve se precaver. Jogo pra gente grande. Tenho uma teoria sobre o Governo Dilma. Mas vou aguardar um pouco para escrever. Adianto que talvez seja possível que ela inverta a equação usada por Jânio e em alguma medida por Lula. Ousadia no exterior, certo conservadorismo na política interna. Dilma de repente pode trocar de lado algumas variáveis, mudar nuances. A ver. Especulações.

Sichuan, como já escrevi, é uma província de vastas e férteis planícies cercadas por montanhas, bem no interior da China. Terra de florestas. Terra dos pandas. Irrigadas pelos rios que descem do teto do mundo.

Os mongóis a conquistaram durante o Século XIII. À época, os chineses estavam divididos entre duas dinastais, os Song, mais ao sul, e os Jin, mais ao norte. Os Song se aliaram aos mongóis para derrotar os Jin. Derrotaram-nos. Mas os mongóis gostaram da China. E aí invadiram os territórios dos Song. Ficaram até 1368, pouco mais de 100 anos de domínio. Iniciou-se então a Dinastia Ming.

Já os japoneses não conseguiram invadir essa região durante a II Guerra. Conquistaram a Manchúria, Pequim, Xangai, toda a costa leste. Chegaram perto de Chongqing, mas de lá não passaram. A resistência aos japoneses uniu os comunistas e os nacionalistas. Logo após a II Guerra, derrotados os japoneses, foi retomada a guerra civil chinesa.

Bom, o post tá meio bagunçado. Fotos do Museu de Sichuan e do parque onde viveu o Poeta Tu Fu, mestre da Dinastia Tang (600-900 d.C.), Poeta-Historiador, Poeta-Sábio. A estátua é de nosso amigo Tu Fu que, segundo o pessoal que conhece, é um dos grandes poetas chineses ao lado de Li Bo. Ambos viveram durante a Dinastia Tang (618-907), considerada o auge da poesia chinesa. Até teriam se encontrado duas vezes. Enfim, viajando no post, mas mostrando que devagarzinho vou aprendendo umas coisas sobre a China antiga. Viajar é preciso.

Então, em primeiro lugar, nosso amigo Tu Fu.

pois é, não consigo fazer o upload das fotos... separei 10... vai ficar pra outro dia...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Drama argentino

Vejam o vídeo: os argentinos, sempre dramáticos, exagerados, apaixonados.



Lula está correto. Apesar das dificuldades, Kirchner recuperou parte do orgulho argentino. Nossos vizinhos foram massacrados por uma aliança que gostaria, se tivesse tido oportunidade, de ter feito o mesmo com o Brasil. Quando os rentistas se apropriam da agenda e do discurso político, em contexto de liberdade nos movimentos de capitais, câmbio fixo e déficit externo, a tragédia está dada. Foi o que aconteceu na Argentina. Foi desse ponto que Kirchner trabalhou para recuperar parte da auto-estima de seu povo. Justa homenagem.

Nocaute técnico

No vídeo abaixo, a então Ministra Dilma, com amplo conhecimento, e mantendo a calma, desmonta a pseudo-jornalista Miriam Leitão, uma porta-voz de baixa qualificação dos mercados financeiros. Nocaute técnico, a infeliz foi derrubada várias vezes. Parênteses: Miriam está tão atrasada que até do Serra tomou paulada. A garotinha de recados dos money managers deve se ressentir do tempo em que tinha acesso à alta cúpula econômica do governo, quando acreditava piamente, até o fim, que 1 real valia 1 dólar.

Essa foi outra entrevista na qual Dilma foi mostrando a que veio. Ela sempre se saiu melhor assim, quando é mais espontânea, livre da marquetagem.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O "lançamento" da candidatura

O distinto Senador Agripino Maia, ao questionar a então Ministra Dilma, numa CPI, sobre o fato de ter afirmado uma vez que mentiu durante a ditadura, ou seja, que sabia e estava acostumada a mentir, levou uma invertida que o trucidou. Abaixo então temos Dilma em um de seus melhores momentos. Creio que mesmo na campanha ela não chegou a ir tão bem quanto nesse depoimento espontâneo. Alguns analistas consideram essa ocasião um lançamento "informal", não planejado, um fato político que alavancou sua candidatura.

Nocaute, como lembram alguns comentaristas.

Oráculo

Em 5 de outubro, escrevi que Dilma deveria vencer com 55% contra 45%. Pois bem, com uns 93% dos votos apurados, o placar é esse mesmo. A diferença talvez aumente um pouquinho.

Depois escrevo sobre o resultado.

domingo, 31 de outubro de 2010

31 de outubro

31 de outubro de 2010 é dia de celebração da democracia brasileira. Na China, a brincadeira começa daqui a pouco. Deixo a Aquarela Brasileira para celebrar mais esse momento histórico.

João Bosco, num clássico do "meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil"

E o Zé Carioca numa peça fantástica. Eu sei, eu sei, Disney tem toda uma polêmica envolvida, wo jidou, tenho algumas várias reservas, mas não contaminemos toda arte com política.

domingo, 17 de outubro de 2010

Mais dois artigos

Prometo parar de falar a respeito. Mas seguem aí mais dois artigos sobre o vazio programático do processo eleitoral brasileiro. Pra não ocupar muito espaço, ficam os links. Walter Maierovitch comenta sobre a ausência de debate sobre a questão prisional. Vitor Soares comenta sobre o jogo pesado e superficial da reta final da campanha. É o Fla-Flu que eu tanto temia.

Eles estão surdos

FERNANDA TORRES

Eles estão surdos


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Candidatos fecham o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo numa massa sonora sem relevância --------------------------------------------------------------------------------


HORÁCIO, o amigo confidente de Hamlet, passa toda a tragédia de Shakespeare servindo de ouvido para as angústias do príncipe. No fim, recebe a incumbência de contar às futuras gerações a história do herói, mas a peça termina antes que possa fazê-lo.
Preencher os longos momentos de silêncio, testemunhando todos os dias as mesmas palavras, é exercício fino de atuação. Horácio conduz a poesia por meio de sua atenção e ajuda a fazer a ponte entre Hamlet e o espectador.
O ator Pedro Cardoso costuma dizer que o mundo é feito de monólogos. Segundo ele, ninguém presta realmente atenção no que o outro está dizendo. O ouvinte, no fundo, só espera a pausa do interlocutor para sair falando o que pensava enquanto o parceiro gastava o verbo.
O virulento debate entre os dois candidatos que restaram é um exemplo típico da teoria do Pedro.
Com apenas dois lutadores na arena, a necessidade de contrapor as diferenças triplicou. É forçoso impedir que o recado do oponente chegue ao eleitor. Cada um enaltece sua versão absoluta da realidade e despreza a do concorrente. Qualquer possibilidade que não seja a própria vitória é apresentada como uma catástrofe de proporções bíblicas.
Como sofro de pessimismo crônico e desconfio das vacas gordas, tendo a concordar com as previsões funestas.
A descrição de José Serra do que será o Brasil nas mãos de Dilma Rousseff, tomado por barganhas políticas de cargos nos setores estratégicos e perseguido pela execução sumária dos opositores, me causa arrepios.
Da mesma maneira, tremo quando Dilma prevê o fim da justa distribuição de renda pelas mãos do PSDB ou recorda o processo de privatização no reinado tucano.
Meu impulso é sair estocando comida, água e papel higiênico para me preparar para o dilúvio eminente.
Eu sei que é ingenuidade achar que uma corrida eleitoral acontece na gentileza, mas estou com dificuldade de discernir o real do imaginário, a justiça da calúnia, e me preocupa a falta de perspectiva de diálogo futuro entre os dois oponentes.
Nas edições compactas do debate da Band na internet, o vírus da incomunicabilidade se mostra mais agressivo.
A montagem que favorece Dilma é extraordinária. Editaram apenas o início das respostas de Serra ao final de cada uma das assertivas intervenções da petista. Dilma desanca a suposta intenção de privatização da Petrobras por parte do opositor e Serra responde lacônico: "Sempre voltam a essa questão."
Ponto. E Dilma cai novamente de sola em cima do passivo adversário.
O corte é tão cirúrgico que consegue fazer com que Serra concorde com todas as acusações de Dilma.
O vídeo exemplifica a maneira como os candidatos preparam a escuta na corrida eleitoral. Ao contrário do que se exige do ator que encarna Horácio, o candidato deve fechar o ouvido para o discurso do adversário até transformá-lo, também para o eleitor, em uma massa sonora sem relevância.
Como dizia o rei Roberto: eles estão surdos!
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FERNANDA TORRES é atriz

Entrevista com Wen Jiabao

Entrevista raríssima: o Primeiro-Ministro Wen Jiabao conversou recentemente com o jornalista Fareed Zakaria da CNN. A última vez que havia concedido uma entrevista a um jornalista ocidental foi para o mesmo Zakaria em 2008. Não entrarei em detalhes, mas há diversos movimentos bastante interessantes ocorrendo no opaco sistema político chinês. Tudo que temos são pistas, sinais esparsos, mas parece estar ocorrendo intenso debate da elite local com vistas aos rumos do país e à sucessão prevista para 2012.

Para quem se interessar, sugiro ver os outros 4 vídeos da entrevista.