Putz, tinha prometido não falar de Honduras, tinha prometido não me deixar levar pelas novelas que são instantaneamente criadas para logo serem esquecidas pela mídia, mas, enfim, alguns adendos.
Um seguimento mais delirante da curiosa interpretação que os herdeiros da UDN espalham é o seguinte: o Brasil estaria insuflando uma guerra civil, isso teria sido cuidadosamente planejado. O Brasil estaria no bolso dos planos bolivarianos de Hugo Chavez.
Sim, sim, claro. Os comunistas comem criancinhas e o ouro de Moscou financiava um Jango que planejava uma iminente revolução quando foi derrubado pelas forças democráticas.
Voltando: o Brasil e todo o resto do mundo condenaram o golpe. Se não me engano, foi por unanimidade na Assembléia-Geral da ONU, algo raríssimo. Creio também que nenhum país, nenhum, reconhece o "governo de facto". Aí o homem aparece na nossa Embaixada. (Ninguém tem o menor indício de prova de que teríamos sido avisados muito menos coniventes com isso. O resto é especulação, ou torcida.) Queriam que não deixássemos ele entrar para ser preso, humilhado ou até morto?
De resto, eu concordo inteiramente. A situação é complicada. A solução não está dada nem é simples. Zelaya se comporta de maneira não adequada. Em hipótese alguma ele deveria se manifestar politicamente. Mas também parece ser impossível controlá-lo. Vamos fazer o que, expulsá-lo?
Parece que o governo do Micheletti se recusa a negociar, barrou o Plano Arias, não quer conversar e declarou até o Estado de Sítio. O cara era aliado do Zelaya. Parece que há uma birra pessoal forte entre os dois. Digo "parece" porque não tenho acesso algum a qualquer inside information. Nem quero, tenho mais o que fazer. E se tivesse, não escreveria aqui, mesmo que tenha apenas 3 leitores.
Então é isso, a situação é complicada. A comunidade internacional está inteiramente unida, havendo as óbvias divergências de tom sobre a questão. Nenhum encaminhamento agora será simples. Vamos ver. Bom senso ajuda. Olhar para o futuro também.
Enquanto isso, no G-20, novo órgão decisório mundial, ao qual o FMI e o Banco Mundial estão subordinados, começam tratativas para a institucionalização do grupo. A imprensa alemã, francesa, australiana, inglesa, norte-americana e outras apontam uma grande vitória dos BRICs, que atuaram com estreita coordenação.
Lula vai receber mais alguns prêmios internacionais nas próximas semanas. Ouve-se por aí que pode ganhar o Nobel da Paz.
Mas, enfim, a política externa é um fracasso e envergonha o país. Certas estão algumas famílias que monopolizam o noticiário nacional. Eles não se conformam com o que vem acontecendo. Devem ter se matado de raiva quando o Serra indicou concordar com o modelo do pré-sal.
Isso me faz rir. Há grupos que estão órfãos, coitados, que pena. Perderam o poder de fazer a cabeça das pessoas. Estão desacreditados, desmoralizados.
O Brasil vai amadurecendo para um difícil século XXI. O pós-Lula será nosso grande desafio, para além de um setor financeiro à parte da economia produtiva, dos efeitos da ação do homem sobre o meio-ambiente e do constante perigo de eclosão de alguma guerra desestabilizadora. Ameaças que, evidentemente, dependem para sua superação de uma estreita e eficaz coordenação internacional.
Mas, voltando a nosso querido Brasil, Ciro Gomes vem alertando, corretamente, que só a figura mítica do Presidente Lula consegue conciliar interesses tão diversos, trabalhar com forças tão complicadas quanto o PMDB, sindicatos, bancos, empresários, a esquerda, o agribusiness, os movimentos sociais, a feroz mídia nativa, etc... e tal. Qual será o modelo político em 2011, como os interesses serão balanceados, que forças irão sustentar uma nova coalizão? São algumas das questões fundamentais. É pena que não estarei aqui para presenciar in loco a transição.
Ars longa,
vita brevis,
occasio praeceps,
experimentum periculosum,
iudicium difficile.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Sobre Honduras
Não. Não vou escrever sobre Honduras. Só se fala em Honduras. Na TV e nos jornais. A versão mais inteligente, se é que me entendem, divulgada por alguns sábios muito bem informados, é a de que o Chavez estaria manipulando o Brasil. Que armamos a volta do Zelaya. Que a política externa envergonha o país e é contrária aos nossos princípios históricos de atuação.
Olha, não nego que a entrada do Zelaya, um cara meio fanfarrão, com dezenas de seguidores, na Embaixada brasileira, tenha sido um negócio chato. Chato demais. A situação hoje não é simples nem confortável. Mas ele é o Presidente eleito e foi deposto, expulso do país. A OEA, a União Européia, a União Africana, todos se manifestaram por unanimidade. A ONU. Dizer que o Brasil está isolado e viajou é um baita exagero. É preciso ser muito cínico. Isso não quer dizer que a situação atual seja simples nem confortável. Mas daí a estrebuchar, é sinal de que está faltando assunto.
Assunto que na verdade não faltava. Meu Deus, durante décadas o Brasil demandou acesso ao núcleo do poder mundial. Saímos da Liga das Nações por não aceitarmos um papel menor. Estamos firmes na articulação por uma necessária reforma no Conselho de Segurança. E nessa última semana, quando só se falou de Honduras, caramba, o Brasil conseguiu um resultado ótimo no G-20. O país, na linha de frente das negociações, viu ser confirmada a proeminência do grupo, o agendamento de duas outras Cúpulas para 2010 e mais diversos avanços regulatórios, em matéria de coordenação e de reformas institucionais que poderão se materializar com o tempo.
Como em Londres, colocaram o Pres. Lula ao lado do anfitrião na foto oficial de Pittsburgh. A imagem vale tudo. A diplomacia é feita de detalhes. O Presidente é o cara. A Newsweek o comparou ao Mandela. O Times, o Independent, a Economist, o International Herald Tribune, todos tecem loas ao novo papel do Brasil. E por aqui só se lê que a diplomacia é um fracasso. Será que os leitores de algumas publicações não enxergam o óbvio?
Poucas análises têm captado o que vem se passando. O poder mundial escorrendo e sendo agarrado, reconstruído, pelos grandes países em desenvolvimento. Mas os caras só falam de Honduras e tentam criar uma novelinha de uma história reconhecidamente complexa, mas com uma certeza que só os fanáticos políticos possuem, proclamam que a diplomacia brasileira é um fracasso, nos envergonha e tal. Que culpa temos se o fanfarrão deposto, mas democraticamente eleito, apareceu na porta da Embaixada. Deixaríamos ele ser morto nas ruas? Preso e humilhado? O cara foi eleito e sofreu um golpe! As eleições ocorreriam ao final de novembro e ele não era candidato, não postulava nada.
É aquela coisa que comentei no post sobre o Jessé: transformam coisas complicadas em caixinhas bem x mal. Supremo cinismo, proclamam que a diplomacia é um fracasso contrariando a mais óbvia realidade.
Enfim, tento não esculachar demais, segurar a indignação. Mas às vezes é difícil. No fim-de-semana estarei em São Paulo Babilônia Selva. Por lá ouvirei mil pessoas bem intecionadas, mas pessimamente informadas, me questionando sobre Honduras, sobre a vergonha que o país passa, etc... Quando na verdade nunca o país esteve tão firme. Com tantos apoios. Responsabilidades, expectativas. Armadilhas. Desafios. Ninguém disse que a coisa é fácil.
O jogo político é muito duro, a verdade é a primeira a perecer. Por aqui, a quinta coluna é forte. Estão sempre prontos a tomarem partido de certos interesses incofessáveis. Herdeiros da UDN. Minoria golpista, rentista, excludente. Não contam com candidato para 2010. Não vejo o Serra nem o Aécio jogando o jogo deles. Assim espero. O Brasil avança.
Olha, não nego que a entrada do Zelaya, um cara meio fanfarrão, com dezenas de seguidores, na Embaixada brasileira, tenha sido um negócio chato. Chato demais. A situação hoje não é simples nem confortável. Mas ele é o Presidente eleito e foi deposto, expulso do país. A OEA, a União Européia, a União Africana, todos se manifestaram por unanimidade. A ONU. Dizer que o Brasil está isolado e viajou é um baita exagero. É preciso ser muito cínico. Isso não quer dizer que a situação atual seja simples nem confortável. Mas daí a estrebuchar, é sinal de que está faltando assunto.
Assunto que na verdade não faltava. Meu Deus, durante décadas o Brasil demandou acesso ao núcleo do poder mundial. Saímos da Liga das Nações por não aceitarmos um papel menor. Estamos firmes na articulação por uma necessária reforma no Conselho de Segurança. E nessa última semana, quando só se falou de Honduras, caramba, o Brasil conseguiu um resultado ótimo no G-20. O país, na linha de frente das negociações, viu ser confirmada a proeminência do grupo, o agendamento de duas outras Cúpulas para 2010 e mais diversos avanços regulatórios, em matéria de coordenação e de reformas institucionais que poderão se materializar com o tempo.
Como em Londres, colocaram o Pres. Lula ao lado do anfitrião na foto oficial de Pittsburgh. A imagem vale tudo. A diplomacia é feita de detalhes. O Presidente é o cara. A Newsweek o comparou ao Mandela. O Times, o Independent, a Economist, o International Herald Tribune, todos tecem loas ao novo papel do Brasil. E por aqui só se lê que a diplomacia é um fracasso. Será que os leitores de algumas publicações não enxergam o óbvio?
Poucas análises têm captado o que vem se passando. O poder mundial escorrendo e sendo agarrado, reconstruído, pelos grandes países em desenvolvimento. Mas os caras só falam de Honduras e tentam criar uma novelinha de uma história reconhecidamente complexa, mas com uma certeza que só os fanáticos políticos possuem, proclamam que a diplomacia brasileira é um fracasso, nos envergonha e tal. Que culpa temos se o fanfarrão deposto, mas democraticamente eleito, apareceu na porta da Embaixada. Deixaríamos ele ser morto nas ruas? Preso e humilhado? O cara foi eleito e sofreu um golpe! As eleições ocorreriam ao final de novembro e ele não era candidato, não postulava nada.
É aquela coisa que comentei no post sobre o Jessé: transformam coisas complicadas em caixinhas bem x mal. Supremo cinismo, proclamam que a diplomacia é um fracasso contrariando a mais óbvia realidade.
Enfim, tento não esculachar demais, segurar a indignação. Mas às vezes é difícil. No fim-de-semana estarei em São Paulo Babilônia Selva. Por lá ouvirei mil pessoas bem intecionadas, mas pessimamente informadas, me questionando sobre Honduras, sobre a vergonha que o país passa, etc... Quando na verdade nunca o país esteve tão firme. Com tantos apoios. Responsabilidades, expectativas. Armadilhas. Desafios. Ninguém disse que a coisa é fácil.
O jogo político é muito duro, a verdade é a primeira a perecer. Por aqui, a quinta coluna é forte. Estão sempre prontos a tomarem partido de certos interesses incofessáveis. Herdeiros da UDN. Minoria golpista, rentista, excludente. Não contam com candidato para 2010. Não vejo o Serra nem o Aécio jogando o jogo deles. Assim espero. O Brasil avança.
Armadilhas previsíveis e repetitivas
A cobertura da grande imprensa em temas econômicos e de política externa é muito fraca. Enviesada, politizada, cínica em alguns momentos. Conforme as eleições forem se aproximando, isso só vai piorar. O processo eleitoral é também uma janela para alguns oportunistas. Vamos lá:
1: A posição fiscal brasileira é excepcional. Conforme já demonstrei em posts anteriores, quando comparamos o Brasil aos outros países do G-20, estamos muito tranquilos. Se compararmos os números com outros momentos de nossa história, também não há o que contestar.
Porém, só leio e escuto que há uma gastança generalizada, que há farra fiscal, aumento de gastos permanentes que nada têm de anti-cíclicos. Chavões, meias-verdades, exageros óbvios. Basta ver os números. É simples.
Se acrescentarmos ao excelente quadro atual o crescimento da economia mais firme em 2010, 2011, 2012..., num cenário de taxas de juros muito mais adequadas, embora ainda altas, temos que a relação dívida/PIB não apresenta o menor problema.
Porém, não é isso que diversos "analistas" e "jornalistas" por aí têm colocado.
2) Na medida em que, segundo o discurso, há uma farra fiscal e considerando o crescimento econômico esperado de 4-5%, a segunda perna do oportunismo dá como certo um aumento da inflação para 2010. Ignora assim incertezas externas, uma inflação que no Brasil é, segundo diversos estudiosos, muito mais de custos do que de demanda, o câmbio valorizado e a concorrência dos importados. O raciocínio muito esperto é de uma certeza que me espanta.
3) Daí vem a terceira e última perna da jogada. Na medida em que há farra fiscal e que isso trará inflação, dá-se como certo um aumento dos juros. O mercado já precifica uma taxa futura maior. Cria-se um cenário. O BC entra no jogo e adverte para os riscos do tal descontrole fiscal, insinuando subidas nos juros. Forma-se um consenso, solidificam-se expectativas. E assim a profecia se tornará realidade. E o mais engraçado é que os juros maiores, aí sim, vão bater direto nas contas públicas. 1% a mais nos juros deve significar uns R$ 12 bilhões em gastos. Essa é uma verdadeira farra fiscal, mas curiosamente seus arautos posam de responsáveis defensores da estabilidade. Cortem os gastos públicos: demitam policiais federais, fiscais do Ibama, da Receita, reduzam os vencimentos dos diplomatas, dos aposentados, cuidado com os aumentos no salário mínimo.
É interessante também que nessa jogada tão manjada e óbvia não apareça ninguém para questionar a premissa fundamental que assinalei no item 2: a inflação no Brasil é mesmo de demanda? E prossigo: a taxa de juros de curto prazo é o melhor instrumento para controlá-la, tenhamos ou não essa inflação de demanda?
Por fim, por que o Brasil necessita de taxas de juros reais tão acima de cento e noventa tantos países no mundo? O que explica nossa jabuticaba?
Há ainda uma cereja no bolo dessa brincadeira toda: é o chamado "risco político" para 2010. Algo que perdeu muita força com o passar dos anos e o gradual enfraquecimento da ideologia e do poder de fato dos analistas de mercado, do investidor estrangeiro, dos credores da dívida, enfim.
A democracia, por natureza, é o reino do contraditório. Da divergência, das alternativas, das opções. Mas a "racionalidade do mercado", seus dogmas, seu jogo de cartas marcadas, a manada, enfim, fica preocupada nesses momentos. Pedem mais, eles querem mais. É apenas um exemplo do que chamo de "totalitarismo liberal de mercado", hoje felizmente muito enfraquecido, mas ainda operando. No reino da racionalidade econômica, as eleições muitas vezes não são bem vistas.
O rentismo se vê ameaçado pela queda nos juros reais. Pelo avanço dos bancos públicos na ofera de crédito em melhores condições. Há ainda a velha ladainha contra os gastos sociais. São muitas coisas.
Ninguém aqui é contra o mercado ou o equilíbrio nas contas do governo. Mas é preciso bom senso, números, argumentos, e não um ensaio de jogadinha manjada como já vimos no passado. E deve-se respeitar o processo democrático.
Nem Serra, nem Ciro, nem Dilma, nem Aécio, nem Marina nem ninguém ameaça a excepcional posição em que o Brasil se encontra. Nem o Zelaya muito menos o Chaves.
É hora de amadurecer o debate. Fico feliz, portanto, ao ver alguns analistas de mercado, economistas de grandes bancos, comentaristas políticos, saindo do lugar comum, olhando as dificuldades de outros países e comparando-as com nosso potencial, e afirmando corajosamente: não há o que temer, o Brasil deve avançar, não há riscos, o quadro é sólido.
São exceções, é verdade, mas cada vez menos raras. Quando Estado e Mercado operam afinados para o desenvolvimento da Nação, num país absolutamente pleno em recursos como o Brasil, não temos o que temer. Muito menos um tal "risco político", como se a divergência democrática e a avaliação de alternativas, eventuais mudanças de rotas, fossem contrárias ao interesse da sociedade.
1: A posição fiscal brasileira é excepcional. Conforme já demonstrei em posts anteriores, quando comparamos o Brasil aos outros países do G-20, estamos muito tranquilos. Se compararmos os números com outros momentos de nossa história, também não há o que contestar.
Porém, só leio e escuto que há uma gastança generalizada, que há farra fiscal, aumento de gastos permanentes que nada têm de anti-cíclicos. Chavões, meias-verdades, exageros óbvios. Basta ver os números. É simples.
Se acrescentarmos ao excelente quadro atual o crescimento da economia mais firme em 2010, 2011, 2012..., num cenário de taxas de juros muito mais adequadas, embora ainda altas, temos que a relação dívida/PIB não apresenta o menor problema.
Porém, não é isso que diversos "analistas" e "jornalistas" por aí têm colocado.
2) Na medida em que, segundo o discurso, há uma farra fiscal e considerando o crescimento econômico esperado de 4-5%, a segunda perna do oportunismo dá como certo um aumento da inflação para 2010. Ignora assim incertezas externas, uma inflação que no Brasil é, segundo diversos estudiosos, muito mais de custos do que de demanda, o câmbio valorizado e a concorrência dos importados. O raciocínio muito esperto é de uma certeza que me espanta.
3) Daí vem a terceira e última perna da jogada. Na medida em que há farra fiscal e que isso trará inflação, dá-se como certo um aumento dos juros. O mercado já precifica uma taxa futura maior. Cria-se um cenário. O BC entra no jogo e adverte para os riscos do tal descontrole fiscal, insinuando subidas nos juros. Forma-se um consenso, solidificam-se expectativas. E assim a profecia se tornará realidade. E o mais engraçado é que os juros maiores, aí sim, vão bater direto nas contas públicas. 1% a mais nos juros deve significar uns R$ 12 bilhões em gastos. Essa é uma verdadeira farra fiscal, mas curiosamente seus arautos posam de responsáveis defensores da estabilidade. Cortem os gastos públicos: demitam policiais federais, fiscais do Ibama, da Receita, reduzam os vencimentos dos diplomatas, dos aposentados, cuidado com os aumentos no salário mínimo.
É interessante também que nessa jogada tão manjada e óbvia não apareça ninguém para questionar a premissa fundamental que assinalei no item 2: a inflação no Brasil é mesmo de demanda? E prossigo: a taxa de juros de curto prazo é o melhor instrumento para controlá-la, tenhamos ou não essa inflação de demanda?
Por fim, por que o Brasil necessita de taxas de juros reais tão acima de cento e noventa tantos países no mundo? O que explica nossa jabuticaba?
Há ainda uma cereja no bolo dessa brincadeira toda: é o chamado "risco político" para 2010. Algo que perdeu muita força com o passar dos anos e o gradual enfraquecimento da ideologia e do poder de fato dos analistas de mercado, do investidor estrangeiro, dos credores da dívida, enfim.
A democracia, por natureza, é o reino do contraditório. Da divergência, das alternativas, das opções. Mas a "racionalidade do mercado", seus dogmas, seu jogo de cartas marcadas, a manada, enfim, fica preocupada nesses momentos. Pedem mais, eles querem mais. É apenas um exemplo do que chamo de "totalitarismo liberal de mercado", hoje felizmente muito enfraquecido, mas ainda operando. No reino da racionalidade econômica, as eleições muitas vezes não são bem vistas.
O rentismo se vê ameaçado pela queda nos juros reais. Pelo avanço dos bancos públicos na ofera de crédito em melhores condições. Há ainda a velha ladainha contra os gastos sociais. São muitas coisas.
Ninguém aqui é contra o mercado ou o equilíbrio nas contas do governo. Mas é preciso bom senso, números, argumentos, e não um ensaio de jogadinha manjada como já vimos no passado. E deve-se respeitar o processo democrático.
Nem Serra, nem Ciro, nem Dilma, nem Aécio, nem Marina nem ninguém ameaça a excepcional posição em que o Brasil se encontra. Nem o Zelaya muito menos o Chaves.
É hora de amadurecer o debate. Fico feliz, portanto, ao ver alguns analistas de mercado, economistas de grandes bancos, comentaristas políticos, saindo do lugar comum, olhando as dificuldades de outros países e comparando-as com nosso potencial, e afirmando corajosamente: não há o que temer, o Brasil deve avançar, não há riscos, o quadro é sólido.
São exceções, é verdade, mas cada vez menos raras. Quando Estado e Mercado operam afinados para o desenvolvimento da Nação, num país absolutamente pleno em recursos como o Brasil, não temos o que temer. Muito menos um tal "risco político", como se a divergência democrática e a avaliação de alternativas, eventuais mudanças de rotas, fossem contrárias ao interesse da sociedade.
sábado, 26 de setembro de 2009
O sentido do blog
Para dentro, para fora, agora, ontem, muito embora, escrever é um exercício solitário, é para poucos, é para mim, há possíveis exageros e às vezes cresce a tentação de reescrever, reelaborar, repensar, contradizer, aliviar, nuances, pontos de vista, perspectivas.
Estado e Mercado não são opostos. Interagem. É preciso equilíbrio. Se a balança está para um lado, então vamos para o outro.
O sentido do blog na voz de Claudia. Que grata surpresa.
Nos próximos dias, a democratização dos meios de comunicação em "Na real do Real", o olhar apurado da "Cidade dos Muros" de nossa brilhante Teresa Pires do Rio Caldeira e ainda Mariana Fix mirando no cerne da questão em sua "Ponte para a Especulação".
Antes de lhes deixar com o desabafo de Claudia, fica o link para o último estudo do IPEA sobre a concentração de renda no Brasil. As coisas estão melhorando, mas há uma longa estrada. A estrada da vida. La Strada.
Estado e Mercado não são opostos. Interagem. É preciso equilíbrio. Se a balança está para um lado, então vamos para o outro.
O sentido do blog na voz de Claudia. Que grata surpresa.
Nos próximos dias, a democratização dos meios de comunicação em "Na real do Real", o olhar apurado da "Cidade dos Muros" de nossa brilhante Teresa Pires do Rio Caldeira e ainda Mariana Fix mirando no cerne da questão em sua "Ponte para a Especulação".
Antes de lhes deixar com o desabafo de Claudia, fica o link para o último estudo do IPEA sobre a concentração de renda no Brasil. As coisas estão melhorando, mas há uma longa estrada. A estrada da vida. La Strada.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Tempo, tempo, tempo
Assembléia-Geral da ONU, G-20 em Pittsburgh, Honduras, economia brasileira, câmbio, Copa 2014, pré-sal, eleições... muitos assuntos para pouco tempo do blogeiro. Queria também complementar o post sobre o grau de investimento com menos esculhambação e uma análise um pouco melhor de quais os impactos positivos e também os negativos (câââmbio) de mais dinheiro entrando no Brasil.
Mas está difícil de parar e escrever algo. Minha cabeça parece estar longe, bem longe, em aprazíveis lugares distantes como a China.
Mas está difícil de parar e escrever algo. Minha cabeça parece estar longe, bem longe, em aprazíveis lugares distantes como a China.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Duplipensar
Duplipensar, Orwell, 1984, muitos leram, é um clássico. Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.
Os bancos, seus analistas, seus papagaios na imprensa e na academia, todos passaram os últimos 20 anos falando nos benefícios do mercado, da concorrência, de um capitalismo competitivo, o império do consumidor e por aí afora. E lá se foi nosso Brasilsão.
Pois bem, a FSP de hoje publica matéria sobre a concentração no mercado financeiro. Os cinco maiores bancos concentram cerca de 77% dos ativos. A matéria compara os dados atuais com o período imediatamente anterior à crise. Seria interessante que fosse feito um levantamento com os dados, por exemplo, de meados da década de 90.
A concentração não é necessariamente ruim. Mais importante é a expansão do crédito a custos razoáveis, tarifas em conta e serviços de qualidade, suporte às micro e médias empresas em especial em setores "verdes" e/ou inovadores e/ou com grande impacto social. Mais importante ainda é evitar que nossos "too big too fail" cometam imprudências semelhantes às perpetradas por seus pares no mundo desenvolvido.
Porém, fica essa constatação irônica. O mercado desregulado, livre, leve e solto, não levou, no setor financeiro e em diversos outros, no Brasil e no mundo, à ampliação da concorrência. Ao contrário, promoveu concentração.
Pode-se apontar, evidentemente, que a "globalização" exige maiores economias de escala, que isso é importante para ampliar a internacionalização dos grupos brasileiros e outros argumentos de lógica mais pragmática. Porém, entre o discurso e a realidade, entre a teoria do livro texto e a constatação hmmm empírica, vemos aí uma grande distância.
Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.
Os bancos, seus analistas, seus papagaios na imprensa e na academia, todos passaram os últimos 20 anos falando nos benefícios do mercado, da concorrência, de um capitalismo competitivo, o império do consumidor e por aí afora. E lá se foi nosso Brasilsão.
Pois bem, a FSP de hoje publica matéria sobre a concentração no mercado financeiro. Os cinco maiores bancos concentram cerca de 77% dos ativos. A matéria compara os dados atuais com o período imediatamente anterior à crise. Seria interessante que fosse feito um levantamento com os dados, por exemplo, de meados da década de 90.
A concentração não é necessariamente ruim. Mais importante é a expansão do crédito a custos razoáveis, tarifas em conta e serviços de qualidade, suporte às micro e médias empresas em especial em setores "verdes" e/ou inovadores e/ou com grande impacto social. Mais importante ainda é evitar que nossos "too big too fail" cometam imprudências semelhantes às perpetradas por seus pares no mundo desenvolvido.
Porém, fica essa constatação irônica. O mercado desregulado, livre, leve e solto, não levou, no setor financeiro e em diversos outros, no Brasil e no mundo, à ampliação da concorrência. Ao contrário, promoveu concentração.
Pode-se apontar, evidentemente, que a "globalização" exige maiores economias de escala, que isso é importante para ampliar a internacionalização dos grupos brasileiros e outros argumentos de lógica mais pragmática. Porém, entre o discurso e a realidade, entre a teoria do livro texto e a constatação hmmm empírica, vemos aí uma grande distância.
Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.
Grau de Investimento
A Moody´s promoveu o Brasil a grau de investimento. Notícia boa, é óbvio. Não atrapalha, é evidente. Mas dá pra levar a Moody´s a sério? Por acaso há algo de científico, ou racional, ou lógico, nos obscuros critérios das agências de risco?
Sim, há um pouco de critério. Mas são bem maleáveis. Por exemplo, nosso déficit, nossa dívida pública e a dívida externa estão absolutamente sob controle. Não há o menor risco de qualquer problema. Então porque essa demora toda em promover o Brasil?
Uma rápida olhada numa hipotética tabela dos países com suas classificações de risco ao lado dos indicadores de déficit e dívida já demonstraria toda a falácia dos critérios das agências. O Brasil tem indicadores melhores do que boa parte dos países do G7, senão de todos. Nossa posição é muito mais sólida do que a de diversos países que têm o glorioso grau de investimento. Talvez uns 5 países apenas atualmente estejam em melhor situação. E qual a classificação do Reino Unido? Da Espanha? Da Grécia? Da Irlanda? Do México? Da África do Sul? Turquia? Colômbia? Comparem as classificações desses países com a do Brasil. Depois vejam os números. Acrescentem a isso as perspectivas do pré-sal, do crescimento do crédito e do mercado interno. Enfim...
Na verdade, o próprio mercado financeiro internacional opera cheio de preconceitos. Dêem uma olha na tabela da última página do Economist, que assinala os spreads dos títulos de 10 anos. O Brasil vem diminuindo o custo de captação, mas ainda há um delta injustificável. Países que atualmente estão numa situação muito chata ainda se financiam mais barato do que nós.
Mas voltando aos analistas das agências de risco, coitados, vivem dessas classificações politicamente enviesadas e às vezes arriscam recomendações por "reformas estruturais". Antes eram clamores por reformas diariamente. Parece que hoje avançamos, a coisa tá mais comedida, mais discreta. Afinal, os caras estão mais humildes, após a enormidade de asneiras que fizeram. E hoje há um entendimento geral de que não há receita de bolo para o desenvolvimento. Mas a postura de alguns desses analistas de risco continua sendo de uma cretinice total.
Bom, avanço na crítica ressaltando que as agências são remuneradas pelos emissores de títulos, não pelos investidores, por exemplo. Há um claro conflito de interesses. Não sei bem a quantas andam as propostas de regulação dessas criaturas. Vou verificar. Recordo ainda que as agências de risco formam um oligopólio, representam mais uma falha nos mercados.
Os caras erraram grotescamente diante da crise. Foram cúmplices, partícipes, atores em todo o castelo de cartas que desabou. Jogaram juntos na chantagem ao Brasil que ocorreu entre 1995 e 2004. "Façam o dever de casa ou a confiança do investidor estrangeiro desaparecerá e o país vai quebrar."
Retomo pela milésima oitava vez esse estandarte: um país como o Brasil não pode se colocar sujeito às avaliações desse tipo de gente. Dependente desse tipo de percepção. Submisso aos fluxos de capital externo, mesmo que sejam IED, para financiar seu crescimento. Por digo, repito, recomendo e reitero: não podemos brincar com a conta corrente nem com a dívida interna. Uma nação como a brasileira não pode se submeter passivamente às vontades dos credores da dívida. Pior ainda se assimilar mentalmente as demandas de nossos credores como sendo o nosso interesse. Esse é um passado trágico, e recente, que esperamos não mais retorne.
Parágrafo de uma frase só: a identidade contábil que coloca que o déficit em conta corrente representa poupança externa que complementaria nossa baixa taxa de investimentos, decorrente da baixa poupança interna, é uma falácia perigosíssima.
Enfim, volto. Acho divertidíssimos os argumentos desses pobres analistas das agências de risco. Realmente é engraçado ver a pose de seriedade, de juízes da sustentabilidade econômica, da lógica supostamente racional que os rege. E aí me recordo que os números mais básicos desmentem as classificações deles. Recordo-me que eles erraram para tudo quanto é lado. Desde a crise do México, até o leste asiático, até a Russia, a Argentina, a bolha da internet, os caras já têm um histórico de chorar. É curioso como continuam com certo ibope.
Esse post ficou meio bagunçado, talvez esculhambado. Mas o recado tá mais ou menos claro, penso. Promoveram o Brasil? Que bom. Precisamos desses caras? Não. Eles sabem do que falam? Não. Eles têm algum compromisso com o desenvolvimento da nação? Não. A quem eles respondem? Aos credores da dívida brasileira e, de maneira geral, aos centros das finanças globais. Eles têm algum poder? Infelizmente, ainda têm. Portanto, ruim com eles, pior sem eles. Mas não vale muito ibope não. Aliás o ibope não vale nada.
Esse post faz questão de singularizar a empresa de Rating do Paulo Rabello de Castro, um cara que venho aprendendo a admirar pela inteligência e coragem de se contrapor ao lugar-comum que prevalece entre os analistas de mercado. Aliás, estou devendo um post sobre esse tipo de criatura. Em geral, são medíocres. O comportamento de manada e, mais importante, as idéias de manada prevalecem. Mas há alguns muito bons. Para debater com eles, é preciso estofo. Voltarei ao tema.
Sim, há um pouco de critério. Mas são bem maleáveis. Por exemplo, nosso déficit, nossa dívida pública e a dívida externa estão absolutamente sob controle. Não há o menor risco de qualquer problema. Então porque essa demora toda em promover o Brasil?
Uma rápida olhada numa hipotética tabela dos países com suas classificações de risco ao lado dos indicadores de déficit e dívida já demonstraria toda a falácia dos critérios das agências. O Brasil tem indicadores melhores do que boa parte dos países do G7, senão de todos. Nossa posição é muito mais sólida do que a de diversos países que têm o glorioso grau de investimento. Talvez uns 5 países apenas atualmente estejam em melhor situação. E qual a classificação do Reino Unido? Da Espanha? Da Grécia? Da Irlanda? Do México? Da África do Sul? Turquia? Colômbia? Comparem as classificações desses países com a do Brasil. Depois vejam os números. Acrescentem a isso as perspectivas do pré-sal, do crescimento do crédito e do mercado interno. Enfim...
Na verdade, o próprio mercado financeiro internacional opera cheio de preconceitos. Dêem uma olha na tabela da última página do Economist, que assinala os spreads dos títulos de 10 anos. O Brasil vem diminuindo o custo de captação, mas ainda há um delta injustificável. Países que atualmente estão numa situação muito chata ainda se financiam mais barato do que nós.
Mas voltando aos analistas das agências de risco, coitados, vivem dessas classificações politicamente enviesadas e às vezes arriscam recomendações por "reformas estruturais". Antes eram clamores por reformas diariamente. Parece que hoje avançamos, a coisa tá mais comedida, mais discreta. Afinal, os caras estão mais humildes, após a enormidade de asneiras que fizeram. E hoje há um entendimento geral de que não há receita de bolo para o desenvolvimento. Mas a postura de alguns desses analistas de risco continua sendo de uma cretinice total.
Bom, avanço na crítica ressaltando que as agências são remuneradas pelos emissores de títulos, não pelos investidores, por exemplo. Há um claro conflito de interesses. Não sei bem a quantas andam as propostas de regulação dessas criaturas. Vou verificar. Recordo ainda que as agências de risco formam um oligopólio, representam mais uma falha nos mercados.
Os caras erraram grotescamente diante da crise. Foram cúmplices, partícipes, atores em todo o castelo de cartas que desabou. Jogaram juntos na chantagem ao Brasil que ocorreu entre 1995 e 2004. "Façam o dever de casa ou a confiança do investidor estrangeiro desaparecerá e o país vai quebrar."
Retomo pela milésima oitava vez esse estandarte: um país como o Brasil não pode se colocar sujeito às avaliações desse tipo de gente. Dependente desse tipo de percepção. Submisso aos fluxos de capital externo, mesmo que sejam IED, para financiar seu crescimento. Por digo, repito, recomendo e reitero: não podemos brincar com a conta corrente nem com a dívida interna. Uma nação como a brasileira não pode se submeter passivamente às vontades dos credores da dívida. Pior ainda se assimilar mentalmente as demandas de nossos credores como sendo o nosso interesse. Esse é um passado trágico, e recente, que esperamos não mais retorne.
Parágrafo de uma frase só: a identidade contábil que coloca que o déficit em conta corrente representa poupança externa que complementaria nossa baixa taxa de investimentos, decorrente da baixa poupança interna, é uma falácia perigosíssima.
Enfim, volto. Acho divertidíssimos os argumentos desses pobres analistas das agências de risco. Realmente é engraçado ver a pose de seriedade, de juízes da sustentabilidade econômica, da lógica supostamente racional que os rege. E aí me recordo que os números mais básicos desmentem as classificações deles. Recordo-me que eles erraram para tudo quanto é lado. Desde a crise do México, até o leste asiático, até a Russia, a Argentina, a bolha da internet, os caras já têm um histórico de chorar. É curioso como continuam com certo ibope.
Esse post ficou meio bagunçado, talvez esculhambado. Mas o recado tá mais ou menos claro, penso. Promoveram o Brasil? Que bom. Precisamos desses caras? Não. Eles sabem do que falam? Não. Eles têm algum compromisso com o desenvolvimento da nação? Não. A quem eles respondem? Aos credores da dívida brasileira e, de maneira geral, aos centros das finanças globais. Eles têm algum poder? Infelizmente, ainda têm. Portanto, ruim com eles, pior sem eles. Mas não vale muito ibope não. Aliás o ibope não vale nada.
Esse post faz questão de singularizar a empresa de Rating do Paulo Rabello de Castro, um cara que venho aprendendo a admirar pela inteligência e coragem de se contrapor ao lugar-comum que prevalece entre os analistas de mercado. Aliás, estou devendo um post sobre esse tipo de criatura. Em geral, são medíocres. O comportamento de manada e, mais importante, as idéias de manada prevalecem. Mas há alguns muito bons. Para debater com eles, é preciso estofo. Voltarei ao tema.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Mais
No Caderno Mais da Folha de hoje, há um artigo de um diretor da Escola de Economia da FGV-SP fazendo uma espécie de defesa (achei meio fraca, por sinal) de sua área de especialização, que tem sido violentamente criticada após a crise. Ele menciona que na semana passada o mesmo Caderno publicou artigos diversos sobre o tema. Vou buscar, já que estava longe e não li nada.
Porém gostaria de destacar e subscrever a notinha abaixo, no mesmo Caderno Mais, de nossa amiga Sandra Corveloni. Cabíria, aliás, é o nome de um cine-cubículo, talvez a menor sala de cinema do país, que fica aqui logo ao lado de casa. De graça. Maravilha.
Um dia faço um post sobre o filme.
Biblioteca Básica
As Noites de Cabíria
SANDRA CORVELONI
ESPECIAL PARA A FOLHA
Eu me lembro exatamente do dia em que vi "As Noites de Cabíria" [de Federico Fellini, 1957] e da sensação que tomou conta do meu corpo e da minha mente durante e após o filme.
Tanta poesia, humanidade, dor e, apesar de tudo, amor pela vida, música. A direção de Fellini é genial e Giulietta Masina [que interpreta Cabíria] é simplesmente magnífica. Não me esqueço do olhar dela; é uma mulher e é, ao mesmo tempo, a cidade [Roma].
Esse filme é como um banho espiritual de beleza, de metáfora, de imagens.
--------------------------------------------------------------------------------
SANDRA CORVELONI , vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes em 2008 (pelo filme "Linha de Passe"), está no elenco da peça "O Livro dos Monstros Guardados", em cartaz no teatro Imprensa, em São Paulo.
Porém gostaria de destacar e subscrever a notinha abaixo, no mesmo Caderno Mais, de nossa amiga Sandra Corveloni. Cabíria, aliás, é o nome de um cine-cubículo, talvez a menor sala de cinema do país, que fica aqui logo ao lado de casa. De graça. Maravilha.
Um dia faço um post sobre o filme.
Biblioteca Básica
As Noites de Cabíria
SANDRA CORVELONI
ESPECIAL PARA A FOLHA
Eu me lembro exatamente do dia em que vi "As Noites de Cabíria" [de Federico Fellini, 1957] e da sensação que tomou conta do meu corpo e da minha mente durante e após o filme.
Tanta poesia, humanidade, dor e, apesar de tudo, amor pela vida, música. A direção de Fellini é genial e Giulietta Masina [que interpreta Cabíria] é simplesmente magnífica. Não me esqueço do olhar dela; é uma mulher e é, ao mesmo tempo, a cidade [Roma].
Esse filme é como um banho espiritual de beleza, de metáfora, de imagens.
--------------------------------------------------------------------------------
SANDRA CORVELONI , vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes em 2008 (pelo filme "Linha de Passe"), está no elenco da peça "O Livro dos Monstros Guardados", em cartaz no teatro Imprensa, em São Paulo.
domingo, 20 de setembro de 2009
Na Mosca
No Baseline Scenario, críticas agudas ao discurso de segunda-feira em NY e, de maneira geral, às propostas do Governo Obama com relação ao sistema financeiro.
Comentários ácidos sobre o não comparecimento dos CEOs de todos os grandes bancos norte-americanos.
E a descrição de uma jogada muito esperta do Barclays no Reino Unido. Estão transferindo ativos podres para um agente ligado ao banco, mas que não é banco. Portanto, está fora do alcance da regulação. Há ainda detalhes contábeis muito interessantes.
O Baseline é um must read.
Comentários ácidos sobre o não comparecimento dos CEOs de todos os grandes bancos norte-americanos.
E a descrição de uma jogada muito esperta do Barclays no Reino Unido. Estão transferindo ativos podres para um agente ligado ao banco, mas que não é banco. Portanto, está fora do alcance da regulação. Há ainda detalhes contábeis muito interessantes.
O Baseline é um must read.
sábado, 19 de setembro de 2009
Adendo ONU
Lendo com calma o discurso todo do Pres. da Assembléia-Geral, sou obrigado a dizer que não é tão bom assim. Bem intencionado, mas preso a uma série de amarras. A burocracia da ONU, certa retórica, temas e uma linguagem recorrente.
Melhor ler com calma antes de postar.
Melhor ler com calma antes de postar.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Entrevista do Presidente Lula
A entrevista do Presidente Lula, publicada hoje no Valor, me deixou muito feliz. É um grande homem, com uma grande história, que deixará um grande legado. Um democrata, um conciliador, um homem com visão de Estado e de país. Verdadeiro líder, inteligente ao extremo, carismático.
É possível lhe fazer várias críticas mais pessoais, eu sei, eu mesmo tenho algumas. Seu governo teve, e tem, como não poderia deixar de ser, erros maiores e menores. Mas é difícil questionar o fato de que deixará um Brasil muito melhor do que aquele que encontrou. Em todos os aspectos. Muito longe ainda do ideal, muito longe, distante, a léguas de nosso potencial. Mas melhor, mais democrático, mais humano, com menos pobreza, mais oportunidades, um país otimista, sonhador, lutador.
Há muito o que fazer. Muito. Mas o Presidente Lula, construindo sobre algumas bases de FHC, que por seu turno herdou um quadro macroeconômico de primeiríssima de Itamar, fez com que avançássemos.
Outro dia elaboro melhor sobre o tema, vamos aguardar o fim do mandato. Aqui, o link para a entrevista completa, sem a edição do Valor.
PS: O sitio www.info.planalto.gov.br proporciona as íntegras de todas as entrevistas e discursos do Presidente. Mais para frente comentarei sobre o livro, que pretendo folhear, quem sabe até ler, do funcionário da família Marinho que apresenta sua leitura particular das palavras do Presidente Lula.
PS2: Adendo posterior ao post original: sugiro a leitura do discurso na cerimônia de aniversário de 45 anos do IPEA. Transborda otimismo.
É possível lhe fazer várias críticas mais pessoais, eu sei, eu mesmo tenho algumas. Seu governo teve, e tem, como não poderia deixar de ser, erros maiores e menores. Mas é difícil questionar o fato de que deixará um Brasil muito melhor do que aquele que encontrou. Em todos os aspectos. Muito longe ainda do ideal, muito longe, distante, a léguas de nosso potencial. Mas melhor, mais democrático, mais humano, com menos pobreza, mais oportunidades, um país otimista, sonhador, lutador.
Há muito o que fazer. Muito. Mas o Presidente Lula, construindo sobre algumas bases de FHC, que por seu turno herdou um quadro macroeconômico de primeiríssima de Itamar, fez com que avançássemos.
Outro dia elaboro melhor sobre o tema, vamos aguardar o fim do mandato. Aqui, o link para a entrevista completa, sem a edição do Valor.
PS: O sitio www.info.planalto.gov.br proporciona as íntegras de todas as entrevistas e discursos do Presidente. Mais para frente comentarei sobre o livro, que pretendo folhear, quem sabe até ler, do funcionário da família Marinho que apresenta sua leitura particular das palavras do Presidente Lula.
PS2: Adendo posterior ao post original: sugiro a leitura do discurso na cerimônia de aniversário de 45 anos do IPEA. Transborda otimismo.
Documentos do sistema ONU
A ONU não funciona bem, sabemos disso. Na hora de passar das palavras para a ação, a coisa complica. Há um evidente problema de representatividade e legimitidade do Conselho de Segurança. Que na maior parte das vezes também é ineficiente dado o direito de veto. Mas sem ela, estaríamos muito piores. Portanto, tudo contra a ONU, mas viva a ONU!
Você encontra aqui o relatório anual da UNCTAD, sempre uma respeitável peça analítica.
Aqui temos o último discurso do Padre Miguel D´Escoto como Presidente da Assembléia-Geral da ONU. Eu já disse aqui que simpatizo com ele. É um homem de bem. Suas palavras merecem ser lidas.
Por fim, segue o relatório da Comissão da ONU que investigou os conflitos na Palestina ao final do ano, logo antes das eleições em Israel.
Você encontra aqui o relatório anual da UNCTAD, sempre uma respeitável peça analítica.
Aqui temos o último discurso do Padre Miguel D´Escoto como Presidente da Assembléia-Geral da ONU. Eu já disse aqui que simpatizo com ele. É um homem de bem. Suas palavras merecem ser lidas.
Por fim, segue o relatório da Comissão da ONU que investigou os conflitos na Palestina ao final do ano, logo antes das eleições em Israel.
Marcadores:
Crise,
economia política,
ONU,
política externa
Ausência e Retorno
Estive fora por alguns dias, sem condições de blogar. Voltando lentamente, ainda com fuso horário estragado. Muita coisa interessante aconteceu nesses últimos dias.
Nosso amigo Obama voltou das férias e fez alguns discursos para fortalecer suas propostas no Congresso. São 3 as principais: sobre o sistema de saúde, sobre mudança do clima e sobre regulação no sistema financeiro. As 3 estão com problemas para aprovação e sofrem uma campanha de desinformação tremenda. Obama falou sobre a primeira e fez um discurso, em NY, para a nata de Wall Street, no dia em que completamos 1 ano da quebra do Lehman.
Aliás, o Financial Times publicou recentemente artigos do Niall Ferguson e do Martin Wolf muito bons. O texto do Niall, um jovem conservador, muito inteligente, autor de obras de fôlego sobre as finanças e a política mundial, questiona o fato de que deixar o Lehman quebrar teria sido um erro. Para ele, a bancarrota do gigante de Wall Street, ao assombrar os EUA e o mundo, forneceu suporte político para que os governos fizessem intervenções maciças para salvar o resto do sistema financeiro. Otherwise, os congressistas e a opinião pública e publicada não aceitariam pacotes de resgate e medidas tão ousadas. O artigo está aqui.
Já Martin Wolf prossegue no esforço generalizado das pessoas de bom senso em colocar um pouco de cautela nos otimistas de sempre, nos que querem sair na frente em novos booms especulativos, naqueles que desejam retornar ao "business as usual" como se nada tivesse acontecido. Leia aqui. Wolf não é um radical anti-americano nem anti-mercado, sabemos disso, basta reparar no seu posto e, por exemplo, em como ele subscreveu a discutível tese do "global savings glut" como uma das principais causas da crise.
Bom, é isso por enquanto. Volto em breve.
Nosso amigo Obama voltou das férias e fez alguns discursos para fortalecer suas propostas no Congresso. São 3 as principais: sobre o sistema de saúde, sobre mudança do clima e sobre regulação no sistema financeiro. As 3 estão com problemas para aprovação e sofrem uma campanha de desinformação tremenda. Obama falou sobre a primeira e fez um discurso, em NY, para a nata de Wall Street, no dia em que completamos 1 ano da quebra do Lehman.
Aliás, o Financial Times publicou recentemente artigos do Niall Ferguson e do Martin Wolf muito bons. O texto do Niall, um jovem conservador, muito inteligente, autor de obras de fôlego sobre as finanças e a política mundial, questiona o fato de que deixar o Lehman quebrar teria sido um erro. Para ele, a bancarrota do gigante de Wall Street, ao assombrar os EUA e o mundo, forneceu suporte político para que os governos fizessem intervenções maciças para salvar o resto do sistema financeiro. Otherwise, os congressistas e a opinião pública e publicada não aceitariam pacotes de resgate e medidas tão ousadas. O artigo está aqui.
Já Martin Wolf prossegue no esforço generalizado das pessoas de bom senso em colocar um pouco de cautela nos otimistas de sempre, nos que querem sair na frente em novos booms especulativos, naqueles que desejam retornar ao "business as usual" como se nada tivesse acontecido. Leia aqui. Wolf não é um radical anti-americano nem anti-mercado, sabemos disso, basta reparar no seu posto e, por exemplo, em como ele subscreveu a discutível tese do "global savings glut" como uma das principais causas da crise.
Bom, é isso por enquanto. Volto em breve.
Assinar:
Postagens (Atom)