domingo, 10 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

Santa ingenuidade

No post abaixo, manifestei a esperança de que no segundo turno pudessem ser discutidos temas mais substantivos, propostas, projetos, rumos mais estruturais do país. Mencionei as contas externas, cheguei a citar a PNAD, tive devaneios com pacto federativo e estrutura tributária, delirei com a reforma política.

Santa ingenuidade. Pelo que vi até agora, teremos um apelo barato a emoções, à mistura de política com religião, boatos, o denuncismo, comparações enviesadas entre governos ignorando um sentido de continuidade na democracia da Nova República, enfim, é guerra, é o duelo de versões, a superficialidade, uma espécie de vale-tudo maquiado pela marquetagem.

O blog provavelmente retornará, portanto, a seu habitual silêncio sobre as idas e vindas da batalha e confortavelmente, confesso, procurará discutir um pouco mais da desordem econômica e política internacional, mostrar um pouco da China que me fascina, e às vezes assusta, além de pitadas de respiros musicais, cinematográficos e etcéteras.

Para uns, o muro é tucanagem e tudo mais que se associa ao termo. Para outros, o muro é condescender com ameaças à democracia e à familia brasileira, ai ai ai...

A meus poucos e valorosos leitores, uma poesia para refrescar a alma.

Rudyard Kipling

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!



Tradução de Guilherme de Almeida

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Clima chinês

Nesses últimos dias, e em particular hoje, o clima está muito agradável em Pequim, uma brisa gostosa vem de longe e areja corpos, mentes e almas. A previsão para amanhã é de muito sol e poucas nuvens, 25 graus sem possibilidade de chuva. Bom para passear, ótimo para renovar as energias. É provável, no entanto, que as coisas piorem mais pra frente. Receio que um longo inverno se aproxime.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Economist: a little funny in the head

He went a little funny in the head. O título do blog veio de uma cena do Dr. Strangelove, ou Dr. Fantástico, clássico de Kubrick dos anos 60. Já a postei duas vezes, aqui e aqui. Recuso-me a comentar a respeito da obra, uma de minhas preferidas. Se não viu, apenas recomendo que vá correndo.

Estava eu hoje num aprazível vôo Shenzhen-Beijing (3 horas), cercado de nossos amigos chineses, o único ocidental no trajeto, lendo a digníssima The Economist. Essa última, da capa com reportagem sobre as razões pelas quais acreditam que o crescimento da Índia superará em breve o da China. A propósito, reportagem interessante, mas limitada em sua análise e, por vários motivos, creio que meio empolgadinha demais. Há também matérias sobre o legado de Lula, uma muito boa sobre a relação da China com "valores universais" y otras cositas más, como uma análise de algumas contradições da Guerra da Criméia, no século XIX. É fácil discordar dos editorialistas da Economist, difícil é abandonar sua leitura. Coisa fina.

Bom, enfim, vamos lá. Uma matéria que chamou minha atenção (não sei se o link está aberto para não assinantes). "Gunning for Trident: The coalition government is divided over whether and to what extent Britain should remain a nuclear power"

Pois é. Os ingleses estão quebrados. Cortam custos. Despesas. Realocam. Ajustam. Choques de gestão. Apequenam-se. Coisas da vida. Nessas idas e vindas, que chato, os gastos com "defesa" são sempre um alvo. Sacaram a ironia? Pois é. O tal do Trident é um míssil nuclear, desenhado pelos norte-americanos, feito para submarinos. Parece que o equipamento atualmente em uso terá que ser substituído em 2020. Custo: US$ 32 bilhões. Daí vêm os questionamentos: vale a pena? o país precisa dessa capacidade nuclear? para que mesmo? e a qual custo?

O artigo discute daqui, argumenta dali, contextualiza brevemente as posições políticas internas e então passa a discutir maneiras de manter a mesma capacidade de dissuadir os eventuais inimigos a um custo menor. Dissuadir = preservar o poder da coroa britânica, seu prestígio, sua força política, com base na ameaça de aniquilação instantânea do inimigo da vez. São citados a Rússia, a China e divaga-se sobre outros países em busca de armamento nuclear que seriam hostis ao Ocidente.

E foi aí que me lembrei do Dr. Strangelove. Inevitável. A racionalidade, a técnica, a geopolítica, o cálculo financeiro, as variáveis políticas internas, tudo sob um contexto maior, não questionado, do equilíbrio do terror, da ameça de morte, da chantagem nuclear. Sei que o Economist não é exatamente um veículo para mudar o mundo. Idealismo não é a praia deles. Mas a naturalidade com que discutiram o assunto, e de forma breve e quase passageira, quase um comentário rápido, tomou conta de meus pensamentos e resolvi compartilhar mais um pouco desse sentimento de espanto, e certo receio, que vai tomando conta de mim conforme as disputas na política e na economia internacional vão se aprofundando e tornando-se mais complexas, intrincadas, sem solução aparente. Sabemos como, historicamente, essas disputas se resolvem. Na porrada. Quando os poetas se calam, cessa a música e jorra o sangue dos inocentes.

Seguem abaixo duas outras cenas do Dr. Strangelove. The Doomsday Machine; Mein Fuhrer, I can walk! Para pensar...



PS: Leitores mais atentos poderão recordar posts, como o 2o citado lá em cima, que é seguido por um debate Samuel x Ricupero sobre o TNP, nos quais defendo que o Brasil não assine o protocolo adicional do TNP. Contradição minha? Incoerência do blog? Pode ser. Em política, certezas demais são perigosas. É preciso dar chance ao diálogo. E mudar de opinião, se for o caso. Sei lá.

Mundo, mundo, vasto mundo. Mais vasto é meu coração.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um trem para as estrelas

O blog tá muito pesado, posts em sequência sobre política interna, política externa, economia & finanças, guerra e paz, entre partidos, entre países. Chove em Hong Kong e estou trancado no hotel dando um tempo para quem sabe passear mais tarde.

Num trem para as estrelas, depois dos navios negreiros, outras correntezas. Cazuza & Gil, cenas do filme, que recomendo.

São 7 horas da manhã
Vejo o Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem

Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas

Estranho o teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Com os braços sempre abertos
Mas sem protejer ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois

Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas

Dois Pesos...

Maria Rita Kehl, no Estadão (parece que foi demitida por causa do artigo)

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Comparações perigosas

Outro dia li num artigo interessante, que não me lembro, que o leste asiático atual lembra, de alguma forma, a Europa antes da I Guerra Mundial. Já havia escrito sobre isso e fiquei satisfeito em ver a comparação feita por alguém mais renomado (mas não me lembro quem).

Nos últimos dias, a respeito da bagunça atual no sistema monetário internacional, têm crescido as comparações com o período entre-guerras da década de 1930. Também já havia escrito sobre isso, embora pense que a comparação é válida a título de ilustração, pois hoje as coisas estão bem diferentes.

Isso vale para o leste asiático e para o sistema monetário. No 1o caso, creio que a situação política ainda não é tão delicada, embora o armamento hoje seja infinitamente mais destrutivo. O fato positivo é que os nacionalismos não são tão radicais quanto no passado, há uma integração cultural mais forte, pontes, contatos diversos. No 2o caso, talvez o contexto nos dias que correm seja pior, embora também haja algum chão antes da coisa degringolar de vez. E, vale ressaltar, o "armamento" financeiro hoje é também muito mais destrutivo: enorme liquidez, fluxos de capitais descontrolados sem vínculo com o sistema produtivo, sistemas informatizados, alta alavancagem generalizada, competição entre polos monetários regionais com modelos político-sociais e estruturas produtivas mais fragmentadas.

O texto está uma confusão ambiciosa, eu sei, tentarei elaborar mais pra frente. Porém, fica o enésimo alerta: o cenário internacional se deteriora, não há dúvida disso. Vivemos em um mundo que apresenta contornos bastante perigosos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Palpite

Pedem-me um palpite, então vamos lá. Dilma segue favoritíssima e deve levar com alguma folga, do tipo 55% a 45%. A democracia não estará ameaçada, o país seguirá avançando e a oposição terá quatro anos para se renovar e apresentar um novo discurso que atualize seu programa para 2014.

E aproveitando que supostamente estou no encontro do Ocidente com o Oriente, arrisco alguma filosofia política barata.

Há riscos para Dilma, que nunca foi testada nas urnas: na política, como na vida, há muito mais de paixão do que de razão. E a paixão, como sabemos, tem idas e vindas, é surpreendente, afortunada ou traiçoeira. A distância entre o amor e o ódio pode se mostrar pequena, a depender das circunstâncias.

E no caso de argumentos mais racionais, os quais não vou enumerar aqui, há diversas variáveis novas nesse jogo do segundo turno. Portanto, é possível arriscar, mas não asseguro nada. Garanto apenas que a democracia brasileira sairá mais forte independente de quem vencer as eleições. Não se brinca com a soberania popular. Os perdedores que se reciclem para 2014.

Hong Kong

A reportagem encontra-se em Hong Kong onde, diz-se, o Ocidente encontra o Oriente. Pensei que isso fosse em Istambul, mas tudo bem.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Para Marina

In Natura.

Segundo turno

Segundo turno nas eleições presidenciais. Marina Silva, adorada Marina de tempos atrás, está aí com quase 20 milhões de votos e deu esse presente para a democracia brasileira, a oportunidade de aprofundarmos a discussão, forçar os candidatos a debaterem com mais responsabilidade o Brasil que desejamos e o que farão para alcançá-lo. Aqui, aqui, aqui, ali, acolá, acá, seis posts em meados de agosto de 2009 sobre a importância da candidatura de nossa Rainha Marina, como a chamei no último desses seis posts. O blog antecipa tendências, heheh, é um oráculo da política nacional ho ho ho.

Da parte do Serra, espero que deixe de lado o vitimismo sigiloso, as conversas sobre Farc, exageros sobre o Irã, que ignore a política do medo defendida por parte de seus aliados, com direito a vídeos apócrifos, boatos, temas como aborto, a suposta ameaça à democracia, às liberdades e aos direitos individuais. Essas supostas ameaças não existem e dificultam a discussão dos rumos do país, desviam do assunto. O Governo Lula foi bem sucedido, Dilma é uma mulher com uma grande história, por favor gostaria que Serra se limitasse a debater com ela os rumos do país em 2011-2014. E também como espera governar sem ter maioria no Congresso (já sabemos, o PMDB vira a casaca rapidinho, mas a qual preço?).

Da parte de Dilma, espero que não fique olhando para o passado, mas sim para o futuro. Nem tudo começou em 2003, nem tudo voltará a 1995 caso Serra seja eleito. O mundo mudou, o país mudou, é tempo de olhar para frente. Penso que ela deveria aprofundar-se nos desafios do Brasil de 2010 sem, é claro, deixar de destacar avanços trazidos pelo Governo Lula, mas apontando quais rumos manterá e o que alterará. Pois é fato que o Brasil de Dilma não será o Brasil de Lula. E o mundo de Dilma não será o mundo de Lula. Venho alertando: o cenário internacional se deteriora a olhos vistos. Dilma não tem experiência na chefia do executivo e terá que lidar com muitas cascas de banana e armadilhas, da oposição, mas também de seus próprios aliados (aliados? ou sanguesugas?).

Da parte de Marina, espero que não fique em cima do muro. Barganhe e dê apoio ao candidato que assumir o compromisso mais firme com sua agenda ambiental.

Segue lista não exaustiva, e sem ordem de prioridade, de temas/questões para os dois:

--> Os dados da PNAD 2009, uma enorme fotografia sobre o Brasil que oferece diversas pistas de coisas que devem ser melhoradas como, por exemplo, o acesso a saneamento básico, educação, desigualdades sociais e regionais diversas.

--> O financiamento da economia brasileira. O déficit externo, o nível de juros, o câmbio, a relação entre Estado e Mercado. Creio que uma medida simples, que já seria extremamente positiva, seria gravar as reuniões do COPOM e tornar suas atas públicas em 2 anos. Isso já faria com que os diretores do BC fossem mais cautelosos. Outra medida importante seria jogar mais areia, muita areia, na ciranda dos recursos externos que entram para ganhar na dobradinha câmbio-juros. Isso não se anuncia assim, mas pode-se comprometer de maneira mais firme com a interrupção desse processo vicioso.

--> O financiamento público eleitoral, a reforma política. As relações com o Congresso. Em que bases serão feitas as coalizões e como pretendem torná-la mais propositiva e menos distributiva, se é que me entendem.

--> A estrutura tributária regressiva, o pacto federativo.

--> Esses dois itens acima são altamente problemáticos. Todos reconhecem que algo deve ser feito, mas todos têm suas próprias reformas, o que impede que a questão saia do lugar.

--> A justiça brasileira. O que acham do CNJ, o papel do STF, a nomeação de juízes para os tribunais superiores.

--> A estrutura de poder, os gastos, as responsabilidades para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Estamos repetindo os erros do Pan. Dinheiro público, lucros privados.

--> A questão ambiental, o desmatamento na Amazônia, mas também no cerrado, a prevalência de automóveis, a abertura de novas rodovias, os incêndios que todo ano devastam os parques nacionais (a Chapada e os Parques Nacionais do DF foram detonados de novo esse ano).

--> O financiamento das atividades culturais, a relação entre cultura e educação. Vide Gil e Caetano abaixo.

--> Os impactos do aumento da extração de minérios e combustíveis sobre o meio-ambiente.

--> Os dois deveriam assumir compromissos de que, uma vez na oposição, não se comportarão como o PT em 1995-2002 e o PSDB-DEM em 2003-2010. Isso é fundamental.

Ficamos hoje com mais um vídeo da Aquarela do Brasil, Gil & Caetano, Caetano & Gil, viva a Bahia, viva o Brasil.

domingo, 3 de outubro de 2010

Nem tudo são flores...

...no Brasil em 3 de outubro de 2010. É evidente que avançamos. É evidente que em comparação com a maior parte dos países do mundo, estamos bem na foto. Mas há muitos problemas, há uma longa estrada, passo a passo, com calma, respiração pausada e prolongada, ponderação, bom senso. Os dados da PNAD 2009, recém divulgados, nos dão uma série de pistas. E as questões da estrutura política, dos sistemas judiciário e eleitoral, do financiamento da economia brasileira, da prevalência de um setor rentista, da violência urbana, da (falta de) convivência social, da educação, são todas de fundamental importância.

Sim, brindemos à democracia brasileira, à melhoria das condições de vida da população, ao aumento do emprego e da renda, à queda da desigualdade, à importância de um Brasil presente nos grandes temas da política internacional. Mas não nos percamos em perigosas euforias. Por ora, cansado após um longo e bem sucedido dia, fico com uma frase de hoje no jornal que de tão pitoresca e cômica parece coisa de frasista, de humorista, mas é uma constatação de um cientista político, no microcosmo da realidade cotidiana, na qual nossa mais alta Corte divaga por longas horas em linguagem hermética para concretizar, num labirinto de interpretações, o nada (ficha limpa vale ou não vale agora?)ou mesmo a negação do que havia sido aprovado pelo Poder Legislativo no ano passado (exigência de título eleitoral, mas qual a razão de terem aprovado isso?).

O ponto é: faltando dias para a eleição? Por que tanta demora? Quais os caminhos, ou descaminhos, da piada pronta?

Apesar de tudo, avançamos. Mas há muito o que fazer. Bom, enfim, fiquei na obviedade. Até amanhã.

"O Brasil é um país tão excêntrico que, a três dias da eleição, ninguém sabia como votar, e, hoje, não sabemos direito em quem podemos votar."
DO CIENTISTA POLÍTICO RUBENS FIGUEIREDO, analisando a reviravolta quanto à documentação necessária para votar e a indefinição sobre os atingidos pela Lei da Ficha Limpa.

sábado, 2 de outubro de 2010

Aproximam-se as eleições

Oito horas antes do início das eleições na China, é chegada a hora de dormir para um longo dia que se aproxima. Não resisto e coloco mais dois vídeos celebrando o Brasil por meio dois grandes Joões, Joãos, Gilberto e Bosco, obrigado caros mestres, sua obra, sua história, nossas vidas. De troco, Novos Baianos, o Pandeiro, o Acarajé, iôiô e iáiá, batucada, iluminai os terreiros que nós queremos sambar.



Faz sol e calor no sul da China

Em cerca de 14 horas, começam as eleições presidenciais brasileiras no Sul da China, de onde a reportagem estará transmitindo diretamente.

Abre a cortina do passado.

Ouve essas fontes murmurantes.


Para comemorar, Ary Barroso, Aquarela do Brasil, talvez nossa mais bela música, em algumas versões: