sábado, 12 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
O Estado de todas as culpas
Aos meus três leitores, comento que tenho escrito aqui, de uma maneira ou de outra, geralmente falando sobre crise, copom, câmbio, mídia, Sarney, Copa e etcétera, que há falhas muito graves na maneira como determinados debates têm sido conduzidos no país. São simplificações, visões rasteiras, PSDB x PT, ética x corrupção, racionalidade do mercado x politicagem no setor público, pusilânime com Bolívia x agressivo contra EUA, enfim, distorções presentes nos mais diversos temas que procuram encaixar coisas complexas em caixinhas bem x mal. Tem bastante gente por aí cheia de certezas. Eu prefiro ficar com minhas perguntas.
No excelente caderno Aliás do Estadão, no domingo último, temos um artigo de um sociólogo, professor em Juiz de Fora, Jessé de Souza, sob o título "O Estado de todas as culpas".
Vou me limitar, agora, a transcrever o artigo. Estava jogando bola e estou sem condições de comentá-lo. Mas recomendo vivamente a leitura. Lógico que teria observações a alguns trechos, é tudo muito polêmico, mas o raciocínio tem a ver com muita coisa que escrevo, sistematizou alguns pontos que talvez eu já tenha assinalado, enfim, foi mesmo uma grata surpresa ler esse texto e vou procurar mais trabalhos de nosso amigo Jessé...
O Estado de todas as culpas
Ele é só associado à ‘politicagem’. E o mercado, à ‘racionalidade’: eis a trava do debate público no Brasil
Jessé Souza*
O debate público e político brasileiro, há algumas décadas, é travado sob a forma de um suposto conflito entre mercado e Estado. A atual discussão sobre o petróleo do assim chamado pré-sal apenas o confirma. Assim sendo, se quisermos compreender efetivamente o que está em jogo nesse debate conjuntural sobre o que fazer com o dinheiro do petróleo recém-descoberto - assim como compreender os debates conjunturais do passado recente e dos que ainda vão acontecer no futuro próximo - temos que focar nossa capacidade compreensiva na reconstrução da estrutura invisível presente em todas essas situações conjunturais passageiras. O tema do debate muda ao sabor das circunstâncias. Sua "estrutura profunda", no entanto, permanece a mesma. Qual é a estrutura profunda nunca tematizada enquanto tal na mídia? O Estado é sempre suspeito de "politicagem" e de "aparelhamento" por indicações políticas e o mercado é definido como instância "técnica", ou seja, reflexo da "racionalidade pura" e do "cálculo técnico". Um é a esfera do "privilégio inconfessável" e o outro o reflexo da "razão técnica" supostamente no interesse de todos. É isso que explica o foco constante e diário na "corrupção política" como a lembrar ao público onde está o mal e onde está o bem. Como tudo no mundo social, essa é uma realidade "construída", fruto de uma leitura seletiva e interessada do mundo.
Como a recente crise mundial mostrou sobejamente (já nos esquecemos dela?), a corrupção é endêmica tanto no mercado quanto no Estado em qualquer latitude do globo. A mitigação da corrupção em qualquer esfera da vida ocorre quando os mecanismos de controle ganham eficiência. A leitura seletiva do Estado como ineficiente e corrupto e do mercado como pura virtude esconde a ambiguidade constitutiva dessas duas instituições que podem servir ao bem ou ao mal conforme seu uso. Por que a "dramatização" cotidiana mil vezes repetida de justamente essa visão distorcida do mundo? A meu ver porque ela é o núcleo mesmo da violência simbólica - aquele tipo de violência que não "aparece" como violência - que torna possível a manutenção e a reprodução continuada no tempo da sociedade complexa mais desigual e injusta do planeta.
O mundo social não é perceptível a olho nu. Pode-se ver a pobreza e a desigualdade nas ruas e não se perceber suas causas. O brasileiro das ruas aprendeu a vincular as mazelas sociais do Brasil à corrupção política. A tese do Estado corrupto - ou a tese do "patrimonialismo" na sua versão erudita igualmente conservadora e frágil - mata dois coelhos com uma mesma cajadada. Como o conflito que ela cria é falso de fio a pavio - na realidade, mercado e Estado são interdependentes e igualmente ambivalentes -, ela ajuda a fabricar uma realidade que permite esconder todos os conflitos sociais reais. Pior ainda. Como uma falsa oposição é dramatizada como "conflito", tem-se a impressão de que existe efetivo debate crítico entre nós, de que temos uma esfera pública atuante, uma mídia atenta e crítica e um país politicamente avançado, quando a realidade é, ponto por ponto, precisamente o inverso.
A dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve como fachada para "representar" a política sob a forma simplista, subjetivada e maniqueísta das novelas, enquanto se cala e se esconde acerca das bases de poder real na sociedade. Toda a aparência é de "crítica social", enquanto toda ação efetiva é a da conservação dos privilégios reais. Assim, fala-se do combate aos "coronéis" e às "oligarquias" - sempre caricatamente nordestinas como o bigode de Sarney - enquanto escondem-se as reais novas oligarquias responsáveis por abocanhar quase 70% do PIB sob a forma de lucro ou juros reduzindo os salários a pouco mais de 30%. Nos países europeus social-democratas essa proporção é inversa. As falsas oposições escondem oposições reais. O falso "charminho crítico" da dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve para esconder e desviar a atenção para a luta de classes que cinde o país entre privilegiados que possuem um exército de pessoas para servi-los a baixo preço e dezenas de milhões de excluídos sem nenhuma chance nem esperança de mudança de vida.
Para todo um exército de analistas que se concentram no "teatro" da política - com suas fofocas e escaramuças diárias entre senadores e deputados com poder decisório entre o nada e o muito pouco - falar-se em "luta de classes" é um tabu. Luta de classes é coisa do passado, tem a ver com greves de trabalhadores e sindicatos que estão desaparecendo ou perdendo importância. Essa é a cegueira da política como "espetáculo" pseudocrítico para um público acostumado à informação sem reflexão. A luta de classes só é percebida nas raras vezes em que as classes oprimidas logram alguma forma de reação pública eficaz. Condenam-se ao esquecimento todas as formas naturalizadas e cotidianas do uso e abuso do trabalho barato e não valorizado. Um pequeno exemplo. O exército de babás, empregadas, faxineiras, porteiros, office-boys, motoboys, que permitem que a classe média brasileira possa dedicar seu tempo a trabalhos valorizados e bem pagos relegando o trabalho pesado e mal pago a outra classe de seres humanos que tiveram o azar de nascer na família (e na classe social) errada. Isso não é "luta de classes"? Apenas porque não há piquetes, polícia e sangue nas ruas? Apenas porque essa dominação é silenciosa e aceita, dentre outras coisas porque também eles, os humilhados e ofendidos, ouvem todo dia que o nosso único mal é a corrupção no Senado ou em algum órgão estatal?
E para as classes média e alta? Não é um verdadeiro presente dos deuses ter privilégios que nem seus consortes europeus ou norte-americanos possuem e ainda poder ter a consciência tranquila de quem sabe que o mal do Brasil está em "outro" lugar, lá bem longe em Brasília, um "outro" abstrato, mau por definição, em relação ao qual podemos nos sentir a "virtude" por excelência? Não se fecha com isso um círculo de ferro onde necessidades sociais e existenciais podem ser manipuladas por uma política e uma mídia conservadora e seu público ávido por autolegitimação e por consciência tranquila?
Para Max Weber - pensador crítico mal lido entre nós como inspiração para a tese do patrimonialismo - os ricos, saudáveis e charmosos, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos, saudáveis e charmosos. Eles querem saber que têm "direito" a serem ricos, saudáveis e charmosos em oposição aos pobres, doentes e feios. É essa necessidade o verdadeiro fundamento e razão do sucesso da tese da suspeição do Estado entre nós. Ela serve como uma luva para não perceber e naturalizar um cotidiano injusto e ainda transferir qualquer responsabilidade para uma entidade abstrata e longínqua, garantindo boa consciência e aparência de envolvimento crítico na política.
A cortina de fumaça do falso debate acerca da demonização do Estado serve para deslocar a única e verdadeira questão do Brasil moderno: uma desigualdade abissal que separa gente com todos os privilégios, de um lado, de subgente sem nenhuma chance real de uma vida digna desse nome, de outro lado. O culpado desse crime coletivo não é apenas o bigode de Sarney. É toda uma sociedade infantilizada por falsos debates e por falsas prioridades e que ainda se pensa - suprema autoindulgência - como crítica e atuante. Esse projeto político não é de partidos, até porque o consenso conservador atinge todos indistintamente. As tímidas iniciativas de política social do atual governo, por exemplo, são mero paliativo da efetiva redenção dos secularmente humilhados e ofendidos. O que fazer com os recursos do pré-sal poderia e deveria ser o estopim para um novo debate brasileiro, corajoso, maduro e generoso, por oposição ao debate covarde, infantil e mesquinho que temos hoje.
*Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, é autor de A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive, a ser publicado em outubro pela UFMG
No excelente caderno Aliás do Estadão, no domingo último, temos um artigo de um sociólogo, professor em Juiz de Fora, Jessé de Souza, sob o título "O Estado de todas as culpas".
Vou me limitar, agora, a transcrever o artigo. Estava jogando bola e estou sem condições de comentá-lo. Mas recomendo vivamente a leitura. Lógico que teria observações a alguns trechos, é tudo muito polêmico, mas o raciocínio tem a ver com muita coisa que escrevo, sistematizou alguns pontos que talvez eu já tenha assinalado, enfim, foi mesmo uma grata surpresa ler esse texto e vou procurar mais trabalhos de nosso amigo Jessé...
O Estado de todas as culpas
Ele é só associado à ‘politicagem’. E o mercado, à ‘racionalidade’: eis a trava do debate público no Brasil
Jessé Souza*
O debate público e político brasileiro, há algumas décadas, é travado sob a forma de um suposto conflito entre mercado e Estado. A atual discussão sobre o petróleo do assim chamado pré-sal apenas o confirma. Assim sendo, se quisermos compreender efetivamente o que está em jogo nesse debate conjuntural sobre o que fazer com o dinheiro do petróleo recém-descoberto - assim como compreender os debates conjunturais do passado recente e dos que ainda vão acontecer no futuro próximo - temos que focar nossa capacidade compreensiva na reconstrução da estrutura invisível presente em todas essas situações conjunturais passageiras. O tema do debate muda ao sabor das circunstâncias. Sua "estrutura profunda", no entanto, permanece a mesma. Qual é a estrutura profunda nunca tematizada enquanto tal na mídia? O Estado é sempre suspeito de "politicagem" e de "aparelhamento" por indicações políticas e o mercado é definido como instância "técnica", ou seja, reflexo da "racionalidade pura" e do "cálculo técnico". Um é a esfera do "privilégio inconfessável" e o outro o reflexo da "razão técnica" supostamente no interesse de todos. É isso que explica o foco constante e diário na "corrupção política" como a lembrar ao público onde está o mal e onde está o bem. Como tudo no mundo social, essa é uma realidade "construída", fruto de uma leitura seletiva e interessada do mundo.
Como a recente crise mundial mostrou sobejamente (já nos esquecemos dela?), a corrupção é endêmica tanto no mercado quanto no Estado em qualquer latitude do globo. A mitigação da corrupção em qualquer esfera da vida ocorre quando os mecanismos de controle ganham eficiência. A leitura seletiva do Estado como ineficiente e corrupto e do mercado como pura virtude esconde a ambiguidade constitutiva dessas duas instituições que podem servir ao bem ou ao mal conforme seu uso. Por que a "dramatização" cotidiana mil vezes repetida de justamente essa visão distorcida do mundo? A meu ver porque ela é o núcleo mesmo da violência simbólica - aquele tipo de violência que não "aparece" como violência - que torna possível a manutenção e a reprodução continuada no tempo da sociedade complexa mais desigual e injusta do planeta.
O mundo social não é perceptível a olho nu. Pode-se ver a pobreza e a desigualdade nas ruas e não se perceber suas causas. O brasileiro das ruas aprendeu a vincular as mazelas sociais do Brasil à corrupção política. A tese do Estado corrupto - ou a tese do "patrimonialismo" na sua versão erudita igualmente conservadora e frágil - mata dois coelhos com uma mesma cajadada. Como o conflito que ela cria é falso de fio a pavio - na realidade, mercado e Estado são interdependentes e igualmente ambivalentes -, ela ajuda a fabricar uma realidade que permite esconder todos os conflitos sociais reais. Pior ainda. Como uma falsa oposição é dramatizada como "conflito", tem-se a impressão de que existe efetivo debate crítico entre nós, de que temos uma esfera pública atuante, uma mídia atenta e crítica e um país politicamente avançado, quando a realidade é, ponto por ponto, precisamente o inverso.
A dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve como fachada para "representar" a política sob a forma simplista, subjetivada e maniqueísta das novelas, enquanto se cala e se esconde acerca das bases de poder real na sociedade. Toda a aparência é de "crítica social", enquanto toda ação efetiva é a da conservação dos privilégios reais. Assim, fala-se do combate aos "coronéis" e às "oligarquias" - sempre caricatamente nordestinas como o bigode de Sarney - enquanto escondem-se as reais novas oligarquias responsáveis por abocanhar quase 70% do PIB sob a forma de lucro ou juros reduzindo os salários a pouco mais de 30%. Nos países europeus social-democratas essa proporção é inversa. As falsas oposições escondem oposições reais. O falso "charminho crítico" da dramatização do Estado ineficiente e corrupto serve para esconder e desviar a atenção para a luta de classes que cinde o país entre privilegiados que possuem um exército de pessoas para servi-los a baixo preço e dezenas de milhões de excluídos sem nenhuma chance nem esperança de mudança de vida.
Para todo um exército de analistas que se concentram no "teatro" da política - com suas fofocas e escaramuças diárias entre senadores e deputados com poder decisório entre o nada e o muito pouco - falar-se em "luta de classes" é um tabu. Luta de classes é coisa do passado, tem a ver com greves de trabalhadores e sindicatos que estão desaparecendo ou perdendo importância. Essa é a cegueira da política como "espetáculo" pseudocrítico para um público acostumado à informação sem reflexão. A luta de classes só é percebida nas raras vezes em que as classes oprimidas logram alguma forma de reação pública eficaz. Condenam-se ao esquecimento todas as formas naturalizadas e cotidianas do uso e abuso do trabalho barato e não valorizado. Um pequeno exemplo. O exército de babás, empregadas, faxineiras, porteiros, office-boys, motoboys, que permitem que a classe média brasileira possa dedicar seu tempo a trabalhos valorizados e bem pagos relegando o trabalho pesado e mal pago a outra classe de seres humanos que tiveram o azar de nascer na família (e na classe social) errada. Isso não é "luta de classes"? Apenas porque não há piquetes, polícia e sangue nas ruas? Apenas porque essa dominação é silenciosa e aceita, dentre outras coisas porque também eles, os humilhados e ofendidos, ouvem todo dia que o nosso único mal é a corrupção no Senado ou em algum órgão estatal?
E para as classes média e alta? Não é um verdadeiro presente dos deuses ter privilégios que nem seus consortes europeus ou norte-americanos possuem e ainda poder ter a consciência tranquila de quem sabe que o mal do Brasil está em "outro" lugar, lá bem longe em Brasília, um "outro" abstrato, mau por definição, em relação ao qual podemos nos sentir a "virtude" por excelência? Não se fecha com isso um círculo de ferro onde necessidades sociais e existenciais podem ser manipuladas por uma política e uma mídia conservadora e seu público ávido por autolegitimação e por consciência tranquila?
Para Max Weber - pensador crítico mal lido entre nós como inspiração para a tese do patrimonialismo - os ricos, saudáveis e charmosos, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos, saudáveis e charmosos. Eles querem saber que têm "direito" a serem ricos, saudáveis e charmosos em oposição aos pobres, doentes e feios. É essa necessidade o verdadeiro fundamento e razão do sucesso da tese da suspeição do Estado entre nós. Ela serve como uma luva para não perceber e naturalizar um cotidiano injusto e ainda transferir qualquer responsabilidade para uma entidade abstrata e longínqua, garantindo boa consciência e aparência de envolvimento crítico na política.
A cortina de fumaça do falso debate acerca da demonização do Estado serve para deslocar a única e verdadeira questão do Brasil moderno: uma desigualdade abissal que separa gente com todos os privilégios, de um lado, de subgente sem nenhuma chance real de uma vida digna desse nome, de outro lado. O culpado desse crime coletivo não é apenas o bigode de Sarney. É toda uma sociedade infantilizada por falsos debates e por falsas prioridades e que ainda se pensa - suprema autoindulgência - como crítica e atuante. Esse projeto político não é de partidos, até porque o consenso conservador atinge todos indistintamente. As tímidas iniciativas de política social do atual governo, por exemplo, são mero paliativo da efetiva redenção dos secularmente humilhados e ofendidos. O que fazer com os recursos do pré-sal poderia e deveria ser o estopim para um novo debate brasileiro, corajoso, maduro e generoso, por oposição ao debate covarde, infantil e mesquinho que temos hoje.
*Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora, é autor de A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive, a ser publicado em outubro pela UFMG
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Grande Depressão x Crise atual
Atualização do célebre post de Eichengreen e Rourke comparando a crise atual com a Grande Depressão dos anos 30. É cedo para comemorar.
Clique aqui.
Clique aqui.
domingo, 6 de setembro de 2009
Lula na UNASUL
A transmissão ao vivo do encontro foi um marco, não tenho conhecimento de coisa semelhante em anos recentes. Do ponto de vista mais prático, creio que prejudica o entendimento, pois muitos líderes passam a jogar para a torcida, mas, enfim, aconteceu e gostaria de registrar aqui ao menos algumas boas palavras do Presidente Lula.
Cidade Maravilhosa
Belíssimo vídeo de divulgação do RJ para as Olimpíadas 2016. Se sou favorável? Creio que sim. É preciso, no entanto, transparência e controle nos gastos, coisa que não aconteceu no PAN e provavelmente não vai rolar na Copa.
Os candidatos e o Pré-Sal
Conforme este humilde blog vinha adiantando, os debates sobre o pré-sal ganharam finalmente as manchetes da imprensa. E, da mesma forma que vinha colocando, gradualmente as posições estão vindo à superfície. A crítica óbvia, e superficial, quase tola, de estatismo e apropriação eleitoral, foi imediatamente ecoada pelos de sempre. Mas, esses perderam credibilidade e não são mais formadores de opinião. O importante é saber o que pensam os pré-candidatos à Presidência.
O post a seguir foi colado do blog do Nassif. Um jornalista da família Marinho publicou notinhas com, supostamente, a visão do Gov. Serra. Hoje na Folha há artigos da liderança do Governo no Senado e do ACM Neto e mais um oposicionista fazendo o contraditório. ACM Neto joga para a torcida e seus argumentos são muito fracos. O artigo da liderança do Governo também mereceria alguns reparos, mas é muito mais consistente.
Enfim, para resumir o que acho relevante, creio que há razoável concordância sobre o modelo adotado. Eu estou de acordo. Depois posso entrar em mais detalhes que, afinal de contas, ainda podem atrasar a aprovação. Até a Economist não perdeu tempo com certa demagogia que permeia o discurso oposicionista. Leiam abaixo qual seria a opinião do Serra (detalhe que no tópica Serra apoia Lula há boas idéias, mas no debaixo enumera apenas fatos e obviedades)...
O que Serra pensa do pré-sal
Atualizado
O provável candidato do PSDB nas próximas eleições, José Serra, não pode se calar ante o pré-sal. Depois que declarou que qualquer lei aprovada agora poderá ser revogada pelo próximo presidente, ficou na obrigação de dizer o que pensa sobre o tema.
Líderes do partido e mídia aliada pensam o seguinte:
1. A exploração deve ser aberta a todos os candidatos.
2. Não se deve dar privilégios à Petrobras.
3. O sistema de partilha iguala o Brasil às nações atrasadas.
4. O fundo soberano não pode ter gestão pública.
São posições que irão marcar o discurso político nas eleições do próximo ano.
O que pensa Serra sobre isso?
Por Heberth Xavier
Nassif, o jornalista Ilmar Franco, da coluna Panorama Político, d’O Globo, publicou ontem:
“SERRA APOIA LULA
O governador de São Paulo, José Serra, apoia a proposta do presidente
Lula para o petróleo do pré-sal. Serra concorda com seu fundamento: o
de aumentar a participação da União na renda do petróleo. Ele usa três
argumentos: 1. o preço do petróleo explodiu nos últimos anos; 2. as
reservas petrolíferas não estão crescendo; 3. as reservas do pré-sal
têm um risco exploratório menor.
“O TUCANO NÃO FARÁ CAMPANHA CONTRA
José Serra, pré-candidato a presidente, está convencido que a mudança
é necessária. Sua avaliação é que é irrelevante o debate concessão x
partilha. Para Serra: 1. essa riqueza é da União; 2. Lula é o
presidente eleito; 3. Lula tinha a prerrogativa de decidir; 4. cabe ao
Congresso examinar a proposta. Um amigo de Serra conta que ele gostou
da fala da ministra Dilma Rousseff sobre a adoção do modelo de
concessão no governo FH. Dilma lembrou que, quando isso ocorreu, o
modelo era compatível com um país vulnerável às crises externas, com
uma Petrobras descapitalizada e com o elevado risco exploratório das
reservas”.
Portanto, Nassif, Serra parece juntar-se ao Mendonção e ao Bresser-Pereira no grupo daqueles economistas do PSDB que gostam, em linhas gerais, do modelo apresentado pelo governo Lula para o pré-sal. Claro, há críticas aqui e ali, mas parecem apoiar o modelo.
Os três, portanto, Nassif, deveriam se juntar aos aloprados que o jornal O Globo chamou de possuidores de um “delírio estatista”. São três comunistas, incompetentes, irresponsáveis, igualzinho sugeriu o editorial do jornal carioca para se referir aos responsáveis pelo marco regulatório encaminhado por Lula ao Congresso.
O post a seguir foi colado do blog do Nassif. Um jornalista da família Marinho publicou notinhas com, supostamente, a visão do Gov. Serra. Hoje na Folha há artigos da liderança do Governo no Senado e do ACM Neto e mais um oposicionista fazendo o contraditório. ACM Neto joga para a torcida e seus argumentos são muito fracos. O artigo da liderança do Governo também mereceria alguns reparos, mas é muito mais consistente.
Enfim, para resumir o que acho relevante, creio que há razoável concordância sobre o modelo adotado. Eu estou de acordo. Depois posso entrar em mais detalhes que, afinal de contas, ainda podem atrasar a aprovação. Até a Economist não perdeu tempo com certa demagogia que permeia o discurso oposicionista. Leiam abaixo qual seria a opinião do Serra (detalhe que no tópica Serra apoia Lula há boas idéias, mas no debaixo enumera apenas fatos e obviedades)...
O que Serra pensa do pré-sal
Atualizado
O provável candidato do PSDB nas próximas eleições, José Serra, não pode se calar ante o pré-sal. Depois que declarou que qualquer lei aprovada agora poderá ser revogada pelo próximo presidente, ficou na obrigação de dizer o que pensa sobre o tema.
Líderes do partido e mídia aliada pensam o seguinte:
1. A exploração deve ser aberta a todos os candidatos.
2. Não se deve dar privilégios à Petrobras.
3. O sistema de partilha iguala o Brasil às nações atrasadas.
4. O fundo soberano não pode ter gestão pública.
São posições que irão marcar o discurso político nas eleições do próximo ano.
O que pensa Serra sobre isso?
Por Heberth Xavier
Nassif, o jornalista Ilmar Franco, da coluna Panorama Político, d’O Globo, publicou ontem:
“SERRA APOIA LULA
O governador de São Paulo, José Serra, apoia a proposta do presidente
Lula para o petróleo do pré-sal. Serra concorda com seu fundamento: o
de aumentar a participação da União na renda do petróleo. Ele usa três
argumentos: 1. o preço do petróleo explodiu nos últimos anos; 2. as
reservas petrolíferas não estão crescendo; 3. as reservas do pré-sal
têm um risco exploratório menor.
“O TUCANO NÃO FARÁ CAMPANHA CONTRA
José Serra, pré-candidato a presidente, está convencido que a mudança
é necessária. Sua avaliação é que é irrelevante o debate concessão x
partilha. Para Serra: 1. essa riqueza é da União; 2. Lula é o
presidente eleito; 3. Lula tinha a prerrogativa de decidir; 4. cabe ao
Congresso examinar a proposta. Um amigo de Serra conta que ele gostou
da fala da ministra Dilma Rousseff sobre a adoção do modelo de
concessão no governo FH. Dilma lembrou que, quando isso ocorreu, o
modelo era compatível com um país vulnerável às crises externas, com
uma Petrobras descapitalizada e com o elevado risco exploratório das
reservas”.
Portanto, Nassif, Serra parece juntar-se ao Mendonção e ao Bresser-Pereira no grupo daqueles economistas do PSDB que gostam, em linhas gerais, do modelo apresentado pelo governo Lula para o pré-sal. Claro, há críticas aqui e ali, mas parecem apoiar o modelo.
Os três, portanto, Nassif, deveriam se juntar aos aloprados que o jornal O Globo chamou de possuidores de um “delírio estatista”. São três comunistas, incompetentes, irresponsáveis, igualzinho sugeriu o editorial do jornal carioca para se referir aos responsáveis pelo marco regulatório encaminhado por Lula ao Congresso.
Do Baseline Scenario sobre trabalho mais elaborado do Krugman
Resumindo com estilo. O blog sugere aos interessados uma lida no artigo do nosso amigo nobel.
Krugman on Economics
with 87 comments
This weekend’s New York Times Magazine has the 7,000-word article about the state of macroeconomics that Paul Krugman has been hinting at for some time now. It’s a well-written, non-technical overview of the landscape and the position Krugman has been presenting on his blog, which for now I’ll just summarize for those who may not have the time to set aside just now.
Like many, Krugman faults the discipline for its infatuation with mathematical elegance:
“[T]he central cause of the profession’s failure was the desire for an all-encompassing, intellectually elegant approach that also gave economists a chance to show off their mathematical prowess.
“Unfortunately, this romanticized and sanitized vision of the economy led most economists to ignore all the things that can go wrong. They turned a blind eye to the limitations of human rationality that often lead to bubbles and busts; to the problems of institutions that run amok; to the imperfections of markets — especially financial markets — that can cause the economy’s operating system to undergo sudden, unpredictable crashes; and to the dangers created when regulators don’t believe in regulation.”
His history of post-Depression macroeconomics goes through roughly three phases: Keynesianism; Milton Friedman and monetarism, which, he argues, was relatively moderate compared to the positions of some of his self-styled followers; and the period from the 1980s until 2007, which he describes as the conflict between the Saltwater (coastal, pragmatic, New Keynesian) economists and the Freshwater (inland, efficient markets, neo-classicist) economists. According to Krugman, these two schools had differences on a theoretical level, but those differences were papered over by practical agreement on government policy: namely, monetary policy was superior to fiscal policy at managing the economy.
This false peace was exploded during the financial crisis by the zero bound, something Krugman has invoked often. The agreed-upon way to stimulate the economy in a recession is to lower interest rates. When interest rates hit zero, they can’t be lowered anymore (rather than lend you money and expect to get less back in the future, I should put it under my mattress), and then the policy question is what if anything else should be done. This provoked the fallout between people who favored the stimulus as a way of propping up demand and those who thought that for theoretical reasons a stimulus could not possibly have any positive impact.
In addition, Krugman argues, the two sides shared the same desire to represent the world using elegant mathematical models: “But the New Keynesian models that have come to dominate teaching and research assume that people are perfectly rational and financial markets are perfectly efficient.” Instead, we need to look to behavioral finance and behavioral economics, which has just gone from a hot fad in economics to the bandwagon to end all bandwagons. Krugman mentions Larry Summers’s “There Are IDIOTS” paper, which must now be the world’s most-cited-although-unpublished article, Robert Shiller, Andrei Schleifer, and Robert Vishny in particular.
This is from Krugman’s conclusion:
“So here’s what I think economists have to do. First, they have to face up to the inconvenient reality that financial markets fall far short of perfection, that they are subject to extraordinary delusions and the madness of crowds. Second, they have to admit — and this will be very hard for the people who giggled and whispered over Keynes — that Keynesian economics remains the best framework we have for making sense of recessions and depressions. Third, they’ll have to do their best to incorporate the realities of finance into macroeconomics.”
In other words, the world is messy and people are irrational, and as a result the world breaks down occasionally.
The field of economics has been going on a massive land-grab over the past few decades. It’s ironic that the area it seems to understand the least well is how an overall economy functions.
By James Kwak
Krugman on Economics
with 87 comments
This weekend’s New York Times Magazine has the 7,000-word article about the state of macroeconomics that Paul Krugman has been hinting at for some time now. It’s a well-written, non-technical overview of the landscape and the position Krugman has been presenting on his blog, which for now I’ll just summarize for those who may not have the time to set aside just now.
Like many, Krugman faults the discipline for its infatuation with mathematical elegance:
“[T]he central cause of the profession’s failure was the desire for an all-encompassing, intellectually elegant approach that also gave economists a chance to show off their mathematical prowess.
“Unfortunately, this romanticized and sanitized vision of the economy led most economists to ignore all the things that can go wrong. They turned a blind eye to the limitations of human rationality that often lead to bubbles and busts; to the problems of institutions that run amok; to the imperfections of markets — especially financial markets — that can cause the economy’s operating system to undergo sudden, unpredictable crashes; and to the dangers created when regulators don’t believe in regulation.”
His history of post-Depression macroeconomics goes through roughly three phases: Keynesianism; Milton Friedman and monetarism, which, he argues, was relatively moderate compared to the positions of some of his self-styled followers; and the period from the 1980s until 2007, which he describes as the conflict between the Saltwater (coastal, pragmatic, New Keynesian) economists and the Freshwater (inland, efficient markets, neo-classicist) economists. According to Krugman, these two schools had differences on a theoretical level, but those differences were papered over by practical agreement on government policy: namely, monetary policy was superior to fiscal policy at managing the economy.
This false peace was exploded during the financial crisis by the zero bound, something Krugman has invoked often. The agreed-upon way to stimulate the economy in a recession is to lower interest rates. When interest rates hit zero, they can’t be lowered anymore (rather than lend you money and expect to get less back in the future, I should put it under my mattress), and then the policy question is what if anything else should be done. This provoked the fallout between people who favored the stimulus as a way of propping up demand and those who thought that for theoretical reasons a stimulus could not possibly have any positive impact.
In addition, Krugman argues, the two sides shared the same desire to represent the world using elegant mathematical models: “But the New Keynesian models that have come to dominate teaching and research assume that people are perfectly rational and financial markets are perfectly efficient.” Instead, we need to look to behavioral finance and behavioral economics, which has just gone from a hot fad in economics to the bandwagon to end all bandwagons. Krugman mentions Larry Summers’s “There Are IDIOTS” paper, which must now be the world’s most-cited-although-unpublished article, Robert Shiller, Andrei Schleifer, and Robert Vishny in particular.
This is from Krugman’s conclusion:
“So here’s what I think economists have to do. First, they have to face up to the inconvenient reality that financial markets fall far short of perfection, that they are subject to extraordinary delusions and the madness of crowds. Second, they have to admit — and this will be very hard for the people who giggled and whispered over Keynes — that Keynesian economics remains the best framework we have for making sense of recessions and depressions. Third, they’ll have to do their best to incorporate the realities of finance into macroeconomics.”
In other words, the world is messy and people are irrational, and as a result the world breaks down occasionally.
The field of economics has been going on a massive land-grab over the past few decades. It’s ironic that the area it seems to understand the least well is how an overall economy functions.
By James Kwak
sábado, 5 de setembro de 2009
E por aqui... I win, you lose... em alta!
E por aqui, ontem havia uma entrevista no Estadão de um ex-diretor do BC que hoje administra recursos dos muito muito ricos. Satisfeito com o COPOM, afirma que os juros deverão se manter estáveis até o começo de 2011. Incrível a bola de cristal dele. 2011 ???? Nesse momento de crise e incerteza ele está vendo 15 meses na frente. Ahhh, é o "risco político" das eleições. Está explicado então.
Os juros, repito, representam a 3a maior taxa real do mundo. 0,5% a menos deve dar uma economia anual de uns R$ 5 bilhões. Quedas movem a economia, geram renda, empregos, facilitam tudo. Risco de inflação? Meu Deus, IGPM deflacionário, câmbio valorizado, IPCA caindo.
"Mas a economia pode voltar a crescer excessivamente e pressionar os preços". Ok, se e quando isso acontecer a gente vê o que faz. Estamos a léguas de qualquer descontrole inflacionário. Os ricos estão em crise e os europeus em deflação...
O que acho mais engraçado, e me seguro para não ficar bombardeando isso todo dia, nem cito mais nomes, é que os argumentos do cara são travestidos numa linguagem técnica e racional, revestidos de uma autoridade que se supõe científica, uma arrogância sem fim. Fica com aquela cara de sujeito responsável, leitor de realidades que não conseguimos compreender.
Na prática, faz apenas o velho papel de repetir as platitudes que agradam aos estratos mais ricos da sociedade, que ainda irão lutar por algum tempo para permanecerem na confortável posição de rentistas. A turma do "I win, you lose".
Os juros, repito, representam a 3a maior taxa real do mundo. 0,5% a menos deve dar uma economia anual de uns R$ 5 bilhões. Quedas movem a economia, geram renda, empregos, facilitam tudo. Risco de inflação? Meu Deus, IGPM deflacionário, câmbio valorizado, IPCA caindo.
"Mas a economia pode voltar a crescer excessivamente e pressionar os preços". Ok, se e quando isso acontecer a gente vê o que faz. Estamos a léguas de qualquer descontrole inflacionário. Os ricos estão em crise e os europeus em deflação...
O que acho mais engraçado, e me seguro para não ficar bombardeando isso todo dia, nem cito mais nomes, é que os argumentos do cara são travestidos numa linguagem técnica e racional, revestidos de uma autoridade que se supõe científica, uma arrogância sem fim. Fica com aquela cara de sujeito responsável, leitor de realidades que não conseguimos compreender.
Na prática, faz apenas o velho papel de repetir as platitudes que agradam aos estratos mais ricos da sociedade, que ainda irão lutar por algum tempo para permanecerem na confortável posição de rentistas. A turma do "I win, you lose".
Um novo modelo de crescimento... sustentável!?!?
VINICIUS TORRES FREIRE
Feliz aniversário, Wall Street
--------------------------------------------------------------------------------
Com subsídio estatal, mundo escapou da Segunda Grande Depressão; mas onde está o novo fator de crescimento?
--------------------------------------------------------------------------------
O RENOVADO presidente do Banco Central americano, Ben Bernanke, quase declarou ter salvo o mundo da Segunda Grande Depressão, durante o encontro estival de BCs, ministros de Finanças e economistas em Jackson Hole (Wyoming, EUA), no final de agosto. Stephen Roach escreveu que Bernanke se comporta como o médico que salva miraculosamente o paciente, doente no entanto quase desenganado por ter sido vítima de barbeiragens do próprio médico -Bernanke. Tido como espírito de porco contumaz, embora bastante certeiro, Roach preside o Morgan Stanley na Ásia, após longa temporada como economista-chefe do banco, quando fez fama de urubu.
Mas o mundo de fato não derreteu na Segunda Grande Depressão. Em boa parte, o desastre final foi pontualmente evitado devido às ações de Bernanke. Entre os estertores de Bush e a chegada de Obama, ele tomou conta do barraco quase sozinho. O fato de as condições materiais de vida serem muito boas e de o Estado de bem-estar social não ter sido desmontado ajudaram a evitar a Depressão e eventuais tumultos políticos (sobre "condições de vida muito boas": lembre-se de que, nos anos 1930, muita gente passou fome e frio mortal no mundo rico).
É verdade também que o "plano Bernanke" basicamente foi (aliás é) um programa em que o Fed toma o lugar de largas partes do mercado financeiro (que faliu ou fugiu) e subsidia largamente a banca privada. Por fim, os governos torraram dinheiro das próximas gerações (fizeram grossa dívida) a fim de subsidiar o consumo e limpar a sujeira de Wall Street e cia. "Sujeira" é um termo leve e adequado a um jornal familiar.
A finança mais poderosa, rica e sofisticada do planeta promoveu a maior e a mais incompetente, trambiqueira, falaciosa e corrupta alocação de recursos desde o início dos tempos. Isto é, essa gente investiu onde não devia, destruiu poupança, malversou capital, ficou com os lucros e deixou a conta para os trouxas. Neste quase ano completo do estouro final da crise, trata-se de um feliz aniversário para a banca.E para o resto? É difícil encontrar por aí um indicador econômico importante que continue a piorar. Ou melhor, alguns continuam a piorar, mas cada vez mais devagar, caso do desemprego americano. São agora mais raros os mercados, como o de imóveis comerciais nos EUA, ou de economias, como as do Leste Europeu e da Espanha, que ainda afundam. Parte importante da sensação de melhora, porém, se deve ao contraste com a "experiência de quase morte"; o doente continua ligado a muitos aparelhos para sobreviver.
O BC dos EUA, o Fed, sustenta ainda parte grossa do mercado de crédito nos EUA. O consumo privado se sustenta ainda com muito subsídio oficial. A produtividade e o lucro de empresas cresceu, como nos EUA, mas isso é corte de custos (demissões e queda de salários). Na recessão do início do século, bem mais benigna, os EUA saíram da crise com juros baixos e pendurados numa bolha, a imobiliária. Desta vez, quando e se acabar o subsídio público, de onde virá o dinheiro para impulsionar o consumo das ainda avariadas famílias dos EUA? Como o capital vai crescer -onde está a novidade do investimento privado?
Feliz aniversário, Wall Street
--------------------------------------------------------------------------------
Com subsídio estatal, mundo escapou da Segunda Grande Depressão; mas onde está o novo fator de crescimento?
--------------------------------------------------------------------------------
O RENOVADO presidente do Banco Central americano, Ben Bernanke, quase declarou ter salvo o mundo da Segunda Grande Depressão, durante o encontro estival de BCs, ministros de Finanças e economistas em Jackson Hole (Wyoming, EUA), no final de agosto. Stephen Roach escreveu que Bernanke se comporta como o médico que salva miraculosamente o paciente, doente no entanto quase desenganado por ter sido vítima de barbeiragens do próprio médico -Bernanke. Tido como espírito de porco contumaz, embora bastante certeiro, Roach preside o Morgan Stanley na Ásia, após longa temporada como economista-chefe do banco, quando fez fama de urubu.
Mas o mundo de fato não derreteu na Segunda Grande Depressão. Em boa parte, o desastre final foi pontualmente evitado devido às ações de Bernanke. Entre os estertores de Bush e a chegada de Obama, ele tomou conta do barraco quase sozinho. O fato de as condições materiais de vida serem muito boas e de o Estado de bem-estar social não ter sido desmontado ajudaram a evitar a Depressão e eventuais tumultos políticos (sobre "condições de vida muito boas": lembre-se de que, nos anos 1930, muita gente passou fome e frio mortal no mundo rico).
É verdade também que o "plano Bernanke" basicamente foi (aliás é) um programa em que o Fed toma o lugar de largas partes do mercado financeiro (que faliu ou fugiu) e subsidia largamente a banca privada. Por fim, os governos torraram dinheiro das próximas gerações (fizeram grossa dívida) a fim de subsidiar o consumo e limpar a sujeira de Wall Street e cia. "Sujeira" é um termo leve e adequado a um jornal familiar.
A finança mais poderosa, rica e sofisticada do planeta promoveu a maior e a mais incompetente, trambiqueira, falaciosa e corrupta alocação de recursos desde o início dos tempos. Isto é, essa gente investiu onde não devia, destruiu poupança, malversou capital, ficou com os lucros e deixou a conta para os trouxas. Neste quase ano completo do estouro final da crise, trata-se de um feliz aniversário para a banca.E para o resto? É difícil encontrar por aí um indicador econômico importante que continue a piorar. Ou melhor, alguns continuam a piorar, mas cada vez mais devagar, caso do desemprego americano. São agora mais raros os mercados, como o de imóveis comerciais nos EUA, ou de economias, como as do Leste Europeu e da Espanha, que ainda afundam. Parte importante da sensação de melhora, porém, se deve ao contraste com a "experiência de quase morte"; o doente continua ligado a muitos aparelhos para sobreviver.
O BC dos EUA, o Fed, sustenta ainda parte grossa do mercado de crédito nos EUA. O consumo privado se sustenta ainda com muito subsídio oficial. A produtividade e o lucro de empresas cresceu, como nos EUA, mas isso é corte de custos (demissões e queda de salários). Na recessão do início do século, bem mais benigna, os EUA saíram da crise com juros baixos e pendurados numa bolha, a imobiliária. Desta vez, quando e se acabar o subsídio público, de onde virá o dinheiro para impulsionar o consumo das ainda avariadas famílias dos EUA? Como o capital vai crescer -onde está a novidade do investimento privado?
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Refletindo sobre o blog
Estou pensando sobre esse blog. É possível que passe a escrever menos, porém com textos mais elaborados, pensados, não esse negócio de sair escrevendo na louca e postar. A conferir.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Lei para internet no período eleitoral
Aprovaram um monstrengo aí numa Comissão do Senado. Vai a plenário agora.
Os detalhes dessa história devem ser engraçados. Este blog já avisa que, caso isso prossiga, irá desrespeitar a regra. Mas acho que nem vai precisar, difícil algo assim ir para a frente. Parece que há decisões no judiciário que já oferecem algumas idéias iniciais. Vamos acompanhar esse negócio aqui.
Os detalhes dessa história devem ser engraçados. Este blog já avisa que, caso isso prossiga, irá desrespeitar a regra. Mas acho que nem vai precisar, difícil algo assim ir para a frente. Parece que há decisões no judiciário que já oferecem algumas idéias iniciais. Vamos acompanhar esse negócio aqui.
Como esperado
O COPOM manteve os juros. Tudo bem, era esperado, nenhuma surpresa. É razoável um tempo agora para avaliar como estamos e para onde vamos. 45 dias. Bola pra frente.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Perguntar não ofende
São Paulo está em guerra civil?
A queda nas estatísticas de homicídios deve-se a mais prisões e presídios ou ao fato do PCC ter se estabelecido como poder paralelo e ter criado seus próprios tribunais? Ou seria fruto da melhora econômica e de programas sociais públicos e de ONGs na periferia?
A queda nas estatísticas de homicídios deve-se a mais prisões e presídios ou ao fato do PCC ter se estabelecido como poder paralelo e ter criado seus próprios tribunais? Ou seria fruto da melhora econômica e de programas sociais públicos e de ONGs na periferia?
Em Vitoria/ES
Cidade agradável. Clima bom. Trabalho foi legal, mas nada demais.
Sem paciência para falar de pré-sal. Está cheio de reportagens nos jornais. Algumas delas falam por si só.
Também sem a menor vontade de retomar o câmbio.
Quero mudar um pouco de assuntos.
Amanhã.
Sem paciência para falar de pré-sal. Está cheio de reportagens nos jornais. Algumas delas falam por si só.
Também sem a menor vontade de retomar o câmbio.
Quero mudar um pouco de assuntos.
Amanhã.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Tema de sempre
Bem, voltemos ao tema mais polêmico, um debate histórico no Brasil e atualmente em relevo, por razões óbvias. Câmbio, ora pois. O Governador José Serra outro dia deu declarações sobre possíveis danos a um Brasil especializado na exportação de commodities. Eu concordo inteiramente com ele. Não sei o que o Gov. Aécio e a querida Senadora Marina pensam sobre isso. Também tenho cá minhas dúvidas com relação à Ministra Dilma embora, a princípio, creio que ela acompanharia as observações do Gov. Serra. O IPEA, na última edição da Revista Desafios do Desenvolvimento, faz uma excelente discussão do tema do Brasil como exportador de commodities.
Hoje, na FSP, há matérias sobre o debate. Há inclusive um bate-bola entre a FIESP e o Professor de Deus. No Valor a coisa está num nível mais alto. A matéria do Valor é mais técnica, abrange não só o movimento do câmbio, mas a intensidade das oscilações. A reportagem aborda a tendência mundial de moedas de exportadores de commodities, a conversibilidade, o real moeda forte como consequência do desenvolvimento do país, impactos nas contas do governo, acúmulo de reservas, profundidade do mercado nacional, o carry trade, regulação, política monetária e metas de inflação. Fiquei com a impressão de que a matéria levantou excelentes bolas, uma pena que tenha faltado espaço para desenvolver tantas questões.
Com comentários no Valor, o Nelson Barbosa, Secretário de Política Econômica da Fazenda (SPE), mostra que é mesmo muito bom. O cara tem realmente a manha, conhece tudo, fala bem, sabe a hora de ser duro mas tem a humildade de se posicionar em torno de algo que reconhece como sendo controverso.
Vejam só o final da matéria. Palavras do SPE: "Só tenho uma certeza: seremos bem-sucedidos se acharmos uma solução brasileira, que pode ter inspiração em exemplos de outros países, mas não uma simples transposição de modelo..... há o debate e ele não quer dizer que vamos abandonar o câmbio flutuante... A arte da política não é escolher entre os extremos, mas administrar os trade-offs".
E eu completo: não estamos aqui falando de ciência. Nada é inevitável, nada segue a ordem natural das coisas, não existe ordem natural, mas sim escolhas, custos e benefícios, ganhadores e perdedores. Essa interdição do debate advogada por alguns ortodoxos, por boa parte dos analistas de mercado, é uma enganação. Da mesma forma, estão errados aqueles que vêem no mercado apenas um bando de especuladores malvados.
Economia política, economia e política, política e economia, Estado e Mercado.
Hoje, na FSP, há matérias sobre o debate. Há inclusive um bate-bola entre a FIESP e o Professor de Deus. No Valor a coisa está num nível mais alto. A matéria do Valor é mais técnica, abrange não só o movimento do câmbio, mas a intensidade das oscilações. A reportagem aborda a tendência mundial de moedas de exportadores de commodities, a conversibilidade, o real moeda forte como consequência do desenvolvimento do país, impactos nas contas do governo, acúmulo de reservas, profundidade do mercado nacional, o carry trade, regulação, política monetária e metas de inflação. Fiquei com a impressão de que a matéria levantou excelentes bolas, uma pena que tenha faltado espaço para desenvolver tantas questões.
Com comentários no Valor, o Nelson Barbosa, Secretário de Política Econômica da Fazenda (SPE), mostra que é mesmo muito bom. O cara tem realmente a manha, conhece tudo, fala bem, sabe a hora de ser duro mas tem a humildade de se posicionar em torno de algo que reconhece como sendo controverso.
Vejam só o final da matéria. Palavras do SPE: "Só tenho uma certeza: seremos bem-sucedidos se acharmos uma solução brasileira, que pode ter inspiração em exemplos de outros países, mas não uma simples transposição de modelo..... há o debate e ele não quer dizer que vamos abandonar o câmbio flutuante... A arte da política não é escolher entre os extremos, mas administrar os trade-offs".
E eu completo: não estamos aqui falando de ciência. Nada é inevitável, nada segue a ordem natural das coisas, não existe ordem natural, mas sim escolhas, custos e benefícios, ganhadores e perdedores. Essa interdição do debate advogada por alguns ortodoxos, por boa parte dos analistas de mercado, é uma enganação. Da mesma forma, estão errados aqueles que vêem no mercado apenas um bando de especuladores malvados.
Economia política, economia e política, política e economia, Estado e Mercado.
Assinar:
Postagens (Atom)